O amor no desastre (ou o amor após o desastre)

Eu sei. Amor e desastre sendo usados assim, tão juntos. Olhando desse jeito eu pareço sensacionalista. Mas dou minha palavra que não é minha intenção e, muito menos, meu propósito. Para você entender o caminho que levei até chegar ao título, vou contar rapidinho duas histórias (e como recompensa, deixo uma dica).

História 1

Era uma madrugada de 11 de março de 2011. Às 2h46 (horário de Brasília), enquanto os insones gritavam no Facebook “sono, cadê você?”, o outro lado do mundo já tinha passado do horário do almoço. Era 14h26 no Japão.

Tokyo trabalhava freneticamente — buzinas, carros, barulho — até que um terremoto de magnitude 7,4 atingiu a capital. Na costa nordeste do país o abalo sísmico foi maior: 8,9 pontos na escala Richter, o quinto mais forte já registrado na história. Deu-se início ao efeito dominó: terremoto, tsunami e explosão.

Poucas pessoas haviam ouvido falar de Fukushima até aquele momento. O tsunami que varrera as províncias de Iwate e Miyagi atingiu seu ápice na usina de Daiichi (Fukushima). Várias explosões ocorreram nos reatores e liberaram uma grande quantidade de Césio. Para você ter uma ideia da dimensão, a quantidade liberada foi 168 vezes pior do que aquela liberada pela bomba de Hiroshima. Cerca de 20 mil pessoas foram mortas pela tragédia.

História 2

Era uma noite de 25 de abril de 1986. Às 19h23 (horário de Brasília), enquanto brasileiros iniciavam suas noites, alguns lugares do outro lado do oceano despontavam para as primeiras horas do dia seguinte. Era 1h23 na Ucrânia, 26 de abril.

A capital Kiev adormecia. A 100 km dali, uma série de explosões destruiu o reator 4 da usina nuclear de Tchernobil. O céu virou uma cortina de fumaça carregada por uma quantidade imensa de Césio-135 — elemento químico altamente radioativo. Para você ter uma ideia da dimensão, o nível de radiação liberado por Tchernobil foi 400 vezes maior do que o nível das bombas de Hiroshima e Nagasaki.

A fumaça dissipou-se inicialmente pelo leste da Europa, mas o país mais atingido foi a Bielorrússia, para onde o vento carregou 70% da radiação. Só para você entender o tom da tragédia tanto quanto eu: durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas destruíram 619 aldeias no país. Depois de Tchernobil, 485 aldeias foram dizimadas. Na guerra, a mortalidade foi de um para cada quatro bielorrussos. Ainda hoje, um em cada cinco vive em território contaminado.

A-i-n-d-a h-o-j-e

Antes de Tchernobil havia 82 casos de doenças oncológicas para cada 100 mil habitantes. Hoje, em 100 mil habitantes 6 mil estão doentes. Falo de hoje, tempos atuais, conjugação presente.

(Pausa para respirar)

Estas informações estão no livro vencedor do prêmio Nobel de Literatura, “Vozes de Tchernóbil”, da jornalista ucraniana Svetlana Aleksiévitch. Um livro que, além da excelência do prêmio, merece ser lido em homenagem às pessoas que tiveram a coragem de expor uma ferida não cicatrizada. Falar da dor não é fácil.

Como a própria autora explica, a obra não é sobre o evento em si, mas sobre o mundo de Tchernobil. É um livro que demorou 20 anos para poder chegar aí, na sua mão. A voz não é a de Svetlana. Quem fala são os sobreviventes da tragédia. São histórias reais, de pessoas reais, que têm os mesmos sentimentos que eu e você. São histórias que a História não conta. (taí minha dica)

Por causa da tragédia, na Bielorrússia a cada ano aumentam os números de deficientes mentais, doentes com câncer — e por aí vai -, de acordo com Svetlana. Cinco anos depois de Fukushima, ainda há mais de 20 mil pessoas morando de maneira improvisada. A radiação continua elevada em alguns pontos da região da tragédia e diversos estudos já relataram radiação na costa oeste americana.

Hoje

25 anos separam Tchernobil de Fukushima. As causas das explosões foram diferentes, mas a intensidade foi a mesma: ambas foram classificadas com o nível 7 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares (classificação máxima).

Além da intensidade, em comum também está a invisibilidade da gravidade. Tanto em Tchernobil quanto em Fukushima, o maior perigo não se vê. Radiação não tem cor, mas deixa marcas. E rastros.

No início de julho Svetlana esteve no Brasil para participar da FLIP (Festival Literário Internacional de Paraty). No evento, ela contou que cansou de escrever sobre guerras. Seu próximo livro será sobre o amor, porque ela aprendeu que “só o amor cura” (palavras da própria).

Dá para entender sua decisão, afinal, a Nobel de Literatura já escreveu sobre vários momentos devastadores para seu país, como Segunda Guerra Mundial, Guerra do Afeganistão e Queda da União Soviética.

E se ela, depois de passar décadas relatando histórias de dor e sofrimento consegue enxergar o poder do amor, quem sou eu para falar o contrário?

Aliás, pensando aqui enquanto escrevo este texto, talvez foi justamente depois de ir a fundo em cada história, depois de ter extraído toda a dor, que Svetlana percebeu mais nitidamente que o amor é um elo em comum escancarado em cada voz, inclusive na minha e na sua.

Sente a tragédia quem sente amor, e talvez seja tudo uma simples matemática. Por trás de cada tragédia, há o amor que luta, que vive, sobrevive, sente saudade, espera. Há também o amor por empatia.

Indo um pouco mais além, se você me permitir devanear, talvez haja um momento em que os dois sentimentos se mesclam em meio ao caos. Como fala no livro a esposa de um bombeiro falecido: “Não sei do que falar… Da morte ou do amor? Ou é a mesma coisa? Do que?”…. Pode ser que no final, tudo seja a mesma coisa.

E como tudo é uma questão de perspectiva, com o livro de Svetlana e com as histórias sobre Fukushima que li para escrever esse texto, cheguei a uma única conclusão:

Se a dor não vai embora, o amor também não arreda o pé.