Tenho tido dificuldade em diferenciar sonhos de realidade. Semana passada tive a sensação de estar sonhando enquanto dirigia. Parei o carro e abri a porta para sair. Tive que sentir o vento no meu rosto e respirar fundo algumas vezes, até me acostumar com os meus pés no chão e com a realidade, de novo.

Não é uma coisa nova, sabe? Sempre tive essa dificuldade. Depois do incidente com o carro, joguei fora alguns poemas velhos de quando eu era adolescente. Talvez eu tenha só sonhado durante a adolescência toda, difícil dizer.

Esses dias, enquanto tocava violão, tive uma vaga impressão de ter uma das cordas desafinadas. Precisei parar e me concentrar pra lembrar que foi só um sonho, e que a corda, na verdade, estava perfeitamente normal.

Não é como se eu vivesse sonhando, também, é mais como se eu sonhasse acordado, todos os dias, o tempo todo. Isso dificulta a minha percepção do que é real e do que é sonho. Péssima influência, Augusto dos Anjos, péssima influência, a dos signos do zodíaco.

Mas, veja bem, o sonho e a realidade tem muitas semelhanças. Ambas são sensações produzidas pelo nosso próprio cérebro. Se a realidade se limita a sensações táteis, visuais e olfativas, os sonhos não estão tão longe assim...

O problema, na verdade, é que essa sensação é muito sutil, quase imperceptível, a ponto de ser difícil de reconhecer em qual realidade me encontro. Se é a do mundo, ou a da minha própria cabeça.

A realidade dos sonhos parece ser mais fácil, mutável, imprevisível, as vezes. A do mundo é concreta, complicada, mais difícil de engolir. Talvez por isso passamos boa parte das nossas vidas sonhando, ou, pelo menos, oito horas por dia, pros mais afortunados.

É injusto, eu acho. A realidade do mundo se dá conta até de apagar da nossa memória algumas lembranças da realidade dos sonhos. E que fique claro que nosso corpo material está incluso na realidade mundana, junto com o sistema nervoso, o cérebro e todas suas funções vitais.

A mente, não. A mente é essa entidade que atua na tênue linha entre a realidade mundana e a realidade dos sonhos. É o que constrói a dualidade do ser através do conflito intermitente entre o consciente e o subconsciente, para que não seja possível misturar as duas realidades.

É isso, talvez a minha mente esteja perdendo um pouco a eficiência. Uma pena, depois de tantos anos sonhando acordado, a pobrezinha já deve estar confusa, sem conseguir distinguir sonho e a realidade, o sono e o despertar, imagina daqui pra frente...

Bom, de qualquer forma, acho que depois de tento tempo, é hora de acordar. Abrir os olhos e começar um novo dia, depois daqueles cochilos que te deixam até sem saber onde você acabou dormindo. Só preciso decidir, ainda, em qual realidade quero acordar.

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Thanks to Fernanda Turino

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Estudante de Ciências Sociais na Unicamp. Leitor de Filosofia, Sociologia, História e Romances. Interessado em política.

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