Novos conceitos sobre velhos preceitos

O que há por trás do consumo de significados?

Frente de Libertação Animal; retratada no filme Okja (2017).

Quem nunca se deparou com aquela famigerada sentença em cada negócio: "um novo conceito em (insira aqui uma palavra chave)", que me permita lhe explicar de onde vem.

Não dá nem pra dizer que é novidade. Já é de praxe no mercado. Parece que de um tempo pra cá, estaremos sempre pensando em como transmitir conceitos. Por mais intangível que ele seja. Ou, que talvez ele nem exista. Seja com ideias ou frases que são completamente soltas durante o dia. Anotações, exemplos, histórias que muitas vezes são feitas de uma quase mentira. Mas que se ninguém está interpretando aquilo, desejamos logo que outro alguém enxergue além dos próprios olhos, como algo que ela gostaria de obter no momento. Talvez é ai que comprovamos que exista até mesmo um pré conceito. Mesmo que seja embutido inconscientemente, ou que criado pela própria pessoa (inevitavelmente, eu sei).

Mas o que afinal, explicaria a nossa mais recente busca pelo consumo de conceitos?

A mesmice predomina: aproximadamente 3.120.000 resultados para diferenciação nenhuma.

Pois assim se dá o desafio diário em trabalhar com conceitos. Muitas vezes, nossas narrativas visuais são criadas a partir de uma linha estética, que vai além daquela com a qual acostumamos ver.

Para ilustrar: imagine que existe um recorte de pessoas, que sei lá, por exemplo: assiste novela, jogos de futebol, comem feijão com arroz (sempre por cima), atravessam na faixa de pedestre e estão preocupadas com muitas outras coisas. Menos se existe determinado conceito no intervalinho da sua vida. Por outro lado, também existem muitas pessoas que estão acostumadas a ir todo dia 10 na fila da lotérica e falar sobre o mesmo assunto, sejam eles universais, como: política, meteorologia do achismo ou resultados do jogo (da megasena ou do curíntia). E seja em qualquer uma dessas duas amostras, acredite: também existem pessoas consumidoras de conceitos. Nessa hora, acabamos entrando em um verdadeiro devir (segundo a filosofia: processo de mudanças efetivas pelas quais todo ser passa). Nessa hora, que acabamos vendo que também frequentamos e buscamos sempre os mesmos lugares, em pequenas comunidades, usando certo tipo de roupa, não trocando a marca favorita do shampoo quando vemos uma nova embalagem, ou preferindo não interferir naquela área de segurança do nosso cotidiano. Um simples erro naquilo que já é tido como certo, você deve lembrar, pode custar caro. Menos quando estamos entediados demais. Aí vale arriscar novos preceitos.

Por isso, é possível que conceitos em qualquer artefato ou objeto, existam para que as pessoas possam se sentir mais confortáveis, com algo que, em princípio, não lhe pareça como uma possível ameaça. E convenhamos, é nesse balaio de hiperconsumo que nos metemos, que inclusive existem grupos que encaram a produção de imagem do mundo com uma certa passividade (sejam eles bens materiais ou não). Como no exemplo da comunicação visual em geral. Traduzido naquele padrão estético que encontramos na rua, em cada fachada de estabelecimento, em cada placa de sinalização. Em cada folheto que nem pegamos no semáforo e temos preguiça de ler. Em nossa rotina cercada de conteúdos que mais parecem uma agressão visual. Poluem tanto, que nos causam uma certa anestesia de informação (no sentido de não nos propiciar nenhuma experiência ou sensação legal). É algo que passa bem perto de uma normalidade. E sempre seguindo fórmulas.

É assim e está posto.

Mas em contrapartida, se repararmos, é justamente nessa pequena vontade de sair fora de uma cultura alinhada com nosso próprio costume, que os conceitos se desdobram com tranquilidade: procurados ou achados por uma avidez de estímulos (uma menção honrosa aqui ao hype, ao cool, da popularização do termo hipster ou em qualquer outra manifestação passível de ser contra cultura). Afinal, chega uma hora que ninguém quer mais, mais e mais do mesmo. E para cada tendência, existe uma contra tendência. Se foi assim desde o século XIS, por que não até hoje?

Por isso, independente daquilo que estejamos fazendo no momento, a grande busca é por transmitirmos qualquer que seja, um significado para quem nos consome. Um conceito que possa ser entendido pela pessoa, que de alguma forma, lhe trará identificação, assim como a nossa mais recente foto no feed do Instagram.

Também pudera. As formas de consumo nunca se tornaram tão representativas de nossa identidade. É possível percebê-la até como uma demonstração alternativa do luxo. Contudo, aqui não mais pela pura ostentação, ou do gozo da posse. Mas sim pelo privilégio de ter tempo, acesso e pensar um pouquinho antes de adquirir qualquer item supérfluo. Passando a fazer isso agora em busca, somente se houver a recompensa por significados. Desde então vem sendo assim, excetuando aqueles produtos já comoditizados (se bem que nem mesmo a pipoca escapa).

Se formos traduzir, essa tem sido a materialização do conceito, conferindo a ao neoconsumidor, um valor assinado não mais pelo aspecto físico em si, mas pela ideia que há por trás de cada concepção (como este produto foi pensado, com que propósito, como foi feito, quem o fez e porque estou comprando isso no final das contas?).

São tantos conceitos vigentes que foi possível até mesmo enlatá-lo em um único longa metragem. A empresária Lucy, personagem do filme Okja (Netflix) é uma grande alegoria sobre a ganância.
Afinal, movimentos que buscam desacelaração como slow fashion, slow food, slow medicine são: nossa última fuga frente ao consumismo ou uma resposta da indústria oportunista entrando em ação?

E conscientes ou não de tudo isso, é vida que segue. Mas uma vez já cansado dos mesmos rótulos, sempre chega aquela hora que queremos perceber melhor o nosso entorno, fora daquilo que estamos habituados. Dessa vez, sem maiores náuseas ou desconfortos. Do contrário, o intuito é continuar sempre com um propósito em mente: tensionar determinada cultura existente através do consumo.

Mesmo que para isso, seja preciso inventar algum tipo de novo conceito.