Namore alguém que te ache uma pessoa fácil de lidar

(por Beatriz Leite | contato: beatriz.hmleite@gmail.com)

Vivo lendo por aí: “Se uma pessoa trata você bem, mas trata mal o garçom, ela não é uma boa pessoa”. Essa frase sempre me faz lembrar de um ex-namorado que tratava muito bem o garçom, mas não a mim.

Na frente dos outros, o Ex-Babaca (chamarei assim daqui pra frente, para evitar usar o nome) tinha uma aura de lorde inglês. Sempre nojentamente educado, cheio de por favor, obrigado, bom dia, boa tarde, boa noite e sorrisos. Quando estávamos sozinhos, as coisas eram um pouco diferentes. Eu, essa pessoa difícil, vivia irritando o pobre rapaz, que fazia as maiores grosserias comigo, sempre comentava que eu estava gorda e me explicava, com ar condescendente, como eu era difícil de lidar e de gostar. Voltávamos para o mundo depois de um momento romântico desses e eu não conseguia desfazer a cara de c*. Ele, como sempre, lorde inglês. E aí, é claro, eu era a maluca estressada com tudo, que não consegue deixar as coisas pra lá, que fica de cara fechada em situações sociais, que deu a sorte de encontrar um cara legal assim e vai acabar perdendo se continuar dando esses pitis.

Esse poderia ser um texto sobre gaslighting e relacionamento abusivo, mas eu quero falar especificamente sobre:

  1. como todos somos pessoas difíceis;
  2. como algumas pessoas despertam o pior e outras despertam o melhor de nós e
  3. como todos devemos nos relacionar com pessoas que nos façam sentir que somos fáceis.

Se é pra achar coisa boa e aprendizado em um relacionamento cocô, vou dizer que é isso: aprendi que sou sim uma pessoa difícil, assim como todas as outras pessoas do mundo. Eu me achava fácil; me sentia uma grande injustiçada com o Ex-Babaca e, ao longo do relacionamento, fui me convencendo de que ele tinha razão e fui para o outro extremo. Passei a acreditar de verdade que, se terminássemos (coisa que eu até queria, porque estava bem infeliz), eu não conseguiria encontrar outro, porque era evidente que ninguém iria me aguentar sendo tão dramática, insegura e controladora.

Embora isso tenha ido longe demais e detonado minha autoestima, foi um bom primeiro passo: entendi que eu de fato não era a pessoa mais fácil do mundo naquele relacionamento. Com o tempo, no entanto, comecei a questionar por quê. Eu não brigava com ninguém, não tinha problemas nas outras relações próximas da minha vida. Por que, então, especificamente com ele, as coisas eram tão pesadas? Resposta rasa: porque ele não é uma boa pessoa e qualquer relação dele seria ruim. Resposta prêmio: porque ninguém se relaciona sozinho, porque é tudo retroalimentado, porque nossas ações são sempre reações a outras reações, porque, assim, construímos dinâmicas das quais é muito trabalhoso se livrar depois.

Dizer que nosso relacionamento era cocô por culpa dele é o mesmo que ser categórica e dizer que ele era uma pessoa difícil: uma pessoa impaciente, que não sabe lidar com nada, que teria muita sorte de encontrar alguém que a aguentasse. Mas, peraí, não era exatamente isso que ele fazia comigo?

Relacionamentos são dinâmicas co-sustentadas

Comecei a refletir sobre o quanto nós dois simplesmente não éramos legais um com o outro. E era uma bola de neve: ele foi grosso comigo, então, voudar uma resposta torta pra ele, o que, por sua vez, vai fazer com que ele não tenha vontade de mudar de atitude, e aí mesmo que eu também não vou mudar. É difícil precisar o que veio primeiro. Por mais que eu adoraria culpá-lo por tudo no mundo, eu também não era uma boa namorada. Estávamos presos em um ciclo vicioso de má vontade.

É claro que existe sim gente que é mau caráter e vai se comportar como um lixo em qualquer relação. Porém, via de regra, não é possível determinar que uma pessoa é horrível só porque ela foi horrível com você. Pessoas maravilhosas às vezes fazem coisas horríveis. Aliás, muitas vezes, essas pessoas que fazem coisas horríveis somos nós mesmas. A diferença é que nós conhecemos nosso próprio contexto, nós sabemos todas as pequenas situações, sentimentos e detalhes que nos levam a tais ações e, por isso, nos perdoamos. Nós não sabemos do que se passa na cabeça do outro. E, frequentemente, em relacionamentos, entramos em dinâmicas que nos fazem ser alguém que nem gostaríamos de ser ou agir de maneira que nem nos imaginaríamos capazes de agir.

Não digo tudo isso para passar a mão na cabeça de quem erra conosco e defender que devemos perdoar tudo porque cada um tem seus motivos. Sentirmos mágoa e até rancor é totalmente legítimo. Mas é produtivo contextualizar tanto as nossas ações quanto as das outras pessoas e perceber que aquelas que foram horríveis conosco são perfeitamente capazes de serem maravilhosas com outras, assim como nós não somos sempre péssimos ou excelentes. Cada relação é única, não só pela mudança de pessoa em si, mas também pela nossa própria mudança e também pelo momento da vida em que a relação ocorre.

Às vezes, queremos coisas e temos expectativas diferentes dentro de uma relação e acabamos nos frustrando com o outro sem ser culpa de ninguém. Às vezes, algo que é muito importante pra gente é algo que a outra pessoa nem se liga de fazer, simplesmente porque não é importante pra ela, e aí a gente interpreta como descaso por esperar do outro o nosso mesmo comportamento. Às vezes, temos estilos diferentes de comunicação e isso atrapalha a relação. Às vezes, é só um momento ruim da vida.

Sobre “ser uma pessoa difícil”

O grande xis da questão é que todo mundo é uma pessoa difícil. E isso é verdade não só porque todos temos um mundo de sentimentos dentro de nós e isso nos faz complexos. Isso é verdade principalmente porque sempre depende da perspectiva e do contexto. Nenhuma relação vai ser isenta de problemas e insatisfações, logo, o que devemos escolher é estar com uma pessoa que aceite o nosso tipo de difícil e vice-versa. Uma pessoa que não fique insistindo em mudar o mais básico de quem somos.

É surpreendente e maravilhoso como as pessoas são diferentes uma das outras. Algo que uma acha lindo, outra pode achar horroroso. Desse modo, é muito comum descobrir que aquela sua característica que seu/sua ex odiava e que você aprendeu a enxergar como um defeito é algo que seu/sua novo/a namorado/a acha adorável, uma graça. Em outras palavras, o que é defeito pra um pode ser qualidade pra outro. O que faz uma pessoa te achar irritante faz outra pessoa te achar fenomenal. E por aí vai.

Isso significa que devemos nos afastar de pessoas diferentes de nós e nos cercar de uma bolha que nos diga o tempo todo que somos incríveis? Também não é assim. Conviver com pessoas diferentes que nos fazem encarar nossas manias chatas pode ser bom, de um ponto de vista “ganhar feedback”. Mas a gente tem que ter autoestima suficiente pra não sair mudando tudo sobre quem nós somos a cada pessoa que viermos a desagradar. Além disso, é importante lembrar que diferença não é o mesmo que defeito e, quando nos relacionamos de perto com quem não respeita o que temos de diferente, a relação se torna pautada em cobranças inatingíveis. É desse modo que criamos esses ciclos viciosos de má vontade: exigindo do outro algo que ele não é e nem quer ser. Dessa maneira, ninguém se sente aceito e isso acaba se tornando o tipo de relação que acorda o pior de cada um.

Voltando para o Ex-Babaca, que certamente representa muitos ex de vocês por aí: não faz bem nenhum se relacionar com uma pessoa que vive te criticando e te botando pra baixo. Uma pessoa que faz com que você se sinta alguém difícil de ser gostado, na verdade, não gosta de você. E tudo bem ela não gostar de você, isso é problema dela, não seu. O que não dá é pra ela querer te encaixar em um molde de quem ela quer que você seja ou acha que você deveria ser e te tachar de difícil pela sua rebeldia de não desempenhar esse papel que você nem pediu. É muito comum manter uma relação com uma pessoa que você sente que ama, mas, na verdade, não gosta e, por isso, tenta mudar (questiono se é realmente possível amar alguém sem gostar, mas esse é tema para outro texto). Não é uma dinâmica saudável.

Então, vamos lá, amigas e amigos, se você se relacionou ou se relaciona (e isso se estende para amizades) com uma pessoa que te faz sentir “difícil de lidar”, dê uma chance a você mesma/o de se relacionar com alguém que te ache fácil. Essas que nos acham difíceis são pessoas que, normalmente, querem nos mudar, e elas nos fazem acreditar que pessoas que nos achem fáceis são unicórnios que jamais encontraremos, mas isso simplesmente não é verdade. Quando a gente se abre para o mundo, reúne um pouco de amor próprio e se permite sair desses relacionamentos tóxicos — porque sim, são relacionamentos tóxicos — , a gente descobre que dá pra ser bem mais leve que isso. É libertador ser você mesma com alguém que gosta de você assim.

Todo mundo é uma pessoa difícil, mas todo mundo merece estar com alguém que nos ache uma exceção.


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