Milagres que nunca se operam perante a fome

Fotografia autoral

Uma geada forte tomava conta da cidade, era possível sentir os ossos trincarem a cada brisa forte que o vento trazia. Dentro da estação, pessoas se acumulavam entre lojas, catracas e adolescentes pedindo esmolas.

Eu tinha pressa, o setor de estágio só ficaria aberto por uma hora e agora só me restavam quinze minutos, antes de dar com a cara novamente na porta. Desviei então de alguns corpos embrulhados em casacos grandes, alguns até batiam na altura dos joelhos. Também havia cachecóis aos montes, cobrindo os pescoços de mulheres com botas que esquentavam as canelas. Quando consegui um pequeno espaço para conferir as horas, notei que meu tempo se esgotava, tentei enxergar a cara que a tarde trazia, se chovia, se o sol brotara ou se nevava. A temperatura era fria, muito fria.

Olhei pela janela tentando descobrir uma maneira menos cruel de enfrentar todo aquele frio, e avistei um homem próximo às escadas, do lado de fora, sentado ao chão com as pernas descobertas, as mãos estiradas, os olhos e a boca num tom de suplica. O homem erguia o braço bem alto cada vez que alguém passava por ele. Ele pedia uma moeda, uma ajuda qualquer, um prato de comida ou uma misericórdia.

Eu estava ficando ainda mais sem tempo, mas não o bastante para sair dali. Fiquei alguns minutos observando a quantidade de pessoas que passavam por aquele homem ao chão, implorando para que sua fome fosse suprida e alguém pudesse o livrar do fardo que o frio também lhe incumbia. Eu pude contar umas quinze pessoas que subiram e desceram as escadas, passando sempre apressadas ou desviando do ser negro, velho, sujo, pedinte. Reparei nitidamente em todos os olhos que passavam por aquele homem e nenhum fora capaz de ao menos encarar os olhos daquele ser que tanto almejava um trocado para suprir quem tanto lhe findava aos poucos.

- Por favor gente, está muito frio hoje e eu tenho muita fome. Será que alguém pode me ajudar a comer alguma coisa? Já vai pro terceiro dia que to sem me alimentar. Uma moeda que seja já me ajuda, gente. Tô aqui pedindo, não to roubando ninguém. Eu só queria mesmo era alguma coisa pra comer, meu estômago tá doendo muito.

Gente, essa era a palavra que o homem tanto repetia. E gente era o que não faltava por aqueles arredores, indo e vindo, brotando aos montes das estações, das ruas, dos cafés, dos mercados, das igrejas, das docerias, dos fast foods, dos bancos, das lojas de cosméticos, dos estacionamentos, das casas de artigos religiosos, dos hotéis, dos bueiros, de todos os lugares. Gente que seguia seguindo suas vidas, tragando para dentro de si a fumaça gelada que exalava de seus pulmões semivazios.

Antes de eu partir também junto a neblina dos corpos, uma mulher se aproximou daquele homem. Uma mulher branca, com cabelos tingidos de loiro, botas de couro sintético calçadas até o joelho. Sobretudo na cor vinho. Cachecol cinza escondendo a carne de seu pescoço. Ela parou em frente ao homem negro ao chão e lhe proferiu os dizeres:

— Olha, eu vou orar por você tá bom? Deus vai fazer um milagre na sua vida e você nunca mais vai precisar ficar ai que nem mendigo pelas ruas amolando as pessoas.

E então o homem levanta os olhos tão alto, a ponto de encarar nos olhos a mulher a sua frente e com um tom firme na voz, diz:

— Minha senhora, eu agradeço as palavras, mas eu não preciso de Deus ou de um milagre, eu preciso comer pra continuar sobrevivendo a esse inferno. A senhora vai me ajudar a comer?

A mulher que antes trazia um semblante convicto de que estava agindo da maneira certa, agora endurece as feições do rosto, coloca uma das mãos no bolso do casaco e retira um pedaço de papel ao qual entrega nas mãos pedintes do homem.

— Olha, eu ganhei esse santinho aqui ali naquela igreja da esquina. Vai lá orar e quem sabe Deus opere na sua vida irmão. Boa sorte, agora tenho que ir tá. Se cuida.

A mulher se vira e se torna mais um ser a enterrar o próprio corpo numa multidão de corpos inescrupulosos. O homem então amassa o papel e o joga para longe. O papel rola pelo chão cinza, para ao lado de uma bituca de cigarro acesa, e ameaça querer começar a chamuscar fogo. Eu não consegui enxergar qual era o santo estampado naquele pedaço de papel, também isso não tem importância. Ao menos não para mim, e também não para o homem.

— Gente. Alguém pode me ajudar a comer? Alguém, por favor gente. Alguém?

Silêncio.

— Filhos da puta.