Nurse Jackie | Santa e viciada

Seriado tem final dúbio como pede a vida

Dualidade. Essa é a base que se constituí Jackie Peyton, interpretada por Edie Falco na série Nurse Jackie, que teve sua sétima e última temporada finalizada recentemente. Uma mulher que tem seus momentos brilhantes de humanidade contrastados com um deslize de caráter, muito impulsionado pelo seu vício em drogas.

Nurse Jackie nasceu de uma época pós crise econômica que muito refletiu na cultura popular. Foi um momento que nasceram grandes protagonistas masculinos, mas também conheceu-se melhor o poder feminino. Séries como The Good Wife, Enlightened e The Big C que, além de denotar o empoderamento feminino, partiram para mostrar mulheres sem qualquer perfil “feminista” enfrentando dilemas e crises. No universo de Nurse Jackie, as mulheres (enfermeiras e médicas) assumem uma função literal em manter a ordem, entretanto, precisam lidar com o caos da vida pessoal. De todas essas séries citadas, nenhuma protagonista conseguiu ser mais humana que Jackie Peyton.

Foram sete temporadas de dualidade. O roteiro sempre trabalhou muito bem a dúbia premissa sobre a função das ‘drogas’ na sociedade: elas são medicamentos, são entorpecentes, são viciantes. Elas curam, tratam e destroem. Se a dosagem for levemente modificada, tudo cai por terra. Jackie é uma enfermeira de um pequeno hospital chamado All Saints. O nome por si só já revela que a fé um dos expoentes que glorificam o ambiente de trabalho. Mas o mundo de Jackie era outro: na capela se drogava, enquanto na farmácia ela se prostituía por pílulas. No pronto socorro é que ela se santificava.

As duas primeiras temporadas de Nurse Jackie são extraordinárias. O vício em drogas é tratado como parte da complexidade humana e não é frescura. É uma válvula de escape para uma vida sem sentido, para o vazio existencialista. É uma doença narcisista. Mas o mote do seriado é o que faz um viciado para conseguir viver nas aparências, se encaixar de alguma forma. Ter sua vida, seu trabalho. A jornada de Jackie é triste. Lamentável. Absurda. A sensação é que ela nunca precisou daquilo para suportar as dores dos outros. O problema sempre foram suas dores, da alma.

E os viciados sempre mentem? A linha que separava a Santa Jackie e a sociopata Jackie era tão tênue que apenas quem vivia nesse mundo (do vício) sabia. Os “amigos” foram manipulados, usados, traídos por ela. Mas também foram amados. Nos episódios finais, quando todos esperavam sem muito entusiasmo a recuperação da enfermeira, ela até traficou para conseguir de volta seu mundo de mentiras, seu habitat natural.

E aí está a verdade sobre um viciado em mentiras. Longe da base, das peças que o alimentam, ele não é nada. A cena final, dúbia por sinal, revelou que enquanto todos estavam seguindo em frente, Jackie só queria a mesquinharia de sua vida. O falso controle, a amizade enganada, o amante apaixonado que preferiu a prisão do que denunciá-la. As verdades nocautearam a enfermeira como uma superdosagem. Sua intenção de se encaixar no mundo à sua maneira com todos em torno de si, falhou. Mas, claro! É uma ilusão. A realidade de Jackie foi ser vítima o tempo todo… de si mesma.

Nurse Jackie foi uma incrível série sobre uma crise. Não econômica. Mas uma crise de identidade de uma sociedade apática que vê nas drogas legalizadas uma oportunidade de construírem suas próprias ilusões, sua forma de encontrar uma maneira de viver, de se conformar. O problema é que saber dosar é tão complicado quanto separar realidade de overdose.