Meu celular quebrou e isso foi a melhor coisa que aconteceu

Era final de abril quando, com o telefone no colo, fui descer de um carro e plaft! Caiu, quebrou e acabou. Não só o vidro da tela. O tombinho destruiu o display inteiro. Me restou dormir e lamentar.

Mas antes, muito antes disso, eu nascia. E o tal do celular, muito antes do smartphone, era novidade por essas terras com direito à primeira página da Folha de SP.

Naquele 16 de agosto de 1990 era a Philips quem lançava moda com uma espécie de telefone que “permite fazer ligações de locais impossíveis aos aparelhos comuns (carro, rua etc)”. Olhando agora, a descrição chega a ser engraçada. Imagine ainda sugerir que se fizesse ligações do carro? Vish!

Capa da Folha de SP de 16 de agosto de 1990. No destaque notícia sobre o celular da Philips

O tempo foi passando, levando minha juventude e dando mais funções à nova tecnologia. Veio a internet móvel. Vieram os pacotes de dados, vieram celulares cada vez mais capazes e sua popularização. Chegou o iPhone e salvou a empresa da maçã mordida. E eu acompanhei as tendências.

Meu primeiro telefone celular foi um Siemens daqueles com tela slide que filmava até 30 segundos (dariam três snaps). Morreu com menos de um ano, mas antes deixou sua contribuição para as inutilidades internéticas.

~Curta metragem~ filmado com um Siemens sei lá o que

Vieram outros. Em geral o seus fins foram quedas intrépidas e bobas. Um Motorola caiu de tela pra baixo quando fui atender e esqueci que ele estava preso ao carregador. Foi um efeito estilingue fatal.

Dai mudei para Beagá e me vi obrigado a usar um aparelho simples por um bom tempo. Afinal, precisava manter contato com a família no interior. Nessa época começava o curso de Jornalismo e Multimídia. E, “por todos os santos, que espécie de profissional multimídia não tem um smartphone?”, foi o que ouvi algumas dezenas de vezes.

Era 2013 e aconteciam as Jornadas de Junho, que cobri direto da rua trocando SMS com a redação do jornal Contramão. Sinceramente, foi uma cobertura responsa. Bem, apesar disso, me convenci que precisava mesmo de um aparelho melhor.

A relação com o Nexus 4 foi de uma linda lua de mel estendida por mais de dois anos, até o momento de sua morte, numa queda idiota quando fui conferir as horas.

O falecido Nexus 4

A verdade é que naquela época já flertava em trocá-lo por um Nexus 5. Foi o que fiz no dia seguinte, mas como não encontrei o objeto de desejo, apelei para um Moto X dividido em 12 vezes sem juros (aham, sem juros, cê jura).

O novo telefone foi tratado com toda a pompa. Só não ganhou película. A famosa economia porca. Caiu do colo quando descia do carro. Plaft!

Desde então, há uns três meses, estou sem celular. A primeira semana foi de desespero e fazer contas: precisava de 600 Dilmas pra bancar o conserto. Opa, então tinha que conseguir uns frilas e levantar a grana. Segunda semana de abstinência e resolvi que não era hora de fazer dívidas. Terceira semana e, putz, eu tô curtindo isso. Quarta semana e finalmente me dou conta: não, eu não quero mais ter um smartphone.

Explico: é que nesse tempo redescobri alguns prazeres que ordeno aqui. Também passei a não entender algumas coisinhas.

Eu, o sofá, Jim, a mesa e nossos quase nirvanas. Cliques da Franciele Carvalho.
  1. O primeiro choque veio quando sentei no sofá da sala. Ócio. Era só isso. Naquele momento eu não respondia ninguém no WhatsApp nem rolava o dedo na tela pra que aquele número na frente dos grupos desaparecesse. Também não via fotos no Instagram ou ouvia música no YouTube. Patavina. Porra nenhuma. Eu só descansava. Só respirava. E isso foi maravilhoso. Agora até entendo que meu gato, Jim, fique longas horas contemplando o nada.
  2. Em seguida me dei conta que meu sono vinha mais fácil. Descobri que Morfeu é desses que se garantem à moda antiga: chega junto sem ajuda de nenhum app e me abraça para o sono. Tentei algumas vezes pegar o celular da namorada e ver o que tinha, por exemplo, no Snapchat. Mas tudo parecia tão chato comparado com meus sonhos noite adentro…
  3. A leitura — que me dava prazeres desde a infância, quando era perna de pau demais para o futebol e, por orgulho, precisava me apegar aos livros da coleção Vagalume — voltou a ser presente de verdade no meu cotidiano. A trocadora do busão já me dá bom dia emendando um menino do livro.
  4. Comecei a notar que eu, de repente, assistia melhor. Quando dava o play em algum filme, não perdia uma cena que parecesse desinteressante enquanto me atualizava da cena política do país. E isso fez toda a diferença na compreensão das obras que vieram a seguir.
  5. Na conversa do dia-a-dia a mesma coisa. Agora eu passava a ser todo ouvidos. Não acontece, por exemplo, de no meio da prosa dar um pulo por que acabei de ver mais uma féladaputisse de Eduardo Cunha.
  6. Aliás, me atualizar sobre o que acontecia se tornou algo mais saudável. Agora eu tenho meus momentos de ler o noticiário. Não mais uma compulsão por saber tudo o que sai o tempo inteiro. Não mais uma necessidade por acompanhar cada reportagem postada no Facebook com aquela plaquinha de urgente. Tenho andado menos estressado e continuo bem informado.
  7. Redescobri o tempo. O que foi precioso para a conclusão de um livro-reportagem, Trabalho de Conclusão de Curso que deu trabalho mas que também tem rendido um orgulho difícil de explicar.
  8. Passei a usar com cada vez menos frequências o Facebook, Twitter, Snapchat, Instagram e afins. As vezes ainda pego o telefone da minha namorada para interagir por esses locais. Mas a disposição tem sido regressiva. O que também refletiu no uso via web destes canais. Mal mal tenho distribuído likes. Me sinto menos exposto, menos invadido, menos cobrado.
  9. Opa, este é um tópico importante: sem ter como usar os apps para troca de mensagens instantâneas passei a não ter mais que responder ninguém assim que o recado chega. Faço tudo no meu tempo, na ordem que melhor me apraz. Sem pressão, sem cobrança. Desculpas insinceras pra quem fica bolado com isso, mas ó: assim vai continuar.
  10. Por outro lado, a fissura de algumas pessoas em permanecer conectadas ao portal luminoso de seus mundos particulares (e tão públicos) começou a me incomodar. De repente não tinha mais saco para repetir uma frase que fulano não ouviu, estava lendo/vendo algo naquelas polegadinhas tochscreen.
  11. Hoje, quando vejo cenas como aquele monte de gente no Central Park, isto é, num espaço de convivência, jogando Pokemon GO, sem interagir uns com os outros, só consigo enxergar nisso um quê de futuro distópico, mas já no presente.

Claro que esse império do sossego deve cair mais cedo ou mais tarde.

É bem provável que eu me veja em uma situação em que, profissionalmente, ter um smartphone seja mesmo necessário. E isso pode acontecer em breve. Também vai chegar uma hora que minha família vai querer falar comigo através de um telefone próprio. E a namorada não tem que bancar a secretária.

Bem, até que eu precise mesmo de um, os planos são: continuar sem até que não dê mais. Sabe, é que descobri que o celular é só um acessório. Cheio de possibilidades. Algumas delas incríveis. Mas é só e tão somente só um acessório. E é bom não (o verbo não poderia ser outro) precisar dele.