Nossa sociedade doente em um passeio pelas ideias

Escrevo em primeira pessoa, pois preciso deixar claro uma coisa, não sou especialista me nada, nem me proponho ser. Minha formação é nas ciências sociais e tenho um pé na história, na economia, nas relações internacionais, no cinema, mas não em psicologia ou psiquiatra. Não falo nada com autoridade, somente reflito e faço um certo regurgito do que vem em mim. Também, busco na filosofia meus intérpretes do mundo, para construir meu argumento, vou realizar um voo por teorias profundas e complexas, vale a pena ver os livros dos autores que eu cito, pois estou utilizando-os em prol do meu argumento e não do deles.

Amarelo, vermelho, azul de Kandisnky

Uma sociedade disciplinar

Por muito tempo, falou-se na sociedade disciplinar, que nos é apresentada por Foucault. Trata-se de uma estrutura moderna, pós-iluminista, já na lógica produtivista típica ao capitalismo. Essa sociedade cria coesão através de instituições rígidas que disciplinam, para construir uma noção de produtividade, e enclausuram para exercer o controle.

Não é uma crítica ao capitalismo, é uma apresentação de um funcionamento que tem aspectos negativos, mas serviu-se para gerar coesão em sociedades complexas.

Funciona assim, o indivíduo nasce e vai para escola. Esta enclausura a criança e a disciplina em busca de preparar ela para ser produtiva. Dentro da escola, a criança é vigiada, aprende as regras da sociedade e os valores, que eram os do trabalho e da produção.

Após a escola, o indivíduo vai para a fábrica ou para a prisão. Em ambas, ele ficará enclausurado, portanto sob o controle de uma instituição. Na fábrica, o enclausuramento durará a maior parte do dia, mas ele retornará para casa. Lá, ele exerce a função principal dele na sociedade, ele produz. Na prisão, o indivíduo passa por um enclausuramento mais intenso e tende a não produzir, geralmente, vai aquele que não se adaptou ao modelo de sociedade e precisa ser reeducado e/ou punido.

Por fim, temos a igreja, o hospital e, de alguma maneira, o cemitério. Instituições que, de maneiras distintas, vão enclausurar o indivíduo na doença, nos rituais sociais, como a missa de domingo, e após a morte.

Uma sociedade do controle

O filho do homem de Magritte

Deleuze responde ao que Foucault apresenta, para ele, esse modelo muda com as mudanças da sociedade. As instituições tornam-se menos rígidas e o enclausuramento menos importante.

Com advento da cultura de massa, televisão, rádio, cinema, o controle vai começando a ser exercido de outra maneira. Ao invés de ser uma instituição, vai ser a própria cultura de massa que vai formar o indivíduo, desde pequeno, com os valores daquela sociedade.

A escola, o trabalho, tudo vai corroborar com esses valores que estarão sendo passados pela música, pelo cinema, pela televisão. O indivíduo passa a ser seu próprio algoz, vai querer garantir de si mesmo que realize o que é preciso dentro daquela sociedade. Ele não mais precisa estar enclausurado, o que torna essas instituições mais flexíveis, tomando menos o tempo na vida dos indivíduos.

O consumo sagrado

Prometeu enganou Zeus e trouxe o fogo aos humanos. Algo que era sagrado, o fogo, passou ter uso humano, portanto Prometeu profanou o fogo. Profanar é isso, tirar do sagrado e trazer aos humanos, para que usem.

Com o tempo, muito do sagrado foi profanado, mas nada é mais profanador que o capitalismo. O fato de precificar tudo, para que possam se tornar produtos, faz com que tudo ganhe uso. Mesmo, as revoluções burguesas ocorreram profanando o Estado, dando uso aos indivíduos. A democracia é um aspecto dessa profanação.

Agamben, que fala nisso, apresenta um capitalismo muito menos bonzinho do que parece, ao descrever. O ato de profanar tudo cria enormes ciclos de profanação e leva ao consumo. O consumo, para ele, leva a destruição do objeto e não ao uso. Dessa forma, o grande profanador é o improfanável. Pode parecer abstrato esse pensamento, mas, na realidade, é uma simples questão de perceber que, cada vez mais, há um sentimento de necessidade anterior à necessidade em si.

A sociedade do controle, de Deleuze, mostra a influencia da publicidade no controle. É a mesma publicidade que vai ter por lema criar necessidades para vender produtos. Ou seja, é na sociedade do controle que o uso perde vez para o consumo e o controle ocorre nesse valor introjetado na mente dos indivíduos.

Se na sociedade disciplinar o foco era a produção; na sociedade do controle, o foco é o consumo.

O cansaço

Angelus Novus de Klee

Atualmente, Byung-Chul Han nos apresenta, uma estrutura de sociedade onde a violência ocorre de dentro para fora, ou seja, é uma violência neural.

Funciona pelo controle interno exercido pela sociedade. Passa-se a ter um valor positivo do desempenho, da comunicação, da produção, esse valor se multiplica, a partir do momento que é o próprio indivíduo que emana ele. Esse modelo tende a ter o fim no próprio desgaste da capacidade do indivíduo.

Ao buscar a felicidade, busca-se, cada vez mais, a mais autêntica e perfeita felicidade. Ao buscar a produção, busca-se, cada vez mais, a mais inteligente, a menos nociva ao meio ambiente, a mais socialmente correta produção. Ao buscar a comunicação… bom, é só olhar para os digital influencers. Tudo é demais e o indivíduo, na maior parte, não dá conta de cumprir com tudo isso e com a demanda dele mesmo sobre ele mesmo. Disso, surge a violência neural.

Ansiedade, depressão, TDAH, TOC, border line, é claro que há um importante aspecto fisiológico que não pode ser negado; mas, em uma sociedade que se violenta tanto para dar conta uma excitação artificial incutida nele desde pequeno e que o torna menos sensível ao que, de fato, poderia ser algo excitante, é possível ver a relação dessas doenças com a violência sofrida pelo indivíduo.

Sem título (cabeça) de Basquiat

O humano

Não é possível fugir da internet e da sensação de ubiquidade que se tem com ela. Não é possível deixar de ser esse indivíduo imortal, que existe eternamente nos endereços virtuais. Não é possível deixar de ser um indivíduo pós-nada. Ainda mais, os rompimentos com valores modernos advindos da pós-modernidade, pós-colonialismo, pan-africanismo, queer, interseccionalismo, são essenciais para uma sociedade mais igualitária.

O que não dá é para estar sempre a procura da felicidade, da produtividade, da alta comunicabilidade. Não dá para ser o ser que é super, deve-se entender as próprias limitações, aceitar as tristezas, as angústias, os defeitos, as falhas. É preciso aprender a dizer não para si mesmo e para o mundo, reduzir as cobranças e as expectativas e compreender mais o presente sem tanto desespero. É preciso, inclusive, precisar menos, para que tudo possa ocorrer com mais naturalidade.

O ser humano é incrível e não será menos incrível se os indivíduos deixarem-se ser eles mesmos. Nisso, a individualidade deixa de ser consumo e volta a ser uso, profanando o grande profanador da nossa sociedade.


Alguns livros de referência para que sejam lidos na profundidade que falta nessa breve reflexão:

Em defesa da sociedade — Michel Foucault
Conversações — Giles Deleuze
Profanações — Giorgio Agamben
Sociedade do cansaço — Byung-Chul Han
Hominescências — Michel Serres