Nossas desgraças em comum.

Nossos sentimentos “produzem” pensamentos. Nossa mentalidade produz atitudes, hábitos.

Qual é o sentimento que fará com que nós, a humanidade, façamos um uso sábio da tecnologia?

É a tristeza.


A falta de referencial num mundo tão turbulento cria “párias sentimentais” (sem conexão afetiva, sem vínculo real).

Aqui, no artigo “Estamos obcecados pela felicidade?”, pontua-se que uma das doenças decorrentes do uso intensivo em tecnologia é o “vício em terapia”.

Existe um limite para a “patologização do cotidiano”?

Existe um limite para a psicologização da nossa “anormalidade” e dos nossas infelicidades?

Todos querem postar fotos das “vidas perfeitas” nas redes sociais.

Todos sofremos com a tal normose (a doença de querer ser normal).

E nessa ansiedade terrível de querer parecer “gente importante”, “gente feliz”, recorremos a variadas tipos de terapias, modelagem de mentalidade (o mindset), auto-ajuda e coach.

Tratamentos mais prolongados e um custo emocional cada vez maior.

Enfim:

  • Onde termina o dever nosso de aceitar a vida como ela é e onde começa a nossa responsabilização pelo nosso próprio sucesso (em qualquer aspecto da vida)?
  • Onde termina algum transtorno emocional grave (coisa que necessita de tratamento) e onde começa a normose?

Essa “normose” (a busca eterna por estabilidade, sucesso, felicidade e normalidade) instiga um uso cada vez mais viciante de tecnologias.

Existe cura?

E estamos cada vez mais pouco “conectados” com nossa real identidade, nossos afetos genuínos.

Sentimo-nos inadequados, “estranhos”, “párias”, “anormais”, “eternos fracassados”.

Quem me conhece, por exemplo, sabe que eu faço muito trabalho voluntário cristão.

Pessoas com um coração solidário não sofrem de normose. Solidariedade é um diferencial (uma anormalidade?) num mundo onde o egoísmo é o normal.

Bem, isso funciona na teoria.

Na prática, sou tão emocionalmente miserável como alguém normal.


Em dias recentes, cheguei a invejar uma moça que, aparentemente, conseguiu fazer mais sucesso do que eu no ramo do voluntariado.

O que mais me doía nessa inveja é que essa moça me chateava na adolescência por eu tirar notas ruins (mesmo amando estudar).

Assim é a vida no instagram.

Falar dos meus defeitos emocionais (assunto privado) é a minha forma de contribuir com um debate coletivo (a infelicidade “construída” por todos nós e o uso irresponsável das tecnologias).

O mundo só vai melhorar no dia em que nós reconhecermos que nem a bondade, nem a nossa boa índole e nem o nosso narcisismo do instagram ou terapias podem aliviar nossas consciências culpadas pelas nossas imperfeições intrínsecas.

Porque nada do que faremos será suficiente para compensar nossas tristezas secretas ou a sensação de ter uma vida fútil e vazia (sem méritos e sem importância).

Nossa tecnologia (Startups com foco no social) precisa estar à serviço de uma vida boa e digna (comodidade, conforto e real qualidade de vida).

Em últimos casos, se uma pessoa tiver acesso a tecnologia, educação digital, informações e um ecossistema que estimula o empreendedorismo sábio, ela própria poderá definir qual é o grau de infelicidade tolerável na vida dela.

E essa estabilidade emocional é a própria definição de felicidade.

O preço por um sorriso sincero é uma lágrima sua.

Breves notas de encerrando:

  • Sinto-me angustiado porque meus empreendimentos ainda estão “engatinhando”. Estou 5 anos na fase de ideação.
  • Se o pessoal do Ecossistema de Inovação de Blumenau (Santa Catarina) ler isso, saibam que é a minha confissão: Estou assumindo meu compromisso de persistir, apesar da insegurança e da sensação de “nascer para ser nada”.
  • Assumir a própria mediocridade e a própria infelicidade são passos para construir um recomeço.
  • Se existir uma pessoa que inveja minha vida (mesmo secretamente), gostaria de consolá-la e dizer que sou, também, ao meu modo, melancólico e sem expectativas de dias melhores.
  • Não sei o que será de nós, humanidade. Só peço esperança.
  • No final, queremos um amor recíproco e uma oportunidade de sorrir depois de um choro. Só.