O abridor de letras e o navio da pluralidade

“Fale, fale mais” é o que diz a voz desesperadamente. Fale mais sobre o Brasil que vivemos e sobre cada uma de suas entranhas pouco conhecidas e visceralmente sentidas. Diga que você existe e que a escrita não morreu.

Mostre-me que você também deseja entrar na casa de cada um daqueles com quem cruza na rua, que espera com olhos aflitos para que lhe convidem para um café e depois de alguns minutos de inicial tensão falem sobre suas vidas nos linguajares que lhes são próprios.

Confesse para mim que sua alma vibra quando as primeiras palavras saem da boca do confidente e que você se agita para capturar cada minúsculo movimento, da maneira como move as mãos passando um dedo por cima do outro com as palmas se olhando, do tamanho dos dedos dos pés por cima das chinelas e o formato das unhas e a forma como mostra os dentes quando sorri. Ah, esta é a melhor coisa a se observar quando você está descobrindo alguém: a maneira como sorri.

Os dentes que faltam e os que em breve faltarão, a vivacidade dos lábios, a altura que alcança os cantos da boca, a largura da gengiva. Mas você disfarça. Olha para baixo, para o teto ou para onde pareça mais natural de se olhar. Sorri também, ainda que seu sorriso seja totalmente sem graça perto do dele. Diz algo, ainda que suas palavras soem inapropriadas naquele momento. Sem importância. Mas você fala para que a conversa não morra e para que ele continue. Observa freneticamente até que ele resolva se despedir.

Foi com olhos aflitos que conheci “O abridor de letras” (Ed. Record, 2017), premiado livro de contos do escritor brasileiro João Meirelles Filho. Foi pela necessidade de sentir o Brasil que desconheço que fui a casa de Dona Lica em uma noite chuvosa para pegar emprestado o livro que seria tema do Clube Sesc de Leitores na semana seguinte.

O primeiro desejo de alguém ávido para contar o Brasil é domar a linguagem. Como colocar o canto do mineiro, a doçura do acreano e o arrastado do pernambucano em rígidos traços de uma lapiseira? Como colocar gírias e gestos sem deixar de seguir o padrão politicamente correto da língua portuguesa? Como levar o leitor para o Brasil das palavras sem que ele se perca nas regionalidades?

“E, pra demonstrar o alarde que a consumia, pra divulgar-se mais, repetiu. Com força, falando alto e claro, carregando no ‘erre’ do presente, como uma metralhadora. Até me levantei da rede. Fui pensar com ela na porta da cozinha, só olhando-a de lado. Ela, igualmente parada, sem reação alguma. Respondeu-me com os olhos e os beiços.”

O abridor de letras” é um mergulho no linguajar paraense. Poraquês saltam de um lado para outro. Terra vira água. Água vira terra. Eras! Visagens assombram em distintos trechos dos contos. “Ó Seu Bico-seco, que diabo de bicho é este?”.“Do jeitinho que o cremulhão gosta!”.“É cobra criada, vampiragem!”.No rádio toca um bregão arretado. Axi!

Algumas sequências do livro se tornam difíceis de compreender. Os personagens e as vozes dos narradores se misturam em meio a expressões distantes ao leitor desacostumado com a linguagem regional utilizada. São muitas palavras novas para serem buscadas no dicionário e uma parte nele não será encontrada. E acredito que esta seja a ideia do autor: um choque de realidade para os que não vivem nesta nação vasta e rica de palavras. Para os que já viveram talvez fique o saudosismo.

“Ele, para não desfeitar o magotinho de gente, pediu uma ‘cença’ e terminou com um genérico ‘boas-noites gentes’”

Pessoalmente reconheço o intuito do autor de dilacerar um país enorme que extrapola as fronteiras do dicionário e que necessita de registro. E além de registro de uma escrita tocante que desperte em nós o sentimento de pertencimento. Sentir-se acariciado por búfalos, botos, peixes-boi, jacarés e sucuris. Ilhas-fantasmas. Vejo ainda a necessidade de deixar de lado, por ora, o Norte científico, estatístico, midiático para que tenhamos a capacidade de enxergar além dos dados as pessoas. Acredito na literatura como ferramenta.

“Adorava aquele boas-noites no plural. Sempre achou que as noites eram muitas e se sucediam à medida que as horas passavam.”

João Meirelles Filho abre as letras do navio da pluralidade.