Nós, a dor de laços desfeitos

Ou: Do horror, da dor e do grito silencioso quando da morte de um jovem

A morte de um jovem nos mata a todos. É como se a falta de vida nos abraçasse um pouco, minutos que são infinitos em expansão; envelhece-nos, deixa-nos densos a morte de um jovem. O susto, então o horror suspenso no ar. Grave. O horror tangível, dá para passar a mão no horror e esfriar-se. Dá para cobrir-se de horror, sentir a dor do mundo inteiro no clarão da morte de alguém que quase nada soube da vida. A morte de um jovem é a morte do mundo.

Mesmo que não se saiba, a morte de um jovem nos pega e nos come a todos. Pode até passar desconhecida aos olhos, talvez não se saiba da morte em si, mas ficaremos imóveis. Estaremos imóveis. E, de repente, pensa-se: oh! que frio, que dor. Pois morreu alguém que estava muito vivo. Pensa-se: ora, para onde foi tanta vida que estava aqui? O mundo sente aquela fagulha tão quentinha desaparecer. Esfria-se também o mundo.

E quando se encara a morte de um jovem, estamos tão parados que parimos mais do que as perguntas da vida. Deixamos vir ao mundo as reticências da morte. Não gritamos para fora, gritamos para dentro, para dentro do mais interior possível.

O horror, o horror tangível e suspenso, mas as mãos em busca da própria morte. Conhece-se a própria morte por invisíveis centésimos de segundo. A morte passou por aqui. Então, a gente sabe. Adivinhamos a presença da vida, observamos — como em susto — que tudo no mundo está tão vivo. Tão vivo e tão enlutado. Agora e sempre.

Parte pulsante do mundo está longe agora. Para onde foi o nosso mundo?

Envelhecidos e imobilizados, por isso a dor do mundo todo nos pesa os olhos. Encerramo-nos no grito interior, na implosão de todas as coisas conhecidas. Somos a história do que veio e viu.

Horrorizados no grito mais silencioso do mundo, buscamos escutar, talvez, o milagre de uma vida — daí, então, o nosso próprio renascimento do (também) envelhecido tempo. Nascemos, não sem dor, mas do dever de ser vida quente, jovenzinha, criação da coragem possível, precisa e sagrada para empurrar o mundo no amanhã.

Mas. Dói. A vida. O ponto final que não tem explicação.

A dança de pequenas fagulhas que nos deixam com frio, do encerrar de coleções de histórias que mal tinham se iniciado. Para onde vão as fotos que existiriam aqui? Espaços em branco impreenchíveis. Ficamos nós, a dor de laços desfeitos. Permanecemos ao recolher tantos porquês, ao engolir o vazio de sons tão silenciosos.

Imóveis, continuamos. Penduramos o horror em varais, dores estendidas. E a desconfiança latejante que nos cabe na morte de um jovem: a vida tão presente, mas como uma gota de água que irá cair a qualquer segundo, encontrar o chão quente de um dia de verão, o sol a escaldar. Vidas secas. A morte.

Imóveis, abraçamo-nos e relembramos o calor, a vida. Fagulhazinhas que chovem em nós. Dentes-de-leão que são poesia solta com um só sopro.

O mundo todo buscando em tato cobrir-se de carne e osso. E a gente em busca de um céu que seja mais leve que o grito. Mais quente que o próprio fogo. Mais vivo que a própria morte. Nós, tão envelhecidos.

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Escrevo enquanto sangro pela morte de 
Pollyana, Mariana, Alexsandro, Maurílio, e em especial a Gustavo (que conheci ainda criança). 
Que vieram ao mundo e, como fagulhas ou dentes-de-leão, deixaram-nos mais envelhecidos e imóveis. A vocês, com meu amor e dor.

Os cinco jovens morreram em cachoeira na região de São João Batista do Glória (MG) após tromba d’água