O Álbum Mais Importante da História

Quando eu era pequeno, minha vó dizia que uma pessoa morria quando cumpria a missão que Deus deu para essa pessoa na Terra. Hoje, adulto e com perfil no LinkedIn, sei que minha missão é disseminar entre vocês um importante recado Dele.

O recado é: só vamos nos salvar quando reconhecermos “Load” como o melhor e mais importante álbum do Metallica.

Desculpa. Me corrijo. Deus e eu sabemos que "Load" transformou o mundo em que vivemos e por isso é o álbum mais importante da história. E também o melhor do Metallica.

Como todo messias que se preze, sei que serei chamado de louco. Tudo bem. Tenho argumentos capazes de convencer até os mais radicais fãs de "Master of Puppets" — e pessoas que gostam de músicas de 8 minutos são o pior tipo de fundamentalistas.

A maioria dos álbuns são considerados pela crítica ou por fãs como "importantes" por causa de sua influência percebida. São álbuns que criaram novos subgêneros musicais—o que é quase sempre controverso, assim como tentar entender quem inventou o avião—ou que impulsionaram subgêneros musicais a altitudes nunca antes alcançadas (ou seja, "Never Mind the Bollocks").

"Load" foi o primeiro e único álbum a acabar com um gênero musical.

À primeira vista isso pode até soar ruim. Mas não é. É genial. É algo como o Ibrahimovic fazer um gol tão sensacional e bizarro e inesperado, talvez até de barriga, que a partir de então ninguém nunca mais se importa com futebol.

Pois foi bem isso que aconteceu. Depois de "Load", nenhum álbum de metal gerou uma fração da atenção que "Load" recebeu. Alguns bons álbuns de metal talvez tenham sido lançados depois. Mas eu não ouvi, provavelmente nem você, porque A Obra Prima fez questão de encerrar a brincadeira e levar a bola pra casa.

Porque se você faz um álbum incrível, ele sempre pode ser superado daqui a um mês ou vinte anos. Se você destrói um gênero musical, você vira imortal.

E foi isso que o Metallica escolheu fazer. Vejamos.


Contexto histórico rápido. Em 1991, o Metallica lançou o Álbum Negro, assim chamado porque era um álbum sem nome e com uma capa preta com a ilustração de uma cobrinha cinzamuitoescuro impossível de ver devido às limitações das gráficas brasileiras no começo da década de 90.

O Álbum Negro continha boas músicas que ficaram extremamente famosas tipo "Enter Sandman" e outras que ficaram famosas por serem extremamente chatas tipo "Unforgiven". O álbum estreou em primeiro na Billboard e ficou um total de sete fucking anos nas paradas. É um dos 10 álbuns mais bem-sucedidos da história.

Naquela distante época pre-"Load", a vida dos fãs de Metallica era ir na Galeria do Rock com sua camiseta preta da sua segunda banda favorita (Slayer), comprar CDs e falar mal de qualquer banda cujo guitarrista não usasse ao menos três pedais de distorção.

Vou mudar de parágrafo e ligar o itálico porque isso é bem importante: se você curtia metal, era bom você se identificar como metaleiro e seguir todas as regras pertinentes (boa parte delas relacionadas a cabelo). Caso contrário, você corria o risco de ser chamado de poser ou, pior ainda, de eclético.

Daí veio o "Load".


Precisamos deixar claro que as primeiras seis músicas do "Load", na sequência, são a melhor sequência-de-seis-músicas de toda a discografia do Metallica e quem não concorda pode ir pro inferno.

Coloca aí "Ain't My B*tch" (asterisco deles) pra tocar e você vai ver que é exatamente como uma boa música de metal deve soar. Tem Lars Ulrich com uma bateria sem firula que faz você se sentir dirigindo um caminhão muito grande por Nebraska. Tem uma conversinha de vocal com guitarra no refrão que dá aquele arrepio gostoso nas costas.

É, basicamente, a média aritmética do que um computador muito esperto vai entender por “hard rock” depois de ouvir um milhão de músicas de hard rock. É uma ótima música. Ótima.

"Until It Sleeps", a primeira música de trabalho (sdds músicas de trabalho), tem uma estranheza e uma raivinha lenta que faz lembrar aquela vontade adolescente de gritar na cara da sua mãe que ela não te entende. Tudo isso num clipe super-artsy que se saísse hoje estaria em 9 de 10 referências apresentadas por publicitários para clientes que iam fazer cara de "será?".

Mas o importante dessas seis músicas é que dá pra ouvir tranquilamente hoje em dia e continua sendo bom e atual. Eu posso garantir, porque ouvi ontem e inclusive passei fazendo air drums sem querer na frente do Noname lotado. Tá longe de ser um "Youthanasia" que você põe pra tocar e pensa eita-que-eu-ouvia-essa-bosta?

E depois da sétima música? Ok, reconheço que o resto do álbum é uma merda e totalmente esquecível, tirando "Mama Said", que é uma música country muito importante pra que fosse feita a vontade de Deus.

O que ocorre é que quando saiu o "Load", os Metallicas foram acusados de serem vendidos e até mesmo ecléticos. Por colocar uma música country em álbum de metal e também por coisas mais graves tipo cortar o cabelo.

E foi aí, minhas ovelhinhas, que o contrabaixo desafinou.

O Metallica teve a ousadia de desrespeitar as regras do clubinho. Dizem que tiveram até a audácia de usar maquiagem com lápis de olho mas eu não entendia dessas coisas na época.

O fato é que, em 1996, o Metallica, no auge dos seus poderes, resolveu se reinventar, que é o tipo de coisa que faz com que o Radiohead lote estádios e resulta no Thom Yorke tendo feito muito mais sexo na vida do que eu que tenho os dois olhos no lugar.


A imprensa musical (sdds) imediatamente e corretamente decretou a morte do metal. Menos pelas primeiras músicas maravilhosas e outras muito ruins, mais pelos cortes de cabelo.

O fato é que o "Load" olhou pros metaleiros na Galeria do Rock, olhou pros caras do hip-hop que ficavam no subsolo da mesma Galeria e que a gente tinha medo, olhou pros forrozeiros no KVA, olhou pros punks no Aeroanta e falou assim: galera, não viaja.

E falou assim também: pessoal, vocês só têm 16 anos, não precisa seguir regras não. Você pode curtir metal e dançar forró, você pode tocar pandeiro e ouvir Offspring, pode tudo, tá tudo liberado.

E, por fim, inspirado por Deus, falou assim: moçada, não tem mais essa de tribo. Pode gostar de punk sem ser punk. Pode gostar de metal sem ser metaleiro. Pode gostar de pegar herpes sem ser chicleteiro.

"Load" mudou a porra do mundo porque, sério, o mundo sentiu a mensagem da La Pietà Em Forma de CD e desde então a coisa mais ridícula que tem é dizer que você é de uma tribo.

Nas semanas seguintes ao lançamento de "Load", metaleiros do mundo todo se olharam no espelho do banheiro, cortaram o cabelo, jogaram fora o Neutrox de dois litros, trocaram a camiseta preta por uma regata e foram tomar sol pela primeira vez em 12 anos.

Só porque o Metallica autorizou, hoje você vai na balada e dança quando toca Anitta. Só porque o Metallica autorizou, você pode namorar uma menina que curte Ryan Adams. Só porque o Metallica autorizou, não tem mais ninguém preso dentro de um clubinho.

(Tá, até tem, mas normalmente é o pessoal que tem menos de 14 anos e/ou uma galera muito zoada que se fossem seus amigos e você tivesse outros amigos, você não chamaria todo mundo pro mesmo churrasco pra não morrer de vergonha.)


O álbum foi lançado há 20 anos (comemorados esse mês), mas esperei esse tempo todo pra cumprir minha missão pra ver se vocês se mancavam sozinhos. Daí o Cezar, assistente de arte aqui da agência, disse anteontem que "Metallica é o álbum preto!!" e eu quase perdi a fé.

Mas, finalmente e resilientemente, estou aqui para transmitir a vontade divina usando o Medium. Se isso falhar, vou ter que tacar fogo no meu corpo ali na esteira rolante entre a Linha Verde e a Amarela.

Se você já ouviu "Load" mas não entendeu muito, ainda dá tempo de se salvar. Se você nunca ouviu “Load”—porque as profundas transformações do mundo ocasionadas por "Load" resultaram na desgraça do gênero musical de “Load”—nunca é tarde pra começar.

Basta abrir agora o Spotify e colocar "2 x 4" bem alto. E, pra garantir uma credencial VIP no Juízofinalpalooza, pode até compartilhar esse post. Deus agradece e eu vou poder morrer em paz.

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