Não tolero mais memes machistas

e nem conteúdos ofensivos fantasiados de opinião. Sinto muito.

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Sim, eu me tornei a chata do rolê. Aquela que não dá risada quando fazem piada sobre loira burra ou puta na mesa do bar. Aquela que olha feio quando alguém faz um comentário racista, que se magoa ao perceber a mudança de comportamento, do tom de voz e da expressão de alguém, que, depois de lamber o sapato do empresário, destrata a faxineira. Desrespeita o motoboy. Fica puto com o porteiro. Xinga a babá dos filhos.

Eu sou esse tipo de gente que põe mimimi em tudo. Que problematiza. Sou treteira com orgulho. Porque fazer parte do outro lado dessa história, pra mim, seria insustentável. Seria me tornar aquilo que as pessoas querem que as outras sejam nesse novo momento em que a gente vive: um ser humano raivoso, mesquinho, desprezível e apático aos seus semelhantes e, não, eu não quero isso pra mim. Eu não quero isso para as pessoas que eu amo e para aquelas que eu convivo ou sou obrigada a lidar todos os dias.

Eu não desejo que ninguém se torne desumano.

Eu me tornei aquela pessoa que não usa mais algumas palavras comuns do nosso vocabulário desde a época de Camões porque agora sabe o que elas significam de verdade. Porque sabe suas origens. Porque compreende que as palavras provocam mudanças e eu quero estar segura de fazer parte do lado bom desse jogo. Eu me obriguei a ser aquela que pensa antes de fazer colocações sobre o estado civil, orientação sexual, tipo de corpo, estilo de vida, escolha alimentar do outro ou qualquer desses assuntos que compete a cada um exclusivamente, da forma que cada um desejar. E só.

Eu me transformei com o tempo. Eu já cometi muitos erros, assumo, não nego e hoje, ao invés de abrir a boca para fazer rir ou apenas porque o silêncio pode ser incômodo, eu sinto os outros — e se faço algo que ofende, rapidamente tento entender os porquês. Não vou mais me fechar nas certezas que carreguei por tanto tempo e que já aprendi que não podem ser sempre tão certas assim. O mundo é grande demais para pontos de vista únicos e verdades absolutas.

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As coisas, infelizmente, parecem estar mudando para pior, de um modo quase irreversível. Então, eu prefiro ser a chata. A mulher que respeita, enaltece e valoriza as outras mulheres ao invés de me juntar a outras para destruí-la. Eu não vou mais repetir um comportamento quase que colocado como natural entre as fêmeas, eu não vou pactuar com a ignorância e a fragilidade do homem médio. Eu não vou julgar a mãe, a amante, a dita vagabunda ou a extrema religiosa. A gente não precisa disso e eu quero ser aquela que agrega e não que espalha. Que se coloca no lugar, na vida, na pele, na rotina e no cerne do outro antes de proferir alguma coisa, de ofender, defender ou de rebater quando contrariada.

Acho triste saber que as pessoas pensam que o politicamente correto acabou com o humor e que, hoje, tudo está entediante quando, na verdade, tudo anda bem torto. Bem sujo. Bem feio. Tem muita gente incomodada como eu por aí, ainda que sejamos minoria. Não deveríamos basear o nosso riso naquilo que magoa, diminui, destrói ou bagunça qualquer coisa na vida do outro. Isso nos torna podres. E pobres de espírito. E honestamente, sem criatividade ou graça alguma.

Eu quero mais é sair do grupo da família e bloquear aquela tia velha quadrada do meu Facebook, arranjar briga com o taxista, ser aquela que se nega a consumir qualquer coisa em estabelecimentos que defendem político baixo nível.

Quero mais é que me contrariem cem, duzentas, mil vezes. Que briguem comigo, que me mandem pra puta que pariu, que me chamem de comunista, de petralha, que falem mal de Paulo Freire na minha frente e que me condenem quando eu preferir o estilo de vida honesto das favelas à hipocrisia da elite. Eu não tenho só conceitos vazios ao meu favor ou repetições pobres disseminadas de geração em geração de ignorantes exploradores, eu tenho gente de verdade. E histórias de vida, de morte, dores de quem esteve, de quem sofreu e sofre, de quem luta, de quem inventa, reinventa e sobrevive a esse mundo cão que desde que nasceu está na mão das pessoas erradas. Eu tenho pluralidade, eu tenho força, eu tenho empatia e vou me cercar de quem se importa com o outro. Porque ninguém basta sozinho e um mundo é feito de gentes que juntas, se multiplicam. Eu quero multiplicar o que há de saudável e construtivo e não aceito menos que isso.

Vou me levantar e ser chata todas as vezes que achar preciso porque percebi que grande parte dos absurdos instaurados hoje foram consequência da minha omissão. Porque eu queria estar com quem oprimia. Porque eu não entendia que a maior riqueza estava na diversidade, na diferença, porque eu amava o meu país, a minha condição, o meu cabelo, minha pele e tudo o que me foi ensinado, em partes. Em partes muito, muito restritas. E que escolhi por muito tempo os lados errados das batalhas que não eram, nunca foram e nunca serão minhas.

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Sim, eu me tornei a chata do rolê. E quero estar cercada de gente chata também, que não tolere aquilo que para o outro não é só frescura: é questão de justiça. Seja essa justiça de que âmbito for.

Eu me tornei a pessoa chata. E quero que você não precise ser vítima das suas próprias palavras pra mudar logo de lado. Sempre há tempo.