Não adianta sair do Facebook

Fonte: Pexels

Faz boas duas semanas que tomei uma atitude diferente em relação a minha interação nas redes sociais. Pode parecer pouco tempo mas a volatilidade de tempo nas redes sociais tem uma contagem diferente do mundo real. Então, eu defini, há boas duas semanas, que qualquer postagem política que seja remotamente povoada de preconceitos e posições pessoais disfarçadas de opinião política, independente do emissor, eu tô deletando do meu círculo.

Parece radical, mas a polarização de opiniões e a disposição dessas opiniões nas redes sociais tem acelerado uma série de incômodos que normalmente ficam nítidos somente em situações isoladas e práticas. Em resumo, está me fazendo mais bem não ter que lidar com essa loucura.

Tudo isso porque o levante de candidatos (que não serão nomeados aqui) com uma agenda política em divergência com o momento de desconstrução, revisão e evolução de temas tão sensíveis para a sociedade brasileira tem mostrado um lado muito mais sombrio (e por que não verdadeiro?) das pessoas do que elas imaginam.

Antes, a proposta política de candidatos políticos oferecia pouca/nenhuma relação com a forma que as pessoas tratam umas as outras no dia a dia. Hoje em dia, um eleitor/apoiador desse tipo de candidato enxerga nele a representação de uma ideologia que essa pessoa também pensa e não tem coragem de assumir publicamente. Agora sob a premissa de apoio a um candidato, essas pessoas se sentem validadas para emitir suas posições reais sobre questões tão sérias da nossa sociedade, como racismo, homofobia, igualdade de gênero, violência, etc. Essa suposta validação para que as opiniões sejam emitidas, replicadas, endossadas e reforçadas é muito preocupante.

Esse tipo de atitude nas redes sociais exime os apoiadores e eleitores desse tipo de candidato da responsabilidade moral que todos temos de olhar o outro e seu espaço e lugar de fala com o respeito, compreensão e acolhimento devido. É como se todo trabalho de discussão, desconstrução, problematização e evolução que a sociedade tem se proposto e conseguido a duras e lentas penas está sendo jogado no lixo porque a pessoa enxerga uma saída mais fácil que permite que elas não precisam mais se adequar, esforçar a entender, compreender o outro, refletir sobre privilégios, e por aí vai. Longe de mim imaginar que estamos prontos para uma sociedade justa, adequada, compreensiva e acolhedora de todas os grupos com menos privilégio, mas o processo de desconstrução é válido enquanto ele existe e tem espaço. Sem isso, o debate para melhorarmos é uma ferramenta obsoleta que não serve para apertar nenhum parafuso solto.

Candidatos assim, com pautas assim, com discursos assim e apoiadores assado povoando as nossas redes sociais prestam um desserviço. Essa é a máxima que pauta uma decisão como essa que tive há boas duas semanas atrás. Nos piores dias, vejo toda essa turma como uma trupe preguiçosa demais para qualquer discussão aprofundada que possa provocar uma leitura que seja rica para melhoria de todos. E eu acabo acreditando que evitar seja a minha melhor saída mais fácil. O instagram me permite definir a narrativa que quero absorver no meu feed de uma maneira mais eficaz. O twitter me oferece as duas melhores coisas que a internet pode promover: uma fonte de informações e uma plataforma para meu desabafo rotineiro. Já o facebook se transformou num celeiro de informação desencontrada, palanque de opiniões não solicitadas, desfile de preconceitos em estágio de fossilização e um reflexo direto da sociedade pela qual a gente caminha todo dia.

Já cogitei sair das redes sociais, do Facebook inicialmente, para clarear o ar que respiro na vida suspensa da internet. Depois de duas boas semanas conclui que não seria eficaz. A diferença do Facebook para as outras redes é que o instagram e o twitter estão cheios de gente que eu sigo e que não conheço. E esse é o maior susto e a maior preocupação: o Facebook está povoado prioritariamente de gente que eu decidi aceitar por conhecer nas diversas esferas da minha vida social, profissional, acadêmica, etc. Ou seja, do lado de fora, na vida real, no dia a dia, dentro da própria família, nos grupos de ex colegas de classe e firma o mesmo celeiro, palanque e desfile segue ativo e crescente.

Por isso, não adianta sair do Facebook.
Por isso, não adianta ignorar o problema.
Por isso, não adianta esperar passar o mês de Outubro.
Por isso, não adianta fingir que as pessoas voltem ao normal.
Mas, é por isso também, que vale a pena falar, questionar e convidar a reflexão quando tudo que a gente luta todo dia pra ser diferente, refletido, melhorado é ameaçado.

Doa a quem doer.

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