Mudar o querer é o desafio do século

A sabedoria popular nos dizia, há muito tempo, que “Quem tudo quer, nada tem”. Essa máxima, em tempos de auto-ajuda e anúncios publicitários, se transformou hoje em dia em “Se você quer, você pode”.

Nos novos tempos, a grande motivação da humanidade é o querer. Querer muito, querer sem fronteiras, sem limites. Segundo os novos filósofos, donos de agências e marcas bilionárias, existe um pedacinho de sucesso reservado a cada um de nós. O universo conspira a nosso favor. Somos todos flocos de neve especiais, cada qual único, um mais diferente do que o outro. Se não conseguimos algo, é porque não quisemos com toda a sua vontade. É porque não nos entregamos, nos rendemos ao seu desejo. E nada melhor para mostrar para o mundo todo o quanto somos seres completos, modernos, do que querer.

Não me levem a mal. O desejo e a ambição nos deram grandes presentes. Sem eles, provavelmente estaríamos fazendo fogo com gravetos ainda. Os maiores avanços da humanidade foram motivados por medo ou desejo (já tratei desse assunto aqui). Mas cada tempo precisa de uma resposta diferente, uma modulação diferente no dial, e neste agora, nosso querer está fora de sintonia. Está causando ruído.

Estou muito, muito longe da ideia meio comunista de que podemos viver um esquema de colmeia, todos iguais, rumo a um objetivo único. Isso não só me soa a utopia, como também um pouco cretino. Somos seres únicos, e grande parte de nossa individualidade se apresenta pelas nossas vontades. Isto posto, esse contrário que estamos vivendo não nos ajuda.

O querer desenfreado, ladeira abaixo, com as turbinas no máximo, parece estar apenas tentando tapar buracos sem fundo em nossa alma. A obsessão pelos objetos do desejo acaba criando um cenário de eterna competição entre nós. Sempre há alguém que tem mais. Sempre estamos em segundo lugar. Isso acaba justificando comportamentos que não tem nada de nobres. Como a pessoa que entra na política somente por conta das benesses e desvios que terá a seu dispor. O garoto pobre que gasta em um telefone celular o equivalente a um ano de livros e cultura, porque o primeiro lhe dá status, e o cultura ninguém vê na rua. A busca pelo corpo perfeito, que exige uma dedicação que nunca casa com as necessidades básicas de ser humano nenhum. O guarda roupa cheio de sapatos e bolsas que serão usados poucas vezes na vida.

Se tudo isso resolvesse nossos problemas, eu diria “ok, vocês venceram”. Mas as estatísticas mostrando que a doença do século é a depressão mostram que não está adiantando muito. Estamos parecendo cães que correm atrás de rabos que já foram amputados. A gente sente o comichão, se esforça o máximo, mas acaba sempre tonto, e lambendo o vazio.

De mais a mais, nem mesmo o planeta é capaz de aguentar tanta gente querendo tanta coisa ao mesmo tempo. Já provaram que se todo mundo consumisse igual a um americano, iríamos precisar de mais 3 Terras para dar conta. Mas nós nos justificamos. Nós nos damos o direito. Afinal, trabalhamos tanto. Afinal, tanta gente tem. Afinal, é meu sonho. É meu dinheiro, eu faço o que eu quiser com ele. É só uma vez. Se todo mundo parar, eu também paro.

O que mais temos, nesses momentos, são direitos.

Não é possível querer menos. Mas talvez seja a hora de querer diferente. Toda essa energia gasta pra ficar andando em círculos dentro da casa de espelhos poderia ser canalizada pra algo mais produtivo. E nem estou falando de sentimentos altruístas, como desejar o fim da fome no mundo. Mas um dos caminhos, se você quer ser feliz é tentar, no mínimo, descobrir de fato o que te faz mais feliz.

E eu garanto, não tem no shopping.
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