Na Esquina da Informalidade e Na Encruzilhada da Reforma Trabalhista

FONTE: Guilherme Smee (17/07/2017 12:36)

Hoje eu quero fazer uma crônica sobre como um canto da minha cidade reflete a situação do trabalhador brasileiro. Vou falar sobre um espaço que caminho todos os dias para pegar o ônibus para ir para a faculdade e que tem ficado cada vez mais cheio a cada semana que passa, a cada escândalo político e a cada vez que o país afunda mais política e economicamente. Hoje eu vou falar sobre a esquina da Rua Felipe Camarão e da Rua Osvaldo Aranha, no Bairro Bom Fim, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

FONTE: Guilherme Smee (17/07/2017 12:36)

Quando eu vim morar no bairro dez anos atrás, a esquina já era famosa por abrigar uma banca de frutas que ficava aberta durante a noite. Ela serviu muito para a larica da madrugada dos resquícios do movimento punk que lotava a Osvaldo Aranha nos anos 80 e 90 e frequentava o Bar João e a Lancheria do Parque. Quando vim morar aqui, lá já tinham duas bancas que vendiam bolsas e acessórios de couro, além de uma que vendia produtos advindos de paragens como Paraguai e China. Também uma senhorinha que consertava encostos de cadeiras feitas com palha de plástico oferecia seus serviços e trabalhava lá.

Para quem, como eu, está sempre atrasado para o trabalho ou para os estudos, passar correndo por ali era uma constante. Só que com as velhinhas e velhinhos do Bom Fim se direcionando por ali, o trânsito pela esquina se torna um pouco lento. Vale lembrar que a esquina possui um cerca de ferro para evitar que transeuntes e carros de encontrem de maneira nada propícia aos transeuntes. Por isso, o lugar é passagem obrigatória de pedestres e um lugar especial para se colocar um banca de comércio informal. Também é um lugar de lento trânsito de pessoas e aglomeração das mesmas, devido a todos esses fatores citados anteriormente.

FONTE: Guilherme Smee (17/07/2017 12:36)

Depois de um tempo, depois que a crise se agravou e que o trabalho e o comércio informal se tornaram — ainda mais — triviais, surgiu um comerciante de calçados. Ele vende alpargatas no verão e botinhas de couro no inverno, além de bolsas durante o ano inteiro. Do outro lado da rua, três barraquinhas de produtos eletrônicos e que, no inverno, vendem gorros, cachecóis e luvas. Dois dois lados da rua temos vendedores haitianos, mas eles são um caso à parte.

Os haitianos, em sua maior parte, vindos depois que um terremoto e uma crise econômica e política muito pior que a nossa devassaram um país já muito devastado, moram, em sua maioria nas chamadas cidades-dormitório da região metropolitana de Porto Alegre. Eles estão vendendo produtos falsificados, óculos, roupas, relógios e jóias por toda a cidade. Em especial no Centro, no Mercado Público e na Rodoviária, duas das principais paradas do trem metropolitano que liga Porto Alegre às cidades-dormitório.

FONTE: Guilherme Smee (17/07/2017 12:36)

Os haitianos fazem parte de uma massa de manobra que veio substituir a ascendida classe C durante os governos Lula e Dilma primeiro. Junto com eles, dominicanos, ganeses e senegaleses também fazem parte dessa última onda migratória para o Brasil. Se, a princípio eles poderiam ser vistos em empregos relegados às classes mais baixas, em higienização de banheiros de shoppings, por exemplo, com o agravamento da crise, eles são vistos em ruas como a em questão. Já que a Classe C brasileira foi “colocada de volta no seu lugar” pelo governo Temer.

No início, eu via as pessoas passarem por esses vendedores e demonstrarem um certo desprezo. Havia, principalmente aqui no sul, um preconceito enorme contra esses novos imigrantes de pele escura como nunca se tinha visto no Rio Grande do Sul. Mas com o passar de um ano dessa onda migratória, vejo que tanto o portoalegrense se acostumou com os imigrantes, quanto vice-versa. Agora, as pessoas estão sempre conversando com eles e negociando seus produtos. Nas caras amarradas dos “novos brasileiros” é possível ver risadas e sorrisos. Não graças à crise, claro, e sim, ao brasileiro perceber que estamos indo em um rumo parecido com os dos países de onde eles vieram.

FONTE: Guilherme Smee (17/07/2017 12:36)

Logo, a banca de brinquedos e produtos do Paraguai ganhou um container de eletrônicos. No início do mês, perto do cara que vende livros usados ao lado do restaurante, se colocou um moço vendendo balas de coco. Semana passada foi a vez de, com uma mesa de plástico, um novo “habitante” da esquina colocar uma banca de rapaduras e quetais. Dessa forma, a esquina da Osvaldo Aranha com a Felipe Camarão se tornou um mini-shopping da informalidade. Um lugar que, por via das dúvidas, pode fazer frente a muito centro comercial que existe na própria Porto Alegre.

FONTE: Guilherme Smee (17/07/2017 12:36)

O brasileiro não desiste nunca. Ele não pensa na crise, ele trabalha, até porque ele não tem tempo pra pensar, só para conseguir dinheiro de alguma forma bem escusa e suada e viver na gambiarra que é sua vida. Abre-se um furo para tapar-se outro. Mais ou menos como tem sido a política econômica de Michel Temer e seu governo, que para tampar o rombo na previdência cerceou os direitos dos trabalhadores. Se o comércio está se tornando informal assim como os serviços já se tornaram, não faltará muito para isso afetar a tão poderosa indústria que o governo Temer e seus amigos neoliberais querem tanto agradar. O que será que vem antes? Um governo anarquista ou um governo totalmente neoliberal baseado nas ordens das grandes corporações e conglomerados industriais? Os casos Odebrecht e JBS são sinais patentes desse controle. A solução, como diria Raul nos longínquos anos 80, é alugar o Brasil. Nós não vamos pagar nada.

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Guilherme Sfredo Miorando

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é publicitário e tenta muito fazer o mundo inteiro gostar de quadrinhos. Seu blog sobre HQs é splashpages.wordpress.com

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