Um texto estupidamente apaixonado

Raphael Valenti
Jul 21 · 4 min read
Foto por June Intharoek do Pexels

Para Fernando Pessoa, todas as cartas de amor são ridículas e não seriam cartas de amor se não fossem assim, ridículas. Mas nem só de cartas ridículas se vive o amor. Ele também é cheio de inúmeras outras pequenas coisas ridículas.

A gente costuma reconhecer mais os grandes atos de amor. Pedidos românticos de casamento, viagens surpresas. Mas pequenos gestos também são importantes. Talvez sejam até mais importantes, pois um relacionamento é feito de dia-a-dia. 24/7. Só que às vezes, deixamos de ver o amor nessas pequenas coisas justamente por serem, bem, pequenas.

E elas podem ser as mais pequenas e ridículas de todas. Mesmo. Uma vez, sabendo que a garota que eu ficava preferia refrigerante sem gás, eu comprei uma Coca 2L e fiquei chacoalhando por meia hora. Quando ela chegou, casualmente mencionei a Coca sem gás. Ela até tomou um pouco mas eram 2L, né? Fiquei com 1,5L de Coca sem gás e um sorriso no rosto.

Uma outra vez, em uma viagem de trabalho, ganhei vários post-its. Pra mim, não serviam pra nada, mas a garota que eu saia na época vivia dizendo que os post-its do trabalho dela acabavam rápido. Me deu um cinto minutos e enfiei todos os posts-its — quatro, de diversos tamanhos e cores — no bolso e saí da sala de reunião quase em câmera lenta, para eles não caírem do bolso e me denunciarem. O vôo de volta era tão longo que me esqueci. Só lembrei quando cheguei em casa, abri a mala e meu amigo perguntou porque eu tinha quatro blocos de post-its lá dentro.

Essa não foi nem a primeira fez que furtei por amor. Em uma disputa besta, roubei um saleiro de uma cervejaria do Itaim. Teria sido o plano perfeito se eu não tivesse esquecido a prova do crime no carro da minha mãe. Já usei uma caneta pra fazer um chapéu na figura pública da nota de 20 Bath da Tailândia — o que configura crime no país— e enquadrei pra dar de presente. E isso no 1º encontro. Falando em enquadrar, já percorri a Vila Madalena inteira em busca de um lugar que enquadrasse uma foto mal impressa do DJ Kitty — um meme da internet que é um gato DJ, longa história.

E essas são só as minhas histórias. Todo mundo tem as suas. Um amigo, por exemplo, sempre pedia 2 pratos do mesmo fast food, pós balada. Um pra ele, e um pra namorada encontrar no dia seguinte, nas vezes em que ela não saía com a gente. No colégio, outro amigo passou um mês aprendendo como fazer origami só pra chamar a menina da carteira do lado pra sair. Uma amiga já roubou Listerine em miniatura do banheiro de um restaurante chique no Jardins. Outro, prendeu um bilhete na coleira do cachorro que ele sabia ser da garota que gostava. Fofo, né? Isso até outro cachorro aparecer e derrubar o bilhete.

Você já deve ter feito coisas assim. Gestos, carinhos, presentes tão ou mais ridículos. Pequenas histórias que a gente conta rindo, não só porque são engraçadas mas porque trazem um sorriso no rosto, por causa daquele momento besta e sincero que a gente viveu. Vale tudo no amor e na guerra, né? Por que não valeria ser ridículo? Afinal, só é ridículo quem ama.

Uma última história. Certa vez, no meio do jantar de aniversário do meu pai, resolvi correr atrás da garota que gostava. Engoli a pizza, dei um abraço de parabéns e fui embora. Eram 11 da noite quando eu cheguei na casa dela, violão em punho. Fiz a garota descer e me ouvir tocar. Quer dizer, ela e o porteiro, que até pareceu aprovar a performance, mas por sorte eu acabei no time do Carlinhos Brown.

Ajayô!

Perdão, sempre quis usar essa expressão fora de contexto. Voltando.

Depois do show, quando o Uber encostou na frente do meu prédio e eu saí segurando o violão, o motorista não se aguentou.

“Olha, desculpa se eu estiver incomodando, mas posso fazer uma pergunta? Por que o senhor tava com um violão de madrugada no meio de Perdizes?”

Parei um pouco pra pensar e como não tinha nada a perder mesmo, fui sincero:

“Bom, eu resolvi ir até a casa da garota que eu amo, tocar a nossa música favorita e pedir pra gente voltar.”

O motorista ficou pensativo. Achando que faltava uma frase de despedida antes de fechar a porta na cara dele, falei:

“Eu sei. Meio ridículo, não?”

O motorista soltou uma risada e num momento de sabedoria reservado apenas à motoristas de Uber na madrugada, respondeu:

“Bom, acho que se não fosse ridículo, não seria amor, não é mesmo? Vou dar 5 estrelas aqui. Boa sorte e boa noite”.

Entrei em casa rindo. Sempre achei que se um dia Fernando Pessoa voltasse, voltaria num carro melhor.

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Raphael Valenti

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pé frio, coração quente @naoevoce_soueu

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