Rápido devaneio sobre medo e desejo

Você tem medo de quê?

Já tem algum tempo que encaro essa tela em branco. Já escrevi e apaguei centenas de frases. Talvez eu esteja com um bloqueio criativo. Ou quem sabe eu possa contar um segredo: eu morro de medo de escrever. E mesmo assim é o que faço.

O medo é um sentimento que todos passamos ao longo da vida, em diversas situações. De forma geral, ele costuma antecipar um perigo, tendo uma função primitiva de preservação das espécies — se conseguimos evitar um predador ou um perigo, sobrevivemos. Contudo, é impossível deixar de notar que na nossa experiência, o medo parece ter nuances ainda mais complexas. As pessoas têm medo da morte, medo de perder o emprego, medo de barata, medo de salmonela, medo de se sentirem sozinhos, medo de fazer cirurgia, medo de serem parados pela polícia, medo sei lá o que, medo que dá medo do medo que dá (vide essa belíssima música Lenine — Miedo).

No fim das contas, o medo não está mais apenas relacionado com o surgimento de um perigo real — ele também se comunica com os nossos perigos internos (aqueles conteúdos obscuros que devem permanecer escondidos), com as nossas fantasias e contradições e com nosso prazer e desejo. Em outras palavras, o medo não pode somente avisar sobre um perigo externo como também indica algo do mais íntimo da nossa experiência enquanto indivíduos.

Compreender a relação do medo com os perigos externos e internos é até fácil, afinal está na base do sentimento essa relação com a evitação de perigos. Mas nem tanto no caso do prazer e do desejo. Ainda assim, no caso do prazer é só pensarmos nos filmes de terror ou em esportes radicais: situações que provocam algum tipo de susto ou medo, contudo, em ambiente relativamente seguros e controlados: as descargas de toda a tensão que acumulamos são vividas com muito prazer. O suspense que vai sendo criado durante a cena do mocinho inadvertido abrindo a porta do armário no fim do corredor ou a antecipação logo antes de saltar da porta do avião com a sacola de lona nas costas aumentam o nível de energia e tensão interna e o grito, a resolução do problema, o salto e tudo mais produzem uma descarga semelhante ao orgasmo, que por sua vez também é uma descarga de energia sexual.

Quantas pessoas depois de levar um susto não riem aliviadas?

A relação entre medo e desejo, no entanto, ainda permanece obscura.

O desejo, na psicanálise, trata de uma falta que funda nossa existência psíquica e permite que nos movimentemos, que estejamos vivos. Por estar num ponto tão central da nossa experiência, um dos pontos fundamentais dele é que não temos como defini-lo pelas palavras — é um enigma. O que podemos dizer, ao que me parece, é que medo e desejo se esbarram nesse campo dos limites entre vida e morte. Penso que sentimos medo de viver tanto se não mais do que outros medos.

E assim, mesmo o desejo não podendo ser definindo, ele ainda indica o centro de nossa galáxia, onde gravitam nossos planetas e onde queima o nosso sol. E mais: onde está nosso buraco negro.

Com certeza isso dá medo.

Eu tenho medo de escrever. Quem sabe vou falar a palavra que me leva direto ao buraco negro, ou uma palavra asteroide que está só de passagem… É uma dança com a morte, a possibilidade de flertar com os limites da existência e sobreviver pra contar história.

Ainda assim, escrevo.