Minha vida fora de mim

e como nos perdemos olhando mais pro outro que pra gente

Se eu visse minha vida fora de mim daria uma super série de TV Americana. Ou ao menos um filme, vai, sejamos sinceros aqui. A gente sempre acha que a vida da gente não é emocionante o suficiente, não é boa o suficiente, ou não está exatamente do modo que ela deveria estar.

Vamos lá, Ericka, você já tem quase 30 anos. Não escreveu um super texto, não publicou um livro e não tem nenhum prêmio público notável para colocar na parede de casa. Nenhuma viagem, nenhum carro e nenhum apartamento com objetos destruídos por uma briga familiar acalorada qualquer — sua vida é como grande parte da vida das pessoas que você conhece e, provavelmente, será também daqui em diante.

Entretanto você sempre sofreu de uma peculiaridade, pode perguntar por aí para qualquer pessoa que teve o prazer de te conhecer na adolescência, sempre foi cheia de amores. E relacionamentos interessantes, amizades intensas e festas inusitadas. Nunca se arrependeu de nada.

Conheceu e namorou todo o tipo de pessoa para que nunca te restassem dúvidas de quem é, de onde veio e do que esperar das coisas para depois de amanhã ou para o resto da vida. Sempre foi sem preconceito, sem drama, direta e reta no ponto. Se der vontade, vai lá e faz, se joga mesmo e, se der errado, volta e pronto.

Se você visse sua vida fora de si, seria uma daquelas batalhadoras e dramáticas protagonistas que todo mundo sente raiva na novela das 21 h:

Por que ela largou aquele cara? Uns diriam. Por que ela gritou assim com a mãe? Outros esbravejariam, indignados.

E ao longo dos capítulos tudo iria fazendo muito mais sentido para a audiência porque os tais caras não seriam mais tão fascinantes, ou as mães tão inocentes, ou os problemas tão realmente problemáticos assim, tal qual acontece com todo o bom protagonista que a gente acha que conhece bem, mas, na verdade, só está começando a amar, e a se envolver, e a conjecturar mil e uma possibilidades de uma vida inteira que não é nossa por direito – mas que poderia vir a ser.

No seriado da sua própria vida você estaria, hoje, pensando bem, próxima da season finale. Teria evoluído pra caramba e alcançado coisas que lá, em meados de 2004, nem imaginaria conseguir. E todos os seus amigos e companheiros de jornada estariam em lugares que também ninguém jamais esperaria. Seria mesmo uma série muito louca, com água salgada, areia e muita música de má qualidade, um dia você precisa escrever sobre isso.


Gostamos da arte porque ela imita a vida. A que a gente gostaria de ter, a que a gente poderia viver e aquela que a gente nem se dá conta que possui. Somos ricos de histórias, doideiras, jantares, festas, nascimentos, mortes, reconciliações, partidas, chegadas, começos e inconclusões, somos tão complexos que só vendo de fora da gente é que conseguimos ver o potencial que tem a nossa vida – e o quão próxima ela chega de qualquer romance médio suburbano que a gente não pára de se encantar por aí.

Se eu visse minha vida de fora de mim eu estaria chorando diante da TV emocionada, orgulhosa, aplaudindo e contemplando a força que a gente reconhece quando não se enxerga na gente.

E que coisas incríveis uma vida de temporadas e episódios pode fazer pela gente, não é mesmo? Só precisamos parar de encenar. E tomar as rédeas daquilo que, na ficção, a gente acha que jamais teria coragem de fazer igual.

Na vida real, a gente pode ser sempre melhor que ontem.