No Rio, 2017 já chegou

Tiro, facada e bomba: a antecipação dos fatos anunciados


O ano de 2009 tinha tudo para ser um ano qualquer, daqueles que passariam despercebidos, nascidos para serem esquecidos. Seria um 1930, pós-crise de 29, ou 1946, pós-guerra. As promessas para um ano tenso, por causa da crise financeira de 2008, não se concretizaram. Tudo por conta de um momento acontecido lá em Copenhague, Dinamarca:

O COI, Comitê Olímpico Internacional, escolhe a cidade do Rio de Janeiro como palco das Olimpíadas de 2016.

A escolha do Rio para as Olimpíadas de 2016 contrariou todas as “lógicas” possíveis. Menos uma: a do dinheiro. Entorpecidos pela “crença milagrosa do país escolhido por Deus”, foi difícil para o povo compreender o óbvio: o Brasil era o país do momento por causa de uma balança comercial crescente, alimentada pelo “dragão chinês” da prosperidade. Enquanto Europa e EUA sofriam com seus pesadelos, nosso querido território vivia a “pujança econômica” que o transformou numa espécie de “terra prometida” para o mundo.

O “bom momento” era tamanho que ainda tivemos que ouvir isso (torcendo para que fosse verdade):

Lula, em 4 de outubro de 2008, em comício no ABC Paulista.

Esse vídeo foi só um reforço para ilustrar o bom momento econômico que vivíamos, premiado com a escolha do país para sediar os Jogos Olímpicos. Governos e o mercados financeiros sabem que “dinheiro tem vida”. A grana se assusta, corre, anda, dorme, acorda e, se bobear, até fala. Um dos destinos preferidos naquele momento foi o Brasil, e claro, o Rio.

Porém, até o mais otimista já podia imaginar que passados os bons ventos, 2017 reservava um futuro incerto.

Da esquerda para direita: Eduardo Paes, prefeito do Rio (2009–2016), Sérgio Cabral, governador do estado (2007–2014), Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Luís Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil (2003–2010), Orlando Silva, ministro do esporte (2006–2011) e Carlos Roberto Osório, ex-coordenador da Rio 2016.

O “tsunami” de otimismo

O povo e suas crenças

De uma hora para outra, a cidade passou a ser o foco do foco. Todo mundo feliz, com dinheiro no bolso, morando num lugar importante… calma, tem alguma coisa errada aí! Ah, claro que tem! E para corrigir isso, a cidade e o estado (puxado pela capital) começam a viver uma onda absurda de subida de preços. Enquanto uns falavam que o metro quadrado estava desvalorizado, outros diziam que os aumentos foram abusivos mesmo. Vendas e aluguéis nas alturas, serviços e produtos encarecendo. Parecia um novo 1808, que ao invés da família, trouxe uma“Olimpíada Real”. Independente de quem estava certo, só havia uma certeza: uma hora a corda arrebenta. Meu palpite? Seria 2017… bem, seria.

O frenesi com as Olimpíadas só arrefeceu quando, aos poucos, fomos nos lembrando que havia um outro evento importante a ser realizado no país: a Copa do Mundo de 2014. A gangue da FIFA aterrissaria no Brasil em 2013, na prévia da Copa das Confederações, sendo recepcionada por algo inesperado: uma manifestação sem precedentes no país. Naquele momento, os ventos começavam a mudar.


Manifestações de 2013, o primeiro grito dos insatisfeitos

Rio, junho de 2013


Objetivamente, as manifestações não mudaram coisas pontuais. A passagem de ônibus abaixou? Sim, mas aumentou meses depois. Já as transformações a longo prazo foram enormes. Em relação às pessoas, elas passaram a se sentir mais confiantes em se manifestar, seja pessoalmente ou nas redes sociais. Já do lado policial, o número de armamentos “anti-aglomerações” cresceu. Começamos a ver os “PM Robocops” nas ruas, além do uso abusivo das armas não-letais, especialmente os gases lacrimogênio e de pimenta.

O sentimento era de que poderíamos estar entrando em um outro momento, onde os conflitos de sempre, leia-se “assaltos”, estavam sendo reduzidos. Agora o Rio, cheio de dinheiro, visado e com o povo “mais contestador do Brasil” iria à frente, apontando o futuro… futuro?


Rio de óleo, mar de petróleo

A economia de um estado dependente e decadente

Se voltarmos um pouquinho no tempo, lá em 2012, é possível lembrar daquela passeata organizada pelo governo e prefeitura do estado, para sensibilizar a presidente Dilma Rousseff a vetar o projeto de “redivisão” dos Royalties do petróleo que, basicamente, mudava as regras da partilha do dinheiro, do qual boa parte permanecia no Rio de Janeiro.

Políticos, artistas, funcionários do estado e população juntos para salvar a máquina estatal de um baque financeiro. Novembro de 2012.

A preocupação daquele momento era a falência definitiva de um estado já falido. Boa parte dos recursos públicos gerados no Rio de Janeiro vinham de Macaé, Campos, Quissamã, ou melhor, das atividades offshore que acontecem na região, bancando as necessidades e mordomias estatais.

Porém, dois anos depois de todos os fatos acontecidos nos parágrafos acima, um em especial acontece: o barril de petróleo cai quase pela metade em pouquíssimo tempo, reduzindo as receitas do estado de uma maneira preocupante.

Gráfico do preço do barril de petróleo até novembro de 2014.

Por outro lado, estouram as investigações da Operação Lava-Jato, que inviabilizou, dentre tantos outros empreendimentos, o Comperj. O antes Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, el dourado de Itaboraí (cidade da região metropolitana), agora se apequena, reduzindo os investimentos em toda a região. Para um estado dependente do “ouro negro”, o que poderia ser pior?


Crime contra ciclistas: um símbolo do que se tornou a selvageria urbana.

Doutor, quais são as minhas chances?

Das balas às facas: a violência e suas modalidades

Para deixar o post sem censura, preferi não expor a foto do ciclista sangrando à beira da Lagoa. Entretanto, aquela velha máxima local que diz “se não fosse na zona sul, não teria tanta exposição” se fez ainda mais presente nesse crime bárbaro. O motivo? Crime no cartão postal “momentos antes” de um dos maiores eventos do planeta: as Olimpíadas.

A morte do ciclista Jaime Gold, em 19 de maio de 2015, foi o decreto final na antecipação de 2017. A pouco tempo atrás, conversava com alguns amigos sobre o “prazo de validade” que as ainda famosas UPPs tinham na cidade. Presentes massivamente nas zonas sul e norte, especialmente ao redor do Maracanã, nossas apostas eram até as eleições de 2016. Porém, não poderíamos imaginar que o estado ficaria mal das pernas tão cedo.

Um dos primeiros reflexos da falta de dinheiro se deu nesse fato. As viaturas da Polícia Militar foram orientadas a desligar o carro para economizar gasolina. Todos sabemos o quanto é necessária a prontidão dos carros para partir a qualquer momento. Naquele momento, o estado estabelecia uma de suas primeiras “economias” percebidas na segurança pública.

Aos poucos, a prometida expansão das Unidades de Polícia Pacificadora começava a arrefecer. Por conta da instalação das UPPs nas principais favelas da capital, o crime migrou e se espalhou por toda a região metropolitana, se fazendo ainda mais presente entre a população que, até então, pouco sabia o que era um tiroteio em suas portas.


Um fim de ciclo

As perspectivas políticas de sempre


Diante das dificuldades, especialmente no âmbito nacional, com retração da economia, inflação à vista e crise política, a federação caminha para mudanças. Certamente não serão bruscas, nem revolucionárias, como muitos brasileiros idealizam. Nem boas, nem ruins, serão apenas mais um conjunto de mudanças que impactarão na sociedade.

Socialmente, ainda é possível perceber o Rio como um estado que indica tendências para o país, sejam elas boas ou não. No momento, a política fluminense mostra caminhos polarizados e bem marcados. Poderíamos também chamar isso de “saco de gatos”. Dá uma olhada:

Eduardo Cunha — Deputado Federal pelo PMDB (2015–2018)

Eduardo Cunha: o deputado federal é presidente da câmara (2015–2017). Evangélico, é membro do PMDB e cheio de manobras para votar o que quer. Há tempos que não se falava tanto num presidente da câmara.

Jean Wyllys — Deputado Federal pelo PSOL (2015–2018)

Jean Wyllys: o ex-BBB baiano veio para o Rio tentar sua candidatura pelo PSOL, em 2010, defendendo o universo GLBT. Em 2014, foi reeleito com base em suas propostas que o tornaram referência na causa gay.

Jair Bolsonaro — Deputado Federal pelo PP (2015–2018)

Jair Bolsonaro: o deputado federal mais votado do Rio, encontrou em Jean Wyllys um rival para defender causas radicalmente opostas, se posicionar à “direita” e emergir como um nome alternativo para a presidência em 2018.

Romário Faria — Senador pelo PSB (2015–2022)

Romário: Eleito o senador mais votado da história do Rio em 2014, é um dos mais combativos num dos temas que mais “deram pau” em 2015: o futebol. A crise da FIFA e da CBF, fazem o “baixinho” falar ainda mais do que já é de costume, polemizando como sempre.

Marcelo Freixo — Deputado estadual pelo PSOL (2015–2018)

Marcelo Freixo: apesar da pouca relevância nacional, foi o deputado mais votado, em número absoluto de votos, dentre todas as federações em 2014. É o contraponto do status quo da política fluminense.

Eduardo Paes — Prefeito do Rio de Janeiro (2013–2016)

Eduardo Paes: ventilado como possível nome para governador ou presidente em 2016, o atual prefeito do Rio tem uma carreira marcada pelas oportunidades que ele próprio construiu ao redor de si, para o bem ou para o mal. Levará para sempre o legado dos jogos olímpicos consigo.

Dentre os seis personagens listados acima, todos têm uma característica similar em particular: o dom de “sair falando” e depois “ver que merda vai dar”. É lógico que um é mais inteligente, outro mais inconsequente, mas todos representam o mesmo lugar, a mesma federação.


Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, não é difícil percebermos que mesmo no estado de decadência do Rio de Janeiro, com fatos, situações e personagens tão desconexos que aparecem a todo momento, já podemos afirmar que tudo que todo o caos que imaginávamos para 2017 era real. E, definitivamente, foi antecipado. Inclusive os juros.

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