Município. Onde a democracia brasileira ferve e derrete

Olhar o noticiário político de qualquer jornal brasileiro é um exercício de masoquismo involuntário. Não passa um dia sem que tomemos conhecimento de algum novo tipo de escândalo, de desmando, de falcatrua.

Não importa o quão longe estejamos de Brasília, o furacão de lama nos atinge. E invariavelmente vira assunto no país todo. Aparentemente, o apetite dos caras não tem fim. Nem nos recobramos da descoberta do último esquema, e levamos outro nas costas. É como um mar raivoso, distribuindo ondas enormes, uma atrás da outra, sem dó. E o pior é ter certeza de que aquilo que te afoga não é bem água.

As cifras cada vez mais bilionárias, os ternos bem cortados, os discursos em cadeia nacional, a palavra dos presidentes dos partidos envolvidos, tudo isso acaba eclipsando um problema que, se não é maior, pelo menos afeta mais diretamente cada brasileiro: o que acontece nas cidades.

É tentador atribuir toda nossa miséria e infortúnio aos caciques de Brasília, ou aos governadores, ou às grandes obras. Mas a verdade é que a vida sempre se desenrolou em cidades. Ninguém mora na União. Ninguém reside no Estado Brasileiro. Todos, sem exceção, moram em cidades.

E é nelas que nossos problemas começam, aumentam e se perpetuam.

É simples, abrir o Facebook e mandar um textão na fuça do Presidente da República, seja ele quem for. É fácil destilar todo o nosso ódio nas costas de uma legenda. Mesmo num político que governe uma cidade grande, como uma capital. São Paulo é quase um Estado. É tranquilo, seguro e democrático.

Nos municípios a história é outra. Não existem bilhões de dólares em superfaturamento. Existem pequenos, milhares, espalhados como um spray de sujeira, uniformemente sobre tudo que existe na cidade. Em cada reforminha de hospital, em cada quebra mola instalado, em cada creche construída, em cada nomeação de parente, em cada parquinho público superfaturado, em cada estátua comemorativa, nos recapeamentos de asfalto contratados ao dobro do preço, em cada pequena intervenção pública existe o verniz da mesma imoralidade.

Porém, de maneira inversa à facilidade e segura com que todo mundo desce a lenha naquilo que é Federal, o municipal é um campo minado. Porque no município, você conhece o Prefeito. Na cidade, o assessor é seu vizinho. A primeira dama estudou com sua irmã. O chefe de gabinete é padrinho de casamento da sua prima.

Ninguém espera que o Ministro da Fazenda leia um post no Facebook, fique irritado, e resolva pegar um avião com destino a Quixeramobim para tirar satisfações com um internauta que o chamou de ladrão. Mas nos municípios isso não só é factível, como é muito comum.

Converse com qualquer pessoa numa cidade e ele lhe contará histórias de alguém que foi ameaçado, ou achincalhado, ou mesmo sofreu espancamento por conta de brigas políticas municipais. Toda cidade guarda histórias de desafetos políticos que terminaram em assassinatos mal explicados. Jornalistas de noticiários locais que sofreram consequências de todas as sortes por denunciar roubos e desvios. Funcionários públicos que resolvem se expressar são transferidos sumariamente para localidades ou departamentos terríveis, como punição pela ousadia de expressar suas opiniões. Acontece todo dia.

De fato, se a política local alega que pouco pode fazer para ajudar seus cidadãos, ela é pródiga em atrapalhar quando quer. Casos de empresários que, do dia para a noite passaram a receber visitas diárias de fiscais procurando pelos em ovos depois de alguma crítica são muito mais normais do que deveriam. O poder público à serviço da pessoalidade.

Qualquer cidade tem suas páginas políticas nas redes sociais, e nelas a discussão pega fogo. Mas geralmente os mais exaltados são dos grupos oposicionistas, e se sentem seguros na proximidade com o outro lado do poder. A maioria da população prefere veículos mais discretos para tecer suas críticas. Os balcões de bar, varandas de casas, reuniões de amigos estão cravados de críticas aos administradores. Essas críticas geralmente somem no ar quando os próprios se fazem presentes. O fator mais decisivo numa eleição de cidade pequena é a fofoca. O não publicado, o contado à boca miúda. O comentário que não deixa registro, que não pode ser comprovado, não tem autoria certa, e nem ter como ser negado.

E assim, aquela que deveria ser a primeira e mais íntima instância de contato do brasileiro com a política, derrete sob o calor da truculência, do descaso e da falta de seriedade no trato da coisa pública. Aquilo que primeiro identifica uma pessoa é sua ascendência. A primeira pergunta que muitos respondem depois de “qual o seu nome” é “onde você nasceu”.

É urgente encontrar meios de consertar esse estrago. É necessário que a representação mais próxima seja aquela que melhor e mais rápido responde. O país só existe pela junção de milhares de pequenas cidades.

Hoje em dia eu tenho cada vez menos esperança que um Brasil novo se levante desses escombros que o cobriram. Mas se isso acontecer, eu suspeito que ele não será puxado, de cima para baixo. Será sim, erguido, sustentado, de baixo pra cima.