Não acredite nos seus sonhos — talvez eles sejam idiotas

O problema das histórias de superação e a importância de metas reais

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1. Não se suicide

Você já ouviu aquele velho lema de que brasileiro não desiste nunca. Não importa o que aconteça — sempre vai haver um brasileiro insistente fazendo a coisa acontecer, pipipi popopo.

É provável que você tenha crescido ouvindo dizerem pra acreditar nos seus sonhos. Mas é óbvio que uma hora ou outra você fracassaria. E, quando você fracassou em alguma coisa, a frustração bateu com força na tua nuca (igual o sol do Rio de Janeiro).

E isso é comum. Em uns lugares é até mais comum que aqui. Sociedades como a japonesa são pouco tolerantes com o fracasso. O resultado de uma sociedade que não sabe lidar com fracassos não pode ser outro: suicídios por causa de uma coisa que dá errado.

Mas me diz: você gostaria de ter filhos que pensariam em suicídio por causa de uma nota baixa em química?

Eu sei que não.

Os brasileiros são mais flexíveis que os japoneses com o fracasso, obviamente. Mas acho que é melhor repensar a cultura de “não desistir nunca”. Por isso, nesse texto eu quero sair em defesa da desistência. Vou mostrar que desistir de um sonho pode salvar sua vida.

2. Ter sucesso em idiotices é pior que desistir

Em outro texto, contei como, no começo da adolescência, eu decidi ser um programador de jogos independente. Queria que ver meus jogos de plataforma alcançarem o mundo, serem vendidos na Steam, receberem prêmios etc.

Mas eu desisti desse “sonho”. Eu poderia ter realizado o que queria, sem dúvida. Mas também poderia ter desperdiçado todas as minhas energias em uma coisa sem futuro e idiota.

Anos depois, tentando explicar aquela história, eu poderia dizer que sofri com o fracasso, mas que eu aprendi muito com ele. Mas, embora eu tenha tirado lições, eu não exatamente fracassei. Eu desisti — e não me arrependo disso.

Se eu tivesse consultado alguém, a pessoa teria me dito pra acreditar no meu sonho. Mas eu enjoei daquilo — e simplesmente resolvi fazer outra coisa.

Persistir em uma coisa que você não gosta é bem mais idiota do que desistir de algo “promissor” (e essa ideia de sucesso é bem discutível).

Mas calma que eu vou explicar isso melhor.

3. Cerveja

Se você tiver um sonho, é muito provável que você encontre pessoas te motivando e pessoas te incentivando a desistir. Essas que te incentivam a desistir vão ser pintadas como tóxicas e nocivas, devendo ser afastadas da sua vida.

Mas você já parou pra pensar na possibilidade de elas estarem certas?

Talvez você tenha um sonho de ter a maior indústria de cervejas do Brasil. E eu tenho certeza que, se você quer, você vai trabalhar duro pra isso.

Mas a AmBev, meu amigo, não vai deixar. Não neste século. Você vai se frustrar, vai se sentir mal achando que tem algo de errado no seu trabalho, vai achar que você é um incompetente porque sua empresa não cresce, vai parecer que seu sonho está cada vez mais distante.

Essa negatividade que vai te atingir talvez seja muito pior do que simplesmente desistir. Porque, a não ser que a AmBev decrete falência ou você tenha malemolência empresarial e política, seu sonho é muito distante.

Se teu sonho acaba com tua saúde mental e te impede de seguir outros minisonhos, tá na hora de repensar isso aí.

Mas e os sonhos possíveis?

É aí entra o papel da motivação.

4. Sonhos podem te dar miopia

Talvez seu sonho seja uma coisa muito mais simples (os sonhos grandes serão abordados em breve). Por exemplo, talvez você queira abrir uma sorveteria. Ou simplesmente viajar pra Fernando de Noronha. Ou seu desejo é entrar na faculdade de Medicina.

A grande questão é que esses sonhos mudam. Quando criança, eu queria ser um desenvolvedor de jogos. Anos depois, eu queria ser um escritor reconhecido nacionalmente (nunca sonhei muito grande). E, mesmo depois de adulto, esses sonhos vão continuar surgindo e mudando.

Quanto vale teu sonho? Ele é caro demais? Ele demanda muito tempo e esforço? Ele vale a pena o que você vai investir nele?

Daqui a cinco anos, você ainda vai ter esse mesmo sonho? Ou daqui a um mês você vai mudar de ideia?

Eu, por exemplo, quero ser um nômade digital. Mas seria burrice eu do nada largar tudo pra ir trabalhar numa lanchonete no Chile. As pessoas mudam e os objetivos delas também — e, embora meu trabalho se encaminhe pra isso, eu tenho coisa muito mais importante como prioridade, e posso mudar de carreira.

Talvez você esteja investindo tanta grana na sorveteria e acreditando tanto no seu sonho que você se torna míope. Às vezes você não vê que sua cidade não tem nem clientes suficientes pra manter o estabelecimento. Ou que a sorveteria consome o tempo precioso que você poderia usar com sua família e amigos.

Às vezes sua realidade de gastos e salário não permitem que você vá pra Noronha. Talvez o dinheiro que você tá há dez anos juntando pra ir pra lá pudesse ser investido num pequeno negócio — que a longo prazo te daria mais condições de ir pra Noronha. Ou em pequenas viagens que te manteriam num nível saudável de felicidade e realização pessoal.

Ou seja, sonhos podem te dar miopia. E, se você subitamente percebe que teu sonho nem é tão bom assim, e que você acharia Noronha chata pra caramba, você se livra de um peso desnecessário nas costas. A felicidade se torna bem mais possível.

Mas beleza. Eu sei que existem pessoas bem intencionadas que vão te motivar. Inclusive, se você é do tipo que gosta de “fugir da zona de conforto” (ou seja, fica pulando de sonho em sonho sem nunca fazer nada direito), você vai precisar. E, se você tiver um objetivo possível mas que te desanima, talvez você precise de motivação (motivos para agir).

Mas motivação é sempre boa?

Não.

5. O soldado desmotivado

A motivação não é essencialmente boa ou ruim — ela só é. Vamos fazer um exercício imaginativo pra exemplificar isso.

Tinha um soldado sentado numa calçada mal iluminada com o rosto abatido, cabisbaixo. Seu desânimo era tão aparente que comoveria qualquer um que por ali passasse.

Eis que um transeunte alto e parrudo, muito animado e espirituoso, passou por ali e se prontificou a perguntar o que estava acontecendo.

— Eu não vou conseguir, moço, eu não vou conseguir! — disse o soldado, quase chorando, sem conseguir nem dar detalhes do que lhe afligia.

Nosso bom moço, com um ar confiante, se compadeceu e logo disse:

— Olha, eu sei que parece difícil. Eu sei que você talvez pense que não vai conseguir. Mas, com esforço e dedicação, você conseguirá o que quiser. Tenho certeza de que você vai conseguir!

Essas palavras tiraram o soldado do mar de desânimo ao qual se submetera. As lágrimas, que já rolavam em seu rosto, adquiriram um novo ar.

— E vou te dizer uma coisa — o bom moço continuou. — Agora muitos dizem que você não consegue. Mas quando conseguir eles te darão tapinhas nas costas dizendo que sempre acreditaram! Não se deixe levar por isso.

Com isso, o soldado abriu um sorriso e, por causa daquelas palavras encorajadoras, disse para si mesmo: “Eu vou conseguir!”

E se despediram.

Passou-se um tempo de muito trabalho duro e dedicação integral àquele sonho.

Após o holocausto, o soldado Hitler pensou consigo mesmo: “E não é que aquele cara tava certo?! Eu consegui, mano! Engulam essa, minorias exterminadas!”

6. Motivação não é ruim — porém tampouco é boa

Beleza, eu exagerei um pouco. Mas você entendeu o ponto.

Motivação não é boa ou ruim, porque ela depende do que você faz com ela — a motivação é só uma ferramenta. Uma faca não é essencialmente boa ou ruim; depende apenas se vai usá-la para cortar legumes ou para cortar a carótida de alguém. (Antes que alguém venha falar de armas: armas são feitas pra matar pessoas ou animais. Então não tem essa de “depende do uso” — ao contrário das facas.)

É por isso que o papo de acreditar nos próprios sonhos é bobo e simplista.

O exemplo que eu dei acima, em forma de anedota, mostra que um sonho pode ser nocivo para outros. Mas, mesmo que não seja nocivo, talvez ele seja idiota e inútil. E é sobre isso que vou falar agora.

7. Crime e negligência

Digamos que você tenha o sonho de ser um astronauta. Ao contrário da maioria das crianças, você não esqueceu esse sonho durante a puberdade.

Seus colegas abandonaram a vontade de ir pra Nasa aos 8, enveredando por desejos mais “realistas”. Você manteve seu sonho — mas sem pressa.

Para financiar sua faculdade de astrofísica, você começou a trabalhar como estagiário numa empresa de seguros de fundo de quintal. Lá você conheceu a mulher que se tornaria o amor da sua vida, que também estagiava (a empresa só tinha condições de pagar estagiários).

Vocês se casaram quando cê tinha 22 anos e, um ano depois, tiveram um filho. Um ano depois, tiveram outro. Em seguida, outro.

Você cresceu dentro e junto da empresa e, apesar de ter um orçamento apertado, consegue se manter e sustentar os filhos com sua esposa. A vida é boa.

Até que você descobre que seu primeiro filho está com leucemia. O tratamento é caro e consome um terço do seu salário, e te entristece ver o guri, antes tão feliz, numa sala de quimioterapia, perdendo o cabelão bonito parecido com o teu.

Aos 27, você finalmente terminou a faculdade, aos trancos e barrancos. Agora você pode ir pros EUA, se candidatar a uma vaga na Nasa, se tornar um astronauta, concretizar seu sonho.

Mas pera. Você tem três filhos e esposa. Um dos seus filhos tá doente pra caramba. Você não acha que é meio excessivo abdicar de família e responsabilidades paternas pra ir atrás de um sonho idiota que você teve quando criança?

Sim. Nesse caso, seu sonho é idiota. E existem outros inúmeros sonhos idiotas. Ir atrás desse tipo de sonho é negligência — e incentivá-los deveria ser crime.

8. Persistência às vezes é só inércia

Fica óbvio dessa forma, vendo os casos extremos, que não são todos os sonhos dignos de incentivo e motivação. Num caso como esse, se o fracasso não vier por si só, a desistência é um ato de sensatez.

A real é que pra desistir talvez seja necessária ainda mais coragem do que pra persistir — porque a persistência frequentemente é por pura inércia, porque você já está acostumado à ilusão de movimento, parado naquela mesma direção.

“Mas, Kalew, você deu um exemplo babaca e exagerado.”

Sim, amigo, essa é minha marca registrada.

Mas não precisa ir muito longe pra encontrar histórias de pessoas sem nenhum tipo de preparo mental ou segurança financeira fazendo burrada. Gente que ignora a realidade em que vivemos e negligencia a própria família e a própria vida em prol de um sonho.

E o pior são as pessoas que se aproveitam dos seus sonhos para lucrar em cima, como a Startup da Real bem apontou nesse texto.

Não é sensato motivar o sonho de pessoas que podem ter dívidas enormes, empregos de bosta, responsa familiar ou uma situação de total vulnerabilidade social.

Mas e o contrário?

Existem aqueles casos onde seu sonho é super possível. Por exemplo, abrir um negócio digital. Juntar dinheiro pra investir em uma ideia que com certeza vai dar certo. Pegar a grana da sua poupança e colocar naquelas ações da Empiricus que milagrosamente vão render 10.000%, segundo a propaganda insistente deles que aparece o dia inteiro pra mim.

E, quando há uma história motivacional por trás, nossa certeza cresce estratosfericamente.

Se o Flávio Augusto, saindo do zero, conseguiu, eu também consigo, né? Se o Bill Gates sem terminar nenhuma faculdade ficou bilionário, eu também consigo, certo? Se aquele cara mostrou que é possível enriquecer com dez reais vendendo água — e acabou indo pra Harvard —, eu também consigo, né?

Errado. E, apesar de gostarem de usar esses exemplos pra reforçar a importância do trabalho duro e negar a existência da sorte, vou te mandar a real: o acaso tem um papel muito maior nas histórias de superação do que você imagina.

9. Histórias de superação

Histórias de superação frequentemente são usadas como motivação.

O bilionário que, no início de tudo, sofreu resistência da família, mas persistiu no seu sonho. O grande músico multimilionário e famoso no mundo inteiro que por pouco não largou o violão pra prestar concurso público. O jogador de futebol que entrou para um time pra dar alegria pro pai que morreu e acabou sendo o melhor jogador do mundo.

Mas, enquanto algumas dessas histórias realmente são motivadoras e exemplos de como a persistência pode te levar à realização de um objetivo, outras histórias simplesmente ignoram o fator sorte.

O fator sorte, inclusive, é o horror dos bilionários-exemplo-de-resiliência. Quando ficam bilionários, contam sua história mostrando que não existe sorte, existe trabalho duro.

E é óbvio que a maioria deles trabalhou muito mesmo. Mas negar o papel do acaso nas histórias de sucesso é cair numa falácia narrativa e analisar as coisas apenas pelo viés do sobrevivente.

10. Os aviões da WWII

Na Segunda Guerra Mundial, Abraham Wald, um matemático, foi incumbido de dizer onde os aviões de guerra deveriam ser reforçados. Quando um avião voltava, ele e os oficiais analisavam o estado dele: tiros na cauda, nas asas e no centro da fuselagem.

Logo os oficiais diziam: o avião precisava ser reforçado na cauda, nas asas e no centro da fuselagem, óbvio. Mas Wald apontou onde estava o erro dos oficiais.

Se aquele avião havia voltado, ou seja, sobrevivido, era porque não havia sido atingido num ponto vital. Eles deveriam se preocupar, na verdade, com os aviões que nunca voltaram. Esses sim haviam sido atingidos em pontos vitais que mereciam atenção.

11. Ratos e homens

No livro A lógica do Cisne Negro, o Nassim Nicholas Taleb fala do impacto do altamente improvável no mundo. E, expondo inúmeras falhas no pensamento da maioria dos pseudoespecialistas, expõe esse conceito de viés do sobrevivente com a evidência silenciosa.

Ele cria um experimento mental:

Digamos que reunisse um grupo heterogêneo de ratos: fortes, gordos, magros, grandes, pequenos, doentes, fãs dos Beatles etc. Em seu laboratório, ele começa a expor os ratos a níveis cada vez mais altos de radiação.

Aos poucos, os ratos mais debilitados vão morrendo e os mais fortes resistem. Logo após o fim do experimento, o cientista libera os ratos na rua.

O que os ratos têm em comum? Bem, a população diria que todos saíram do laboratório do Taleb.

“Caramba, o laboratório do cara é melhor que academia! Só saem de lá ratos fortes.”

Qual o problema? É óbvio: essa constatação, de que os ratos saem mais fortes da experiência, ignora a evidência silenciosa — o fato de que todos os ratos fracos morreram e só os sobreviventes foram soltos pra contar história.

“Kalew, o que isso tem a ver com sonhos e histórias motivacionais? E a sorte?”

12. Os vendedores de sucesso são os ratos fortes

Bom, uma hora dessas você já entendeu o ponto.

Os bilionários bem sucedidos que te incentivam a seguir seus sonhos, porque eles saíram do zero e conseguiram, são os ratos fortes sobreviventes. Você pode ser um deles. Mas pode ser um dos ratos magrelos que morrem no processo (inclusive não me arrisco porque peso 65kg e tenho 1,91m).

As histórias de superação te fazem acreditar que você é um dos aviões da Segunda Guerra que voltaram à base, mesmo com alguns danos. Mas você, muito provavelmente, será um dos aviões que ficou no meio do caminho, sem sobreviver pra contar a história de superação.

Mas você pode achar, então, que a diferença dos sobreviventes pros mortos seja essa: força. Uns são fortes, outros não. E você é forte.

Você trabalha duro.

Você aprende muito.

Você assistiu uma hora e meia do Flávio Augusto dizendo o que faria se tivesse 18 anos.

Então vamos voltar à sorte:

13. Aleatoriedade e sorte

Milhares de originais são recebidos todo mês pelas editoras de livros grandes, como a Companhia das Letras e a Record. É humanamente impossível ler — e que dirá publicar — todos. Então a maioria dos originais é descartada.

Isso significa que o original descartado era ruim? Não. Talvez fosse genial. Mas isso significa que era genial? Não. Talvez fosse uma bosta.

Dostoiévski é lembrado como um dos maiores escritores de todos os tempos. É publicado em zilhões de idiomas e países. Mas isso significa que ele foi o escritor mais genial da época dele? Não. Talvez tampouco fosse Tolstoi, Gógol ou Tchekov. Talvez houvesse alguns muito melhores, mas que nunca chegaram a ser publicados.

Estar no lugar certo na hora certa pode ser um fator decisivo no sucesso de uma obra. Talvez aquele livro excelente estivesse no topo da pilha e foi lido aleatoriamente pelo editor, o conquistou e foi publicado. É raro, mas acontece.

Outros são publicados simplesmente pelo QI — Quem Indica. Esse, apesar de não ser sorte, não tem nada a ver com genialidade, mas sim pura conveniência.

“Uma pessoa bem-sucedida tentará convencê-lo de que suas conquistas jamais poderiam ter sido acidentais, assim como um jogador que ganha na roleta sete vezes seguidas explicará a você que a chance de isso acontecer é de uma em alguns milhões, de forma que você precisa acreditar que alguma intervenção transcendental ocorreu ou aceitar a habilidade e a percepção do jogador para escolher os números premiados. Mas, se você considerar a quantidade de jogadores existentes e o número de sessões de apostas (um total de alguns milhões), então fica óbvio que tais golpes de sorte acontecerão inevitavelmente. E se você estiver falando sobre eles, é porque aconteceram com você.
(Nassim Nicholas Taleb, em A Lógica do Cisne Negro.)

Repito: só os sobreviventes falam. A sorte tem um papel fundamental em muitos dos cases de sucesso — e eu não falo isso pra tirar o mérito de nenhum deles, que com certeza existe.

Um desses bilionários que saíram do zero não chegou lá sendo um incompetente, pode ter certeza disso. Assim como o escritor não vai fazer sucesso sendo um bosta (mentira, isso acontece sim).

Mas só ser competente (ou forte) não é suficiente. E essa força, que talvez você acredite ter, pode ser riqueza, uma excelente e extensa rede de contatos, privilégio geográfico, privilégios sociais (pele branca, cromossomos XY ou nascer na família do Abílio Diniz), sorte propriamente dita e inúmeros outros fatores que contribuem para o “sucesso”, seja ele qual for.

Mas será que isso é só um pessimismo? Isso significa que você não pode seguir seus sonhos? Que todos os seus sonhos são idiotas?

14. Coloque seus sonhos no lugar deles

Não tô dizendo pra desistir de todos os seus sonhos — só dos idiotas. E tento te convencer a não se iludir com a história dos sobreviventes, porque isso pode te levar a ser um dos mortos.

Estudar acertos dificilmente vai te dizer algo sobre os erros. 75% das startups falem, por exemplo. Seis em cada dez empresas no Brasil não dão em nada. E isso não significa que as outras quatro façam muito sucesso.

E, por mais difícil que seja desistir de um sonho, eu acredito que desistir seja um ato de mais coragem que prosseguir, conforme eu disse alguns parágrafos atrás. Pode poupar sua saúde física e mental, sua família, sua integridade física, o pagamento dos seus boletos e te impedir de parar no cemitério por causa da queda de um avião rumo a Noronha.

Repito: eu não sou contra ter sonhos. Só digo que sejam colocados em seu devido lugar.

Porque, se voltarmos ao exemplo do pai de família, vemos que a forma que eu contei a história comete uma falácia narrativa (igual quase toda história).

Não é que seja impossível aquele cara concretizar o “sonho” dele. É impossível, na situação dele, viver na lua — seria babaca. Mas trabalhar na Nasa e fazer missões não sei lá das quantas? Óbvio que não.

O que eu quero dizer com isso?

15. Tenha metas

Acho o conceito de sonho tosco. Sonho é aquilo que você nunca vai realizar nem se esforçar para que dê certo.

Se você tem um plano, não é um sonho — é uma meta. E metas você atinge com outras pequenas metas.

Nosso astrofísico, no primeiro passo, começou a estagiar. Em seguida, foi pra outra meta: terminar a faculdade. Logo após isso, se a esposa concordar, ele pode se mudar para os EUA com a família — talvez até tenha condições financeiras bem melhores. E assim ele atinge vários mini objetivos em direção ao objetivo maior.

É assim com qualquer meta — não sonho.

(Em tempo: nos EUA o tratamento do filho dele seria absurdo de caro e ele ficaria pobre do mesmo jeito. Ou daria uma de Walter White.)

Mesmo assim, todas essas metas devem ser analisadas criticamente. Você não pode largar tudo por um sonho sem analisar friamente as consequências — não crie a ilusão de que é um dos ratos fortes ou um dos aviões que sobreviverá.

Mesmo que um “sonho” não afete terceiros, ele sem dúvida afeta você — talvez você perca a saúde mental e toda a sua grana investindo em um negócio (seu sonho) que nunca vai dar certo. E a tentativa desesperada de concretizar esse sonho poderia tirar sua capacidade física e mental de realizar outros milhões de objetivos e “sonhos”.

Mas, ao contrário do que o título talvez dê a entender, não digo para que desista de todos os seus objetivos. Digo só pra você não se iludir com quem quer te iludir — e as histórias de superação, por mais bem intencionadas que sejam, vão sempre te tentar a isso. E, se você é o brasileiro padrão, que tem a fama de não desistir, vai acontecer o mesmo.

A Startup da Real fala bem melhor sobre essas histórias de superação e o mito de começar do zero no texto que linkei ali em cima.

O fato é que você precisa mais de reflexão do que de motivação. A motivação pode te fazer cometer atrocidades — a reflexão vai pelo menos te dizer se tua ideia é idiota ou promissora.

Se você não é um rato forte — e a massiva maioria de nós não é — , é melhor não cair no papo de qualquer cientista por aí.