Nós e esses zumbis que amamos tanto

Cena de The Walking Dead (levemente modificada)

Se existe um personagem bem sucedido na dramaturgia mundial dos últimos tempos, é a figura do Zumbi. Desde os anos 60, com menor ou maior protagonismo, eles têm estado presentes em nossas vidas.

O Zumbi clássico existe há muito mais tempo, veio de lendas e práticas religiosas do Vodu, originárias de Cuba, Trinidad Tobago e do Sul dos Estados Unidos. Trata-se de trazer de volta à vida, via feitiçaria, algum morto, roubando-lhe parte da alma. O resultado é um defunto andante, sem vontade, vagando por aí como se fosse um castigo. Ele não é como um vampiro, que mantém o charme e o sex-appeal. O zumbi simplesmente vaga.

Foi o gênio George Romero que trouxe essa lenda para o universo pop em 1968, com o excelente Night of the Living Dead. No filme, personagens ficam presos numa cabana ao mesmo tempo que algum evento traz de volta os mortos das tumbas. A cabana passa o filme todo sendo atacada pelos desmortos. Romero não dá nenhuma explicação para o evento (o máximo que temos é o slogan do seu próximo filme “quando não houver mais espaço no inferno, os mortos caminharão pela Terra”). Ele simplesmente acontece. Mas colocou regras na parada: os zumbis são lentos, apodrecidos, existem com o simples propósito de comer cérebros, e só voltam a morrer quando têm os seus próprios cérebros perfurados.

O filme até hoje é aterrorizante.

Desde então, o assunto jamais saiu totalmente de moda. Dezenas de continuações, adaptações e remakes vieram anos afora. Quando você acha que o zumbi morreu, vem alguém e OPA!, o danado ressuscita.

O ápice dessa onda é a série The Walking Dead, que nos entrega semanalmente nossa cota de zumbi, com uma produção caprichadíssima e que já gerou filhotes e clones por aí.

Mas o gosto pelo terror e pela escatologia somente não explicam todo esse interesse no assunto. Tem algo mais intrínseco que nos une a esse personagem.

Desde o começo, Romero pontuou crítica social nos filmes. Especialmente no ótimo Madrugada dos Mortos, que Zack Snyder atualizou em 2004.

Nele, enquanto a praga se espalha mundo afora, os poucos remanescentes da raça humana buscam abrigo num shopping center. A metáfora nem é tão sutil.

Na minha opinião, a figura do zumbi remete ao exército sem vontade própria que nós, os humanos, constituímos. Somos uma horda que se move de lá pra cá, em bando, atrás de algo que nós mesmos não sabemos direito o que é. Talvez busquemos sentido, que é algo tão pessoal quanto cérebros.

Faz sentido buscar sentido em grupo? Pelo sim, pelo não, continuamos nossa trilha de destruição usando isso como alegação. Seria grana, seria paz, seria alegria? O que move a turba ensandecida? O que ela usa como desculpa para justificar seu avanço sobre tudo?

Podemos até nos julgarmos seres únicos, flocos de neve especiais, cada qual com uma alma, cada um com sonhos muito particulares, mas nosso movimento é de manada. Avançamos sobre tudo, destruímos nosso passado, colocamos nosso futuro em jogo, e depois colocamos a culpa em nossa fome.

Tudo é justificável quando se está com fome. Seja fome de comida, de viagens, de sucesso ou de harmonia interior, tudo é possível quando nos movemos em formação de bando.

Tal qual os humanos de Madrugada, nós buscamos abrigo no consumo para provar que não somos mortos-vivos. É o relógio que me traduz, a bolsa que é a minha cara, o carro que é meu estilo, a camiseta que me faz único. Erguemos altares e igrejas em adoração às coisas que são nossas. Alçamos as compras à categoria de divindades, e depois colocamos cercas com arames farpados em torno delas, para evitar que outros também as queiram.

Quem deu tanta importância à essas coisas que fazem com que multidões dediquem suas existências à tarefa de também tê-las? Se formos pensar em nossas questões de sobrevivência, pura e simples, não precisamos de tanto. Andamos mergulhados em supérfluos que nos definem. E quando as massas se movem, o fazem pela falta desses supérfluos, enquanto muitas vezes lhes faltam o básico. Trocando em miúdos: o cara não tem água na torneira, mas mata por um tênis de marca. A fome justifica.

Uma das cenas mais aterrorizantes do filme, uma mulher grávida percebe que o bebê que carrega em seu ventre já está transformado em um pequeno desmorto. Terrível, sem dúvida. Mas será que mesmo isso não é um reflexo do que fazemos com nossos filhos? Fazemos de tudo para torná-los cada vez mais únicos, cada vez mais brilhantes, cada vez mais especiais. E dessa forma os trancamos nas casas, dentro dos muros dos condomínios, dentro dos carros, dentro dos pequenos círculos sociais. E os matriculamos no inglês, no ballet, no violão, na yoga e na meditação transcedental aos seis anos de idade. Queremos gerar poliglotas dançarinos violonistas yogues praticantes de meditação (mais único que isso, como?). E os soterramos sob os escombros dos presentes que atiramos a eles. Roubamos deles a habilidade de sentir assombro pelo mundo em que vivem.

E mesmo fazendo força pelo oposto, acabamos por fazer deles uma nova geração de zumbis, amaldiçoados a vagar pelo mundo, consumindo tudo que vêem pela frente.

As grandes metáforas não páram. Em Walking Dead, tanto no quadrinho quanto na série, nossos heróis, correndo pela própria sobrevivência, encontram abrigo justamente em uma cadeia. E sentem-se muito mais seguros lá dentro. Basta olhar para um condomínio hoje em dia para ver como essa inversão de valores já nos consumiu por completo.

Cena do quadrinho “The Walking Dead” de Robert Kirkman

É o próprio personagem principal da série que dá o veredito. Gostamos tanto de zumbis porque os mortos andantes somos nós. Mas o pior é que não sabemos quando estamos repelindo e quando estamos sendo repelidos.

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