Como a verdade, a mentira, a falsidade e o segredo compõem a base do discurso por trás de grandes lideranças políticas

Marcos Kalil Filho
Apr 18, 2017 · 3 min read
Créditos: Glamurama / Paulo Freitas

A política, enquanto vida pública por excelência, faz especial uso da verdade, da mentira, da falsidade e do segredo. Na construção da imagem e do discurso dos candidatos, articulam-se o ser e o parecer — o que é e o que não é, o que parece e o que não parece. Quanto tempo e dinheiro são gastos pela oposição para revelar o segredo de uma liderança do governo ou, ainda, como uma campanha pode ser montada para demonstrar a mentira sobre a qual a história de um candidato adversário é levantada. Uma das máximas mais ouvidas nos corredores da moralidade dá conta desse raciocínio: “Não basta ser honesto, tem que parecer honesto.”

Políticos como Trump e Bolsonaro chocam por serem e bancarem aquilo. O que muitos tentariam esconder é usado como capital político de grande eficácia comunicativa. Portam-se como machos do século XIX e vendem sua reputação e credibilidade em cima disso. Constituem-se, assim, como uma verdade absoluta, muito sedutora para alguns, violentíssima contra todos nós.

Créditos: Youtube

Doria, por sua vez, é um espécime da mentira. Ele não é, mas parece ser. Apresenta-se como apolítico, gestor e liberal, quando, na realidade, não tem como renegar a política, nunca foi responsável direto pela gestão de seus negócios e sempre fez uso de dinheiro público para subir na vida. O mentiroso seduz àqueles cujos interesses se alinham aos dele e dificulta o debate franco e direto.

O segredo subjaz à ideia da desmoralização de Lula. As forças contrárias ao petista tentam a todo instante erigir a noção de um fingimento, a ocultação de sua verdadeira natureza. Ele é corrupto, mas se passa por honesto. Ele é rico, mas insiste no mito do trabalhador popular. Tal estratégia enseja uma poderosa decepção, decorrente da revelação de uma suposta verdade escondida, cujo potencial passional pode ser constatado pelo ódio crescente ao ex-presidente.

Temer, por fim, obedece ao regime da falsidade. Desde o impeachment, mal consegue disfarçar as intenções do projeto que representa. O presidente não é e nem faz questão de parecer. São atos falhos, erros crassos de comunicação, confirmações desbocadas do que se supunha. Ele já chamou entrevista com jornalistas da grande imprensa de “propaganda”, afirmou que “mulheres são as melhores em verificar a variação de preços em supermercados” e, mais recentemente, ratificou a história de que o impedimento da presidenta Dilma se beneficiou de uma vingança pessoal do então presidente da Câmara dos Deputados, o deputado federal Eduardo Cunha.

[…] o descuido, em verdade, confirma a impressão de que há pouquíssimo cuidado em esconder as motivações por trás das reformas do governo.

O mais novo episódio da falsidade de Temer perpassa a peça publicitária de defesa da Reforma da Previdência. Sua equipe compara a resistência ao projeto à Revolta da Vacina. Em uma flagrante demonstração de ignorância e má-fé, o descuido, em verdade, confirma a impressão de que há pouquíssimo cuidado em esconder as motivações por trás das reformas do governo. A Reforma da Previdência carrega o mesmo espírito da Lei de Vacina Obrigatória, aprovada pelo Congresso da época e conduzida pelo sanitarista Oswaldo Cruz. Ambas se colocam como essenciais para o avanço civilizatório em detrimento do diálogo democrático e do verdadeiro bem-estar da população. Trata-se do positivismo de ontem e de hoje.

Não se enganem: todos nós assumimos essas quatro modalidades — verdade, mentira, falsidade e segredo — em diversos momentos de nossa vida. Não são só os políticos. Para o futuro das instituições democráticas, porém, essas estratégias discursivas podem ser decisivas na medida em que regulam a crença dos indivíduos não só nas figuras políticas, mas também no próprio sistema político como um todo.

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Marcos Kalil Filho

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Mestre e Doutorando em Semiótica, Advogado e Jornalista. Direitos Humanos, Política e Tecnologia são áreas de interesse.

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