Não existe glamour: a invisibilidade no futebol feminino

Seleção Brasileira Feminina de Futebol, campeã da Copa América Feminina de Futebol, 2014 — Ag. Notícia Andes (cc)

Lá nos primórdios da história da humanidade, os esportes surgiram com um objetivo central: disciplinar seus praticantes. As atividades, geralmente praticadas nas escolas para garotos, transmitiram valores que, até hoje, são comumente citados quando falamos sobre masculinidade: força bruta e virilidade.

Basicamente, o esporte, especialmente o futebol no Brasil, se desenvolveu como mais uma maneira de socialização tradicionalmente destinada à população masculina. E para reafirmar essa posição não é preciso ir muito longe: qual o primeiro presente que os meninos recebem nos aniversários? Isso mesmo, uma bola. Por isso, a minoria feminina que está inclusa no mundo do futebol é fruto de um construto social antiquíssimo. As mulheres não foram incentivadas a praticar esportes na mesma proporção que os homens, nem na escola ou pela família. No máximo, foram convidadas a se sentar e assistir. Mas entender essa construção tão ultrapassada é o primeiro passo para destruí-la, principalmente considerando o fato de que ela não atrapalha, de forma alguma, o interesse e habilidade que muitas mulheres têm em praticar e entender o esporte.

Hoje, apesar dos avanços que as equipes femininas de futebol têm alcançado, não é nenhum segredo que existe um abismo de diferenças entre os times femininos e masculinos. A começar pela falta de apoio, infraestrutura, patrocínio, dificuldades financeiras, invisibilidade. Tudo isso está atrelado ao futebol feminino e deixou de fazer parte do multimilionário futebol masculino, lá, bem no início, antes mesmo da categoria de base.

A mídia é essencial para o mundo futebolístico. Imagine passar um dia sem receber informações sobre os treinos do time da região, não saber sobre as novas contratações, qual e onde é o próximo jogo, em que canal será a transmissão, qual a escalação para o próximo duelo. Parece uma realidade distante para o tradicional futebol masculino, não é? Mas é nesta realidade que o futebol feminino vive. As equipes femininas são invisibilizadas pela mídia esportiva, e este cenário está longe de mudar.

Para o jornalista esportivo, João Pedro Mello, o primeiro passo para essa mudança precisa ser dado pela mídia. “Nossas jogadoras mostram serviço sempre que entram em campo, já passou da hora das emissoras esportivas valorizarem o trabalho delas”, diz. “E isso não se resume só na transmissão dos jogos, mas mostrar o lado humano, pessoal, como fazem com os homens. Sabe, a Marta fez aniversário uns meses atrás e ninguém falou sobre isso”, completa João.

Em janeiro deste ano, a Conmebol, Fifa e CBF implantaram uma nova exigência de que apenas clubes com equipes femininas poderão disputar a Copa Libertadores da América a partir de 2019. A decisão agradou a muitos, mas não todos. A zagueira do Santos FC, Alline Calandrini acredita que a exigência traz pontos positivos e negativos. “Não gostaria que os clubes tivessem futebol feminino por obrigação. Eles podem acabar levando de qualquer jeito e sem valorização do trabalho da mesma maneira”, esclarece a atleta.

A condição, apesar de ser um grande incentivo para a modalidade feminina, não é uma medida eficaz, como pontua Humberto Challoub, gerente executivo de Comunicação e Marketing do Santos FC. “Não vejo como uma solução efetiva, mas com certeza é uma iniciativa a mais para aumentar a participação das mulheres no futebol”, afirma. A respeito da transmissão dos jogos femininos, Challoub comenta, “Não existe um volume bom de jogos para que possa alimentar uma cobertura o ano todo, todos os fins de semana. Isso acaba tirando o interesse tanto de quem acompanha, quanto das emissoras”.

Em 2014, a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) em Porto Alegre, realizou uma pesquisa acadêmica fazendo o levantamento do número de artigos esportivos publicados durante um determinado tempo e chegou a seguinte estatística: 97,3% da cobertura é destinada aos homens, e apenas 2,7% trata de esportes femininos. No ano seguinte, o time feminino do Ferroviária, de Araraquara (SP), venceu a taça da Libertadores da América. A equipe tem apenas 10% de investimento comparando ao time masculino do mesmo clube. E na conquista a Libertadores, o prêmio que elas levaram para casa é apenas 1% do campeão masculino. Enquanto as meninas de Araraquara faturaram US$ 20 mil, o River Plate, campeão da categoria masculina do mesmo ano, levou US$ 5,3 milhões.

A falta de patrocínio também é um dos principais motivos para o futebol feminino enfrentar tantas dificuldades. Por não serem vistas pela mídia e não conseguirem bons patrocínios, as atletas têm salários baixos e diversos clubes passam apertos para conseguir bancar todas as jogadoras. “No Brasil as empresas e os clubes só visam o retorno financeiro. Dificilmente incentivam por nada”, desabafa Calandrini.

O futebol feminino, especialmente no Brasil, ainda caminha por um longo trajeto na busca da visibilidade merecida. A cultura do país, o apoio, o lucro, a inspiração, a paixão, está ligada a modalidade masculina. A meta é que isso não desencoraje as mulheres que sonham e lutam para ocupar um lugar no esporte.