50 anos de 1967 — o ano em que a psicodelia bateu

Jimi Hendrix, Doors, The Who, Beatles, Stones, Animals, Pink Floyd, Cream, Jefferson Airplane… Partindo de qualquer um desses artistas, em algum ponto você vai encontrar a psicodelia. Seja em um álbum, seja na carreira toda, seja na imagem, seja nos fãs. Todas essas bandas alimentaram a psicodelia na década de 1960. E para ser mais exato, o ano em que muitos desses estouraram, e outros flertaram fortemente com a psicodelia, foi em 1967.

Em 2017 completamos 50 anos de um dos anos mais prolíficos da história do Rock’n Roll. Esse texto propõe-se a entender porque tal ano foi tão épico e tão chapado. Já devem surgir algumas hipóteses na sua cabeça, e a real é que talvez todas elas juntas, e mais algumas, sejam as responsáveis.

Primeiro, para comprovar tamanha doideira, vamos à lista de alguns dos principais álbuns lançados no ano:

The Beatles (Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Magical Mystery Tour), Eric Burdon & The Animals (Winds of Change), The Doors (The Doors and Strange Days), Jefferson Airplane (Surrealistic Pillow e After Bathing at Baxter’s), Pink Floyd (The Piper at the Gates of Dawn), Love (Forever Changes), Cream (Disraeli Gears), The Byrds (Younger Than Yesterday), The Rolling Stones (Between the Buttons e Their Satanic Majesties Request), The Who (The Who Sell Out), The Velvet Underground (The Velvet Underground & Nico), e The Jimi Hendrix Experience (Are You Experienced? e Axis: Bold As Love). É muita lisergia prum ano só.

Os Beatles, depois de uma fase boyband, começou a flertar com a psicodelia em 1966 com Rubber Soul e Revolver, mas foi no ano seguinte que John, Paul, George e Ringo se enfiaram de vez numa proposta cheia de letras surrealistas e harmonias hipnotizantes. É bastante polêmico decidir qual o melhor álbum da banda, eu mesmo não sou fã de ideia de eleger algo melhor dentro de qualquer aspecto da arte, mas é inegável que o Sgt. Peppers se tornou icônico até mesmo na cultura pop de uma maneira sem semelhantes.

Foi no começo do ano, em 11 de março, que o clipe de Strawberry Fields chegou nas telinhas mostrando que os garotos de liverpool estavam doidões. A lisergia não era novidade para muita gente, mas para o público em geral foi um choque imenso. Um melotron, um clipe extremamente inovador, uma letra sobre nada ser real e Paul McCartney afinando uma árvore foram o suficiente para mostrar que a brisa dos Beatles era outra. Imagine aquela legião de fãs lidando com isso. Quem não usava nada com certeza ficou interessado em ficar na mesma que os caras.

Antes disso, bem no começo do ano, em 4 de janeiro, uma banda de Los Angeles lançava seu primeiro álbum e excitava milhares de jovens. Era Jim Morrison e os Doors, com um rock puxado pro blues e com uma psicodelia de qualidade e intensidade imensa. Atravessar para o outro lado, apagar um fogo louco e um fim maestral deram uma qualidade e popularidade ao álbum que abriu o ano. Jim, Ray, Rob e John chegaram para mostrar que o ano ia ser forte demais. Mas de onde surgiu essa onda? Esses caras eram alienígenas? Não não, bom, acho que não, visto que nunca conheci nenhum deles, mas teve história antes disso…

Você sabia que o termo hippie surgiu a partir do termo hipster? Íncrivel como a história se transforma, né não? Bom, eu falo de hippies, porque muito da história da psicodelia dentro do rock vem dessa contracultura.

O termo hippie foi primeiramente usado em 1965, por um jornalista de São Francisco, uma cidade crucial para o movimento. Outro lugar muito importante é a Alemanha, onde durante o fim do século XIX surgiu um movimento chamado Wandervogel [1], ou “pássaros migrantes”. Tal movimento foi uma das primeiras contraculturas, que se opôs à intensa urbanização alemã, através de músicas e vestimentas alternativas. Soa comum para você tais características? Pois é. Esse movimento saiu da Alemanha e veio parar… na Califórnia! Onde se localiza São Francisco. Eles trouxeram as ideias do yoga e de uma alimentação orgânica e mais saudável para a terra do Tio Sam.

Em seguida a este movimento, primeiramente em Nova York, surgiu o movimento Beat, ligado fortemente à literatura, com nomes como Allen Ginsberg, Willian Borroughs e Jack Kerouac. Os beatniks, como eram conhecidos, fixaram uma cultura conhecida por seu uso intenso de drogas, rejeição ao materialismo e a abertura à cultura gay, por meio de vários de seus expoentes.

Essa galera atravessou o país e veio parar em… São Francisco! Agora imagina essas duas culturas, Wandervogel e Beat juntas. Tadáa, temos a origem do movimento hippie! Foi em meados dos anos 60 que tais pessoas, seguidoras das citadas contraculturas, começaram a se reunir em comunidades e experimentar o tal do LSD. Cabelos compridos, roupas alternativas, drogas lisérgicas, o movimento hippie começava a ganhar cara.

A partir disso a cena foi se alimentando, a galera de bandas como Grateful Dead, Jefferson Airplane, The Charlatans foi unindo o movimento ao Rock até chegar ao icônico ano de 1967. Por que 67? O ano foi repleto de protestos, focando principalmente na Guerra do Vietnã, e como a história nos ensina, época de protesto é época de arte. É natural. Daí surgiram todos esses materiais citados no começo do texto. Junto a isso tivemos o famoso ‘Summer of Love’ que foi esse auge onde cerca de 100.000 jovens se aglomeraram em São Francisco e tomaram muito LSD em meio às suas pautas e suas bandas. Foi o estouro do movimento hippie para a mídia. Bandas como os Beatles e os Stones já eram grandes sucessos, e apenas se viraram para a cultura que explodia. Outras como os Doors e Hendrix nos Estados Unidos e o Pink Floyd na Inglaterra, tiveram seus álbuns debutantes naquele ano, colonizando um terreno que dominaria os anos 1970, mesmo com muita gente dizendo que o movimento hippie morreu no fim de 1967, e o que veio depois foi só cena. Disso não tenho como ter certeza.

O que se tem certeza é que o mundo nunca mais foi o mesmo depois disso. E o mundo é o mesmo após qualquer dia? Não. Essa é apenas uma frase de efeito para puxar o assunto de que no ano seguinte ocorreria um dos eventos mais grandiosos da história do Rock. Woodstock. Ele com certeza não teria ocorrido, não fossem os fatos e lançamentos do ano anterior. Quem sabe ano que vem eu faça um texto sobre os 50 anos do festival. Dizem que vão repetir a dose. Tenho medo das atrações, espero que sejam sensatos.

1967 foi também extremamente impactante dentro do Brasil, o que me dá mais um tema para a escrita, não achem que eu ignoro nosso lindo e artístico país. Foi o ano dos grandes festivais de música popular, onde grandes nomes da MPB dominaram a televisão. Era o começo de uma ditadura que duraria 20 anos, e, como dito antes, em tempos difíceis, tempos de protestos, a arte brilha e se inova. Pensemos sobre nosso cenário atual. Valorizemos os movimentos de hoje. A música brasileira, principalmente, vive tempos de ouro, e só não vê quem não quer, ou quem é saudosista demais para tal.

Vamos à luta! E viva a psicodelia!