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Não queremos virar noites trabalhando

E isso nada tem a ver com preguiça, mimo ou orgulho

Eu sempre tive muito sono. Mesmo. Você pode até dizer que eu estou querendo me passar por diferentona, que sono todo mundo tem. Mas confesso que o meu é incontrolável. Já dormi em mesa de bar, palestra, sala de aula, ônibus e a lista de lugares e situações é infinita.

Com tanto sono, sempre precisei dormir pelo menos 8 horas por dia e realmente dormi-las. Dessa forma, nunca virei noite trabalhando ou estudando. Nunca fui capaz de passar de meia noite fazendo alguma atividade que exigisse algum tipo de raciocínio ou trabalho intelectual.

Há registros da época do colégio onde fazendo um trabalho de grupo com amigos em minha casa larguei todos na sala e fui dormir. Egoísmo? Malandragem? Não. Eu simplesmente bloqueei e comecei a apagar durante as discussões do trabalho. Até que sem conseguir fazer mais nada, pedi desculpas e fui dormir.

Isso me constrangia muito quando eu via algumas pessoas estufando o peito e falando: “Virei a noite lendo os textos do mestrado; não dormi finalizando aquele projeto; trabalhei 20 horas seguidas para entregar o freela”. E a variedade de frases com afirmações semelhantes vai ao infinito e além.

E eu sempre abaixei a cabeça e pensava: “Nossa, nunca fiz isso, queria ser assim como essas pessoas”. Eu acreditava que não me esforçava tanto, não desejava tanto algo quanto elas ou talvez não fosse tão comprometida. Precisou chegar o ano de 2016, ter passado por faculdade, mestrado, inúmeras pesquisas e projetos, para entender que o problema não era eu e também para perceber que outras pessoas também não querem isso.

Não queremos virar noites trabalhando. E aqui eu não julgo quem prefere trabalhar de madrugada, mas pode dormir durante o dia. Cada pessoa tem suas particularidades e “funciona” melhor em diferentes momentos do dia. O problema não está em escolher a madrugada para o trabalho. Está em não repor as energias descansando o suficiente após uma jornada de trabalho.

E não me venha falar que isso é coisa da geração dos 30 anos que foi mimada pelos pais e que não dá o devido valor ao trabalho. Eu estou falando do pensamento de muitas pessoas que priorizam o equilíbrio em suas vidas, o relacionamento com a família e amigos e o desenvolvimento pessoal. Não é preguiça desejar ler aquele livro que está na sua lista tem tempo ou de ir em curso que vai tratar daquele tema que você está namorando há alguns anos.

Isso também não tem a ver com se achar melhor que alguém que acredita que virar noites é o máximo. É apenas uma questão de prioridades.

E percebo que cada vez menos a prioridade tem sido sacrificar o próprio corpo em prol de um negócio ou de uma carreira de sucesso.

Queremos contribuir para um mundo melhor e dar forma aos nossos sonhos de empreender ou crescermos em nossas carreiras. Mas cada vez mais percebemos que corpus sans mens sana. Quanto vale um jantar com os filhos sem estar no celular? Uma visita à mãe sem carregar o laptop nas costas?

Não invejo os empreendedores que sobem nos palcos para falar que não dormem direito há meses, que perderam contato com os amigos, que pedem pizza de janta todos os dias e que foram largados pelas namoradas. Porque se é em prol dos seus próprios sonhos, seus próprios negócios, então é justificável. Mas não: nenhum CNPJ (o seu próprio ou de outra pessoa) vale um AVC.

Acho que cada vez mais chegamos próximos do esgotamento de um modelo de pessoas que se consideram heroínas, entupidas de cafeína em busca de um próximo round de investimentos, fechando os olhos e se imaginando usando as camisas de malha do Zuckerberg. Será mesmo que em pleno século XXI não desenvolvemos ainda uma forma de criar coisas fantásticas para o mundo, mas garantindo nossas 8 horas de sono?

Desejo a todos uma ótima noite de sono.


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