A dupla de estilistas holandeses Viktor & Rolf, levou ao pé da letra a ideia de misturar moda e arte para apresentar sua coleção outono/inverno 2015, colocou as modelos para se mesclarem as pinturas usando saias, casacos e vestidos saídos literalmente das paredes, com as molduras douradas formando as barras das peças. Foram apernas 20 looks, mas o suficiente para que os diretores criativos passassem sua ideia de que as roupas de alta costura, de tão artesanais e detalhadas, podem sim ser consideradas obras de arte.

MODA E ARTE

xandemarques
Jun 5, 2017 · 8 min read

Entendendo a moda como um retrato da sociedade contemporânea, fica quase impossível dissociá-la de outros vários “movimentos” tanto comportamentais, quanto políticos e econômicos. Além, claro, da arte!

Suas múltiplas relações ao longo da história e muitas e muitas colaborações, parcerias e coisa boa para quem gosta de ambas e ainda mais das duas juntas. Moda e Arte são, ambas, expressões pelas quais o artista transmite seus desejos, o mood, as sensações e sentimentos através da sua obra. Estamos vendo ali a maneira concreta como ele representa tudo isso de forma, às vezes, até muito particular, que para alguns (me incluindo nessa) pode até parecer sem sentido, mas instiga, faz você pensar, e isso não tem preço.

“Moda não é algo que existe apenas em roupas. Moda está no céu, nas ruas, tem a ver com ideias, com o modo como vivemos e com o que está acontecendo.” Gabrielle “Coco” Chanel (1883–1971)

Mesmo com todos os questionamentos e reflexões sobre “A moda é mesmo uma arte?” Vejo de uma forma mais geral (até mesmo mais direta e sem tantos questionamentos) que o que a moda faz com mais frequência é se aproximar do universo artístico por meio de colaborações e parcerias que não transformam a moda em arte, mas a arte em moda. Então a forma como se vê e se denomina, independe do mais importante, que é a união das duas e o que isso representa. Quando a moda, citando alguns estilistas, com as peças de Rei Kawakubo (da Commes des Garçons), a Margiela, ou até a Dior na época Galliano, e mais algumas que são capazes de provocar estranhamento, angústia, reflexões e outras sensações que estão diretamente ligadas ao universo das artes visuais.

Quando Yves Saint Laurent, em 1965, estampou seus vestidos com telas de Piet Mondrian, ficou explícito que a inspiração na arte chegava, para ali, iniciar uma longa e promissora história de grandes colaborações. A peça gerou milhões de cópias. As adolescentes que o usavam muitas vezes nem sabiam sobre a maestria do vestido original, em que cada bloco de cor foi inserido de maneira a ocultar a marca das costuras e a forma do corpo. O vestido foi considerado como uma interpretação do mundo moderno, se utilizando da estética da teoria da arte. Antes disso, o que mais aproximava a moda a arte eram os looks de André Courrèges associando tecnologia a ficção cientifica.

Mais uma? Mais uma! Só pra não achar que isso tudo é muito novo, além de YSL, nos anos 30 tivemos Elsa Schiaparelli, uma das figuras de moda mais criativas e proeminentes, trabalhando entre as duas guerras mundiais. Vista como super exigente e perfeccionista, encontrou em ninguém menos do que o gênio Salvador Dalí a inspiração de algumas de suas obras mais conhecidas. E por mais que a gente tente imaginar o que poderia ter saído de ambas mentes brilhantes, nada superaria o vestido de lagosta de 1937 (a lagosta veio de uma obra do artista, o telefone lagosta).

Dando um salto no tempo, mais recentemente tivemos uma parceria que gerou certa polêmica para os mais conservadores. Como eu sempre busco ter um olhar bem humorado sobre a moda, e acho sim, que moda com humor, uma dose de ironia e até provocação mesmo, é a que gera questionamentos e debates válidos, a Louis Vuitton se juntou com o artista americano Jeff Koons.

Koons é conhecido por transformar objetos e “fantasias” do cotidiano em peças de arte, sendo visto como um artista controverso, intrigante e provocador (melhores qualidades), como alguns dos seus antecessores, como Marcel Duchamp e Andy Warhol. Já a marca, acredito eu, que dispense maiores apresentações rs.

Nessa parceria, a marca mergulha seu produto nessa reflexão arte x moda x cópia x valor, com bolsas e lenços que apresentam reproduções de algumas das maiores obras de arte do mundo, como “Monalisa” de Leonardo da Vinci; “Campo de Trigo com Corvos” de Vincent Van Gogh; “Jovem Brincando com Cachorro em sua Cama” de Jean-Honoré Fragonard; “Caçada do Tigre” de Peter Paul Rubens e “Marte, e Vênus e Cupido” de Tiziano.

Com o nome de Masters, a linha reacende questões como mercantilização da arte, esvaziamento do valor de obras clássicas, o que é valioso e o que não é — mas todo esse subtexto está ali, na forma de… it bags!

Jeff Kons e Alicia Vikander (musa da campanha) fotografados por Mert Alas e Marcus Piggott.

E pra mostrar que além das artes visuais as parcerias com a moda avançam em outros campos, como na arquitetura, a arquiteta iraquiana/londrina, Zaha Hadid (1950–2016), projetou a galeria móvel “Chanel Pavilion” que passou a maior parte de 2008 viajando pelo mundo. Começando a sua viagem em Hong Kong em fevereiro, depois rumando para uma temporada em Tokyo até o fim de julho. Depois da fase oriental, ele chegou ao Central Park em Nova York (a Chanel pagou uma taxa de US$ 400.000 para alugar o espaço no parque), e lá recebeu algumas críticas negativas devido ao período de recessão pelo qual passava a cidade, e os americanos não curtiram muito esse gasto todo apenas para uma galeria de arte ligada a uma marca de moda (só isso rs!). Apesar da exposição com artistas de renome internacional como Sophie Calle, Nobuyoshi Araki, Daniel Buren e Subodh Gupta, a estrutura que atrai todas as atenções e rouba o show com a sua beleza sem costura. As centenas de painéis de fibra de vidro e esqueleto de aço tiveram peças projetadas pensando na agilidade de montagem, com o objetivo final de deixar a estrutura de pé em menos de uma semana.

Imagens da galeria de arte “móvel”, por fora e por dentro.
Karl Lagerfeld e Zaha Hadid com a bolsa matelassada ao fundo, que serviu de inspiração para a arquiteta neste projeto.

Quando falamos do artista japonês Takashi Murakami, já nos imaginamos automaticamente entre os milhões de olhos de anime, flores sorridentes e muitas, muitas cores. E foi isso que chamou a atenção e fez com que uma das marcas mais luxuosas do planeta virasse suas antenas para o trabalho de Murakami. Certeza que também se deve a Louis Vuitton ter em seu comando criativo, nesta época, Marc Jacobs. Todas as lojas da marca foram coloridas com seus monogramas estilizados. Além da loja pop up que a marca abriu dentro do MOCA , mais uma vez se colocando no lugar onde comumente vemos as obras de arte.

A parceria rendeu muitos conteúdos em diversos meios, que não somente as lojas. Murakami também criou um pequeno filme de anime. É incrível ver como outro mestre do anime, Mamoru Hosoda, arranca personagens e idéias de arte de Murakami e coloca nesse video surreal de três minutos Veja aqui .

O gesto foi inédito para qualquer museu de arte norte-americano e, em uma entrevista na abertura da exposição, a supermodelo Linda Evangelista foi perguntada por um repórter: “O que você acha dessa sinergia de arte e moda?” Sua resposta, “Bem, certamente torna a moda mais interessante.”

Voltando para as passarelas. John Galliano, atual diretor criativo da Maison Margiela, de Paris, fechou uma colaboração com o artista britânico Benjamin Shin para apresentar sua Primavera/Verão 2107 (que teve como conceito as múltiplas camadas/filtros que aplicamos a nós próprios na era digital) e o resultado final foi impactante. Shine, que é formado em moda no The Surrey Institute of Art, e em design, na Central Saint Martins, ambas em Londres, tem trabalhado há muito tempo com a ideia de manipular um único comprimento de tule, costurando e focando na criação de retratos e demonstrando as capacidades de suas técnicas. “Percebi que John tinha visto o meu trabalho há algum tempo” disse Shin.

Galliano falou antes do desfile, seu tom mais conflituoso do que crítico, passando um pouco do que a coleção traria, um aspecto do impacto das mídias sociais na comunicação visual, especificamente os filtros e apps que podem ser colocados em várias camadas, alterando a realidade. Como ele fez tantas vezes com outros fenômenos culturais, traduziu isso em cada peça dessa coleção com diversos tipos de aplicações se apropriando aqui, do conceito de filtro para transformar em gráficos grandes, arrojados, e com seu uso em tecidos.

Foram 4 meses de reuniões entre Shin e Galliano, mas como podemos ver, o resultado superou todas as expectativas.

Por último, mas não menos importante, existe um tumblr, criado pela italiana Bianca Luini, chamado Where I See Fashion, onde Bianca faz um trabalho primordial usando e comparando muito diretamente, lado a lado, imagens de criações de grandes diretores criativos de marcas idem, com obras de artes de vários nomes importantes, além de trazer outros elementos, como cores, recortes de imagens onde o foco fica em determinada parte que remeta a roupa. Ela faz com que o conceito se unifique de forma complementar, como se a obra e a roupa se fundissem em uma.

Um trabalho de pesquisa e busca pelas imagens minucioso, que faz com que a questão nunca pare de ser abordada.

“Este blog é sobre moda e tudo o que a inspira, como a arte, design, natureza, fotografia e muito mais. Eu gosto de pegar belos moda relacionada fotos e combiná-los com as fotos que eu acho relacionado a eles por razões diferentes, por exemplo, cores, formas, sensações, conceito “-. Bianca Luini


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