Ninguém te ensinou a sonhar

E a culpa não é sua

Descrição acessível: Foto em preto e branco que nos mostra, em primeiro plano, um pequeno e redondo bolo de aniversário com algumas velas acesas em cima. Ao fundo, desfocada, mas visível o suficiente para que notemos sua feição, uma senhora encara a câmera como posando espontaneamente sob um sorriso tímido.

"Qual é o seu sonho?" sempre foi uma pergunta que me incomodou bastante. Sempre que alguém me questionava a respeito enquanto me encarava com dois olhos grandes e brilhantes, esperando que eu respondesse algo sensacional, eu me sentia estranho.

Mas o que é um sonho? Talvez você tenha um, talvez você tenha vários. Mas, na maior parte das vezes, quando alguém te pergunta especificamente qual é o seu sonho, é bem comum que a pessoa espere uma única resposta, um único sonho. Talvez seu sonho seja o grande objetivo da sua vida, ou talvez ele seja apenas algo que você queira muito que aconteça. Talvez você queira ser bem-sucedido, talvez você queira se casar e ter filhos, talvez você queira viajar o mundo.

E assim sendo, voltando a pergunta que iniciou esse texto, quando alguém me colocava a questão sobre qual era meu sonho, minha primeira reação era automaticamente me perguntar: Como eu deveria saber? Como eu deveria resumir em poucas palavras? Como eu deveria antecipar agora, no auge da minha juventude, o que vai me deixar satisfeito na velhice? Espera aí, esse é um assunto a ser muito bem pensado. Não consigo responder isso dessa forma.

Por perguntas como essas, responder qual é meu verdadeiro sonho sempre foi um incomodo. Me sinto como se estivesse estabelecendo um topo, um limite de experiência que minha vida pode atingir.

Isso, aliado ao fato de que nós, meros humanos, somos horríveis em prever o futuro e imaginarmos como nos sentiremos daqui há alguns anos, torna a questão complexa o suficiente para justificar meu desconforto. Isso tudo é causado pela forma que nos relacionamos com o tempo, nossa habilidade de identificar padrões por diferentes métodos de observação e as diferentes e inúmeras possibilidades de desenvolvimento social para o futuro. Nós dificilmente saberemos responder com exatidão o que terá valido a pena e o que não.

Porém, apesar de todo esse desconforto, meu problema verdadeiro com essa questão é que: Nós — com o perdão do termo — fodemos essa geração de sonhadores. E na verdade, eu não sei nós jamais pudemos sonhar de forma saudável. Isso porque o sonho parece nascer a partir do momento que o mercado nasce, que o consumo como é visto hoje se torna uma característica humana e os sonhos humanos se tornam mercadorias.

Vendemos isso hoje de forma inacreditável. Hoje mais do que tudo. Fazemos pessoas acreditarem que há um jeito simples para vencer na vida, enquanto vencer na vida é tão invenção quanto os sonhos de toda uma sociedade. Vendemos fórmulas, listamos cinco, dez, doze passos para tornar seu sonho realidade. O quão bizarro é isso são apenas os trinta primeiro segundos desse vídeo abaixo?

Vivemos essa síndrome de duplicatas que acreditam ter livre-arbítrio de desejo e pensamento quando, na verdade, somos todos condicionados a acreditarmos que podemos ser os próximos Mark Zuckerberg’s do mercado sem ao menos considerarmos que podemos desempenhar nosso próprio papel no mundo.

É preciso deixar claro que a realização de um sonho não está relacionado ao sucesso profissional. E isso soa tão bizarro e inatural quando colocado em palavras escritas que ao voltar e reler é como se nunca tivéssemos, de fato, feito essa relação. O seu sonho deveria ser, se é que me permite falar isso, um objetivo de conquista pessoal acima de tudo. Algo tão intimo seu que não pudesse ser quantificado e massificado da forma que é facilmente feito hoje.

Lembro-me de um professor, no auge de alguma aula, soltar a pergunta incomoda para a sala “Qual o seu sonho?” e ninguém saber responder de forma satisfatória ou de forma que ao menos transparecesse que realmente pensamos sobre esse tópico. Geralmente, optamos por clichês como os já citados: Talvez você queira ser bem-sucedido, talvez você queira se casar e ter filhos, talvez você queira viajar o mundo.

E não tem nada de errado em querer essas coisas, a vida é sua, esse é o ponto do texto, mas aliado à isso, vem cá, me diz: Você realmente pensou sobre isso?

Desde então eu tento ser o mais pragmático possível a respeito disso tudo. Deixei o termo sonho de lado e dividi esse, que anos atrás era o grande objetivo da minha vida, em pequenos objetivos ao longo do caminho que sempre me relembrarão porque eu estou fazendo algo.

Além disso, hoje como auxílio, foi importante perceber durante os anos que esse pensamento se desenvolveu que vencer na vida não é uma tendencia de mercado, ser bem-sucedido não é ser seu próprio chefe, realizar seu sonho não deveria carregar, impregnado a frase, esse sentimento de artificialidade.

Minha conexão com esse tipo de assunto é assídua dessa forma porque cresci com um pai que não atingiu seus objetivos porque mirou tudo numa carreira que não deslanchou e hoje enfrenta dias e mais dias de frustrações. Cresci com uma mãe que abriu mão de muitas coisas para ser simplesmente mãe porque, afinal, se ela casou, é obrigatório que se tenha filhos — sim, claro, faz todo sentido.

Enfim, se no final, apesar disso tudo dito você ainda discordar, a melhor dica sobre sonhos foi dada por Tyler Durden em Clube da Luta:

Pensem sobre. Sejam felizes.