na moral, Deus me free

nem tudo são perdas

imagem: Janice Sung — Pinterest

tem coisas que quando a gente percebe, de verdade, não são perdas, são livramentos. é uma questão de perspectiva. de análise. de considerar melhor. de pegar a vida pela mão e conversar com mais seriedade e serenidade.

a gente coloca na balança e pensa.

embuste sumir de vez da sua vida é livramento. seu bus passando com você a poucos metros de chegar no ponto é perda.

término de uma amizade que só você considerava de fé é livramento. alguém comer aquela fatia de bolo de chocolate que você guardou com carinho e esmero escondida no fundão da geladeira pra comer depois é perda. inferno!

pessoas que de alguma forma são tóxicas passarem a não fazer mais parte da sua vida é um livramento. de repente 30 (amo esse filme) passar na sessão da tarde e você não poder assistir por que está no trânsito, aula ou trabalho, é perda. e que perda. e que dor. você fica até imaginando a cena do sofá e um pote de pipoca ao lado aproveitando aquele aconchego maravilhoso e depois dançando junto com a cena de Thriller. escorre uma lágrima. bad.

outra, não ir na academia pra ir feliz da vida a uma festinha de criança com bolo, docinhos e refri, é livramento. e dos bons. mas ir à academia e ficar pensando que deveria ter ido à festinha é perda. perda de tempo. faz mal. é martírio, gente, real oficial.

o trabalho que você não gostava e pediu demissão ou a festa com gente chata que você não foi e tal. livramentos. enfim, é claro, são inúmeras as perdas de fato. perdas mais doídas, situações duras que poderia citar por aqui, com toda a certeza, que a gente passa por essa vida e cada um de nós sabe bem. só que são muitos, mas muito mais livramentos. sério, tem coisa que a gente tem que parar, colocar a mão na cintura e dizer pra si “a madame vai ficar aí nesse drama? vai ficar olhando tudo da própria vida da mesma forma e tratando como se fosse só perda abaixo de perda, eim?” e, na verdade, agradecer que já foi.

o erro talvez esteja em misturar perdas e livramentos no mesmo saco. o do apego. e sacudir e ir tirando de dentro dele tudo como perda. é uma mistura que enrola a nossa cabeça e nos sabota. livramentos que transformamos em perdas. isso talvez, essencialmente, por não aceitar facilmente que algumas situações terminam e pessoas se vão e de que, me desculpe pela filosofia de Facebook que entrego neste momento, outras melhores virão.

um apego que se baseia nas migalhas muitas vezes. no pouco que foi bom. no pouco que foi respeituoso. no pouco que foi produtivo. no pouco que agregou na nossa vida. muitas vezes não enxergamos como o pouco faz mal e ficamos nos martirizando pelo fim de algo ou alguém apegados a ideia desse pouco quando o todo foi uma dor de cabeça daquelas. dica: razoável não é tudo pra quem se entrega por completo.

precisamos nos livrar da sensação de querer dividir carregar o fardo da culpa pelo fim daquela amizade ou daquele boy ou daquela mina embustes saírem da nossa vida ou de um trabalho que não deu certo. deixar que carreguem sozinhos o título de escrotice e de que não se encaixaram na nossa vida que merecem. é uma questão de saúde entender quando for livramento e quando, de fato, é uma perda, simplesmente, pra não sofrermos e ficarmos condicionados a isso.

nem sempre é perda. nem sempre vale a pena. muitas vezes, é libertação. limpeza. organização. de vida, emocional, espiritual e profissional. livramentos são necessários. livramentos pra respirar mais fundo e ter o olhar mais ao longe. é estabelecer o passar bem, meu bem e seguir o baile sem culpa. é pegar uma direção sem sentir a necessidade de olhar pra trás.

é dar relevância pra o que tem relevância. pra não carregar na mala o supérfluo. por que, na moral, tem coisa que já vai tarde. essa é a real. o tempo de validade venceu. ocupou espaço demasiado. mofou. não nos serve mais. incomoda. atulha. não tem mais função. e sofrer por isso é desnecessário. se apegar ao livramento é perda. perda de tempo, de vida, do que a vida tem pra você mais ali dobrando a esquina.

nem tudo é perda por mais que possa parecer, como diz o ditado internetês, Deus me free. que livramentos venham pra abrir a possibilidade de se reabastecer do que nos agrega pra valer, sabe?

então, acredite, diga, sem medo, livrai-nos todos do mal. amado. olhado. humorado. do que nos limita. do que nos impede de seguir a vida evoluindo pra melhor.

amém, livramentos!