Nossa mania de buscar significado em tudo

Ou: O que o surrealismo nos ensina sobre nossa vida

Uma das mais famosas pinturas surrealistas. La persistencia de la memoria, do Salvador Dalí.

1.

De umas semanas pra cá, fui tomado por um interesse súbito por surrealismo. Aproveitando que já estava imerso nas narrativas de Thomas Pynchon e seus infodumps, fui me alimentando culturalmente de qualquer maluquice renomada. Aí você já sabe: foi David Lynch de cá, Campos de Carvalho de lá, Salvador Dalí.

E, no meio disso tudo, percebi como – pelo menos pra mim – é difícil aceitar que algo não tem significado. É quase impossível pensar que um quadro não quer passar uma mensagem específica, não quer criticar nada, não quer me dizer nada. E é provável que isso também aconteça contigo.

Ao ver um filme e ficar com um ponto de interrogação no final, você já deve ter corrido pra internet pra pesquisar uma análise do filme. Você quer ver o que o autor quis dizer com aquilo. Você quer entender o significado de cada cena.

E é um choque saber que nada daquilo tem significado – ou quase.

2.

O surrealismo foi um movimento artístico pautado no inconsciente. Foi fortemente baseado nas teorias psicanalíticas do Freudzão da massa. Por explorar a atividade do inconsciente, nada mais natural que obras ilógicas e sem sentido nenhum aparente.

Um dos mais influentes pintores surrealistas foi Salvador Dalí, que num belo dia se juntou com o diretor Buñuel pra criar o curta-metragem Um cão andaluz. O filme explora o inconsciente e os sonhos, como uma boa obra surrealista, e mostra uma mulher tendo seu olho cortado por uma navalha e cenas de formigas saindo da mão de um homem — a maluquice é nesse nível.

É difícil assistir ao filme sem buscar significados para ele. Uma crítica do filme publicada no Plano Crítico conta que, numa exposição do Salvador Dalí em que o filme era rodado em loop, as pessoas se aglomeravam para dar pitacos e interpretá-lo. Alguns sugeriam ligações entre uma cena e outra, mas nenhum deles descartava aquilo como pura e simples loucura. Alguns davam inclusive significado religioso ao curta. Nos comentários da postagem, uma moça publicou uma interpretação — ótima, aliás — sobre o filme que dizia que ele é sobre o papel da mulher na sociedade da época (1929).

O grande problema é que o filme surgiu de sonhos que Dalí e Buñuel tiveram. Eles queriam fazer cinema sem qualquer lógica e que se afastasse de qualquer interpretação racional, porque os sonhos não o são. Logo, qualquer interpretação vai passar LONGE do que os autores da obra queriam: um filme puramente maluco.

“Assim que você termina um filme as pessoas querem que você converse sobre ele. E, bem, o filme é a conversa.”

3.

Não que por ser baseada em sonhos e no inconsciente uma obra seja de fato desprovida de qualquer lógica. Nos filmes do David Lynch, diretor conhecido por suas temáticas surrealistas, encontramos muitos simbolismos – e narrativas que, apesar de não-lineares, fazem muito sentido. Mas seria esse sentido contido no filme? Lynch queria que as pessoas interpretassem suas obras dessa forma?

Difícil afirmar. Quem conhece o diretor sabe da postura que ele tem de não explicar seus filmes – e com razão. O argumento é de que o filme é completo, o filme se basta, não precisa de explicações. E acaba que logo você entende que não é sobre o que o autor quis dizer – é sobre o que você sentiu com o que ele disse. Não é bem sobre o significado daqueles cordões umbilicais ou das inúmeras cenas absurdas e sem sentido nenhum aparente que vemos em Eraserhead. É sobre o que sentimos ao vê-las.

As coisas só têm o significado que nós atribuímos a elas.

4.

Se você der uma googlada básica sobre o surrealismo no Brasil, vai ver que Walter Campos de Carvalho foi o único autor verdadeiramente surrealista em terras tupiniquins.

A lua vem da Ásia, a obra que inaugurou seu estilo (o próprio Campos de Carvalho preferia ignorar suas obras anteriores), conta as memórias de um homem que se chama Astrogildo – quando se chama, ele acrescenta —, mas que teve outros nomes. Conta histórias sobre suas diversas profissões em volta do planeta, tendo sido inclusive deputado.

No livro, diz morar em um hotel de luxo que logo desconfia ser um campo de concentração – que é, na verdade, um hospício, como podemos perceber.

Narrado como memórias, a escrita do Campos de Carvalho nos arranca risadas justamente porque aquilo ali não faz sentido algum – mesmo que o narrador nos convença muitas vezes de que faz.

O surrealismo ali beira o nonsense e buscar significados ocultos é pura perda de tempo, apesar de ter umas reflexões que fazem muito sentido. A frase que abre o livro já é o prenúncio do que vamos encontrar: “Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica”.

Lógica é o que nós buscamos em tudo, conscientemente ou não – e é o que falta à narrativa de Astrogildo.

5.

Perguntas sobre o sentido da vida nos acometem desde a infância – e cada filósofo arrumou uma forma de respondê-las. Nenhum deles respondeu de forma satisfatória.

Em uma esquete do filme O sentido da vida, do icônico e iconoclasta Monty Python, o grupo faz uma satirização direta dessa busca por uma ordem na bagunça com a qual lidamos ao longo da vida.

Esta se passa em um restaurante com um cardápio de assuntos. O assunto escolhido pelo casal que protagoniza a cena é filosofia. Ao perguntarem se filosofia é um esporte, totalmente ignorantes no assunto, o garçom responde que “não, é mais uma tentativa de construir uma hipótese viável para explicar o sentido da vida”.

Ainda sem compreender do que se tratava e sobre como conversar sobre isso, o cliente e o garçom têm o seguinte diálogo:

“Já se perguntou por que estamos aqui neste planeta?”, pergunta o garçom.

“Não”, responde o cliente, sorrindo.

“Já se perguntou sobre o que é isso tudo?”

“Não”, repete, com um ar de inocência boba.

A esquete mostra tanto a ignorância de certas pessoas no que se refere a assuntos envolvendo nossa existência quanto a falta de sentido de nos fazer essas perguntas, que no fim de tudo não fazem diferença alguma.

O próprio nome do grupo, Monty Python, não tem sentido algum, a exemplo do dadaísmo, que não significa nada. Então pode ser que a mensagem que fica seja a de que nossa vida não tem sentido. Mas e quando tudo parece provar o contrário?

6.

No filme Um homem sério, dos irmãos Coen, vemos algo do tipo. O longa brinca o tempo todo com coincidências.

Larry animado na sala de aula.

Logo no começo, Larry tem seu ouvido examinado, e Danny, seu filho, coloca fones de ouvido na sala de aula. Apesar da rima visual, essa coincidência não significa nada. Assim como nada significa a história contada a Larry pelo rabi, sobre o dentista judeu que encontra inscrições em hebraico nos dentes de um paciente gói. Assim como nada significam os dois acidentes de carro que acontecem simultaneamente no meio do filme.

O protagonista do longa, que é um professor universitário de matemática avançada, tenta encontrar ordem em todo lugar. Ele acredita que as consequências são resultados diretos de ações suas. E por que ele, um homem íntegro moralmente, sofre tanto no filme, passando pelo divórcio, afastamento dos filhos e difamações no trabalho?

Acontece que até o caos é (im)previsto na matemática. Apesar de nossas tentativas de dar ordem ao caos à nossa volta, só nos resta aceitar que muitas coisas não acontecem por um motivo nem fazem parte de um plano maior. Elas só acontecem.

7.

Uns meses atrás, estava eu no restaurante de um amigo meu em Foz do Iguaçu. Quando a noiva desse amigo passou pela porta de vidro do restaurante, esta instantaneamente se quebrou por completo (a porta, não a noiva dele).

Mais tarde, no mesmo dia, ficamos sabendo que ela estourou não porque estava danificada, mas porque a temperatura havia mudado de repente. Isso faz com que o vidro fique mais frágil e quebre, tendo ou não intervenção humana.

Aí eu parei pra pensar nisso. Eu durmo com a cabeça debaixo da janela de vidro do meu quarto. A qualquer momento esse vidro pode estourar e cair no meu rosto. Por quê? O que eu posso fazer pra impedir o vidro de quebrar? Nada. Ele só quebra e dane-se. (Na verdade, o que costuma estourar é vidro temperado, mas você entendeu meu ponto.)

No mesmo fim de semana uma das cadelas daqui de casa ficou quase inexplicavelmente paraplégica. E sim, houve uma série de fatores que desencadeou na perda de seus movimentos. Mas quem poderia prever que a falta de exercícios físicos de uma cadela hiperativa causaria isso? Eu não.

E resta aceitar que as coisas ao nosso redor são ao mesmo tempo aleatórias e consequências de acontecimentos anteriores, apesar de essas duas coisas parecerem irreconciliáveis. Buscar um sentido no acaso é inútil. As coisas não precisam ter um significado.

E você precisa parar de buscar a explicação para o final dos filmes que vê (e dos textos que lê no Medium).


Se você gostou do texto, deixe suas palminhas aqui. Se não gostou, pode responder me ofendendo e com falsas ameaças à minha integridade física.

Obrigado pelo seu tempo ❤️