O botão de autodestruição do Facebook

Quando uma escorregada de polegar transforma o que seria um singelo passeio pela timeline num verdadeiro suicídio social

Lucas Rodrigues
Feb 24, 2017 · 4 min read
Pinterest

Se você também controla um avatar no ambiente virtual das redes sociais, conhece bem essa sensação. É final de semana de manhã, e enquanto dono ou dona de uma mente que não consegue aproveitar as delícias do ócio, você decide logar no seu perfil e atualizar os últimos passos daquela paquerinha online — a famosa “stalkeada”. Acontece que foto vai, foto vem, uma inocente escorregada de polegar transforma o que seria um singelo passeio pela timeline num verdadeiro suicídio social: você curtiu a publicação do “crush”.

Na teoria, aquele thumbs up não passou de apenas uma em um turbilhão de curtidas que as pessoas distribuem todos os dias. Mas só quem já passou por essa situação sabe que, na prática, a impressão é a de ter puxado a alavanca que dispara uma bomba de centenas de megatons, que dizima metade da vida na Terra, começando pela sua. Uma tortinha de exagero, é claro!

Mas se na real estamos fazendo tempestade em copo d’água, por que diabos agimos, nestes casos, como se o mundo tivesse acabado? Pelo simples motivo de que, nos nossos tempos, somos educados a acreditar que demonstrar qualquer tipo de interesse em um relacionamento é uma espécie de crime passível de prisão sem fiança.

Pinterest

Na idade das pedras, diz a lenda que o processo de conquista passava pela etapa de uma incômoda paulada na cabeça. Porém, os anos se passaram, trouxeram, como traço evolutivo, um pouco mais de bom senso, e as cantadas se transformaram em serenatas, cartinhas de amor, flores e bombons, e até em indiretas via nicknames do MSN. Hoje, no entanto, a mera possibilidade de ser pego no ato de admiração do pretendente já é motivo para crises de pânico e pedidos sinceros para que a função do “Ctrl+Z” se estenda a todas as nossas ações na internet. Não é um pouco bizarro?

Confesso que, particularmente, ajo de forma bem estranha quando estou interessado em alguém. Trato mal, ignoro, evito contato visual e tento manter a maior distância possível. Sim, é bem escroto. Mas tenho pra mim que todas essas reações são a forma que encontrei para, de algum jeito, preservar um nível saudável de autoestima e criar uma espécie de casulinho particular. Se você me perguntar se a tática algum dia já funcionou, eu sou obrigado a responder: obviamente que não!

E neste abrigo onde a gente passa o tempo vendo séries e resmungando em 140 caracteres, começamos a criar uma teia de suposições. Como, por exemplo, a de que não vale a pena investir em nenhum tipo de relação, porque temos uma infinidade de possibilidades à distância de um toque. Ou até mesmo a ilusão de que, por conta deste cardápio variado, não temos a permissão de se comprometer emocionalmente com ninguém, pois o prato principal pode sempre ser servido a seguir.

Pinterest

Como vivemos nesta posição de cautela, evitamos também nos expor a todo custo. Para isso, nos policiamos para não perguntar demais, não ser muito curioso em relação à vida do outro, não se empolgar exageradamente, não querer ver de novo depois do primeiro encontro, não esbarrar no botão “curtir” em suas publicações mais antigas, enfim. Nada que denuncie uma possível vontade de superar o nosso casulo e sair batendo asas.

Admito que essas atitudes fazem de se relacionar uma das tarefas mais complicadas entre todas as dinâmicas digitais. Mais difícil e mais delicada ainda do que uma partida de Jenga, aquele jogo em que a gente precisa remover as pecinhas de uma torre sem prejudicar a sua estrutura, sabe? Com a diferença de que, nesta competição cheia de dedos, ganha quem demorar mais tempo para responder às mensagens nos aplicativos.

Acontece que nesta disputa só existem perdedores. E já que é pra perder mesmo, fica aqui um conselho que eu repito a mim mesmo diariamente: perca!

Perca a vergonha de ser taxado de inconveniente apenas por demonstrar um tiquinho de interesse. Fazer parte da “geração whatever” pode não te ajudar a construir novos laços. Perca o medo de apertar o botão de autodestruição do Facebook. Se a outra pessoa se assustou apenas porque você resolveu conhecer um pedaço da história registrada em sua timeline, significa que não deve valer tanto assim o esforço de tentar ser personagem dos próximos capítulos.

Um polegar, uma leve pressão e BUM!

Marilyn Monroe em cena de The Prince and the Showgirl (1957)

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Lucas Rodrigues

Written by

Jornalista, caçador de músicas e sommelier de séries. Newsletter: http://tinyletter.com/noepisodioanterior

NEW ORDER

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade