O Brasil não tem um Obama, mas quase teve.

O lado humano da política

Me envolvi na minha primeira campanha política digital em 2010 — já fazia campanha off desde os 17 anos, e foi um novo, e grande, desafio. Desde então, toda eleição, não importa onde eu esteja, quem seja o candidato ou o tamanho da campanha me aparece um especialista em "campanha de Obama". Sempre há um trambiqueiro que distribuiu panfleto durante a maior campanha eleitoral do planeta e agora circula nos países de terceiro mundo se dizendo um guru digital que atuou na campanha para presidência dos EUA, engabelando alguns otários. E, acreditem, fecham negócio e levam 1 ou 2 milhões de Reais pra falar bobagem e fingirem que entendem do assunto. Na última campanha Silvio Meira desmascarou um durante a apresentação da proposta de trabalho do sujeito (qualquer dia desses eu conto). É como diz meu amigo Dimas Rohn, todo dia um esperto e um trouxa saem de casa, se os dois se encontram, sai negócio.

Mesmo que o cara fosse realmente um dos profissionais que de fato atuaram na campanha é preciso avaliar com muito carinho a suposta capacidade de transpor o formato usado lá na integra. Eu poderia dar uma série de motivos pra isso, seria uma lista extensa, mas vou focar no principal: NOS FALTA O PRODUTO. NOS FALTA O OBAMA!

É meio óbvio, eu sei, mas é uma verdade ignorada por muitos. Tentar adequar estratégias da campanha do Obama pro Serra, como aconteceu em 2010, sem levar em conta as diferenças da persona em questão é de uma falta de consciência estratégica sem tamanho.

Mas nós quase tivemos o nosso Obama. Quase. Infelizmente uma fatalidade impediu o cara — e encho a boca pra dizer O CARA — de mostrar pro Brasil que política se faz com humildade, diálogo, paixão por pessoas e vontade de servir. Eu estava na Secretaria da Aviação Civil quando soube de um acidente em Santos. Uma aeronave ou helicóptero havia caído, não havia certeza. Na hora fiz a ligação com as informações internas que tinha sobre o "sumiço" do avião, na hora eu soube. Merda. Tomara que esteja errado. Não estava. Coube a mim ligar pra equipe e confirmar o pior, logo depois acompanhar a SAC informar à presidência e aos jornalistas. Era um avião. Eduardo Campos e a sua equipe estavam a bordo. "Eden, diz que não era, diz que não era". Era.

A equipe de campanha ficou arrasada. O time que operou comigo até hoje sente (não apenas por termos perdido bons amigos no acidente), mas por termos perdido um pouco de esperança em um país melhor. Rob Gordon, que redigia boa parte dos textos pros canais digitais de Eduardo, passou dias com a agenda que escrevia naquela fatídica manhã aberta, sem conseguir fechar o arquivo, sem conseguir fazer a ficha cair. Mas porque nós, esclarecidos, "mercenários" e "apolíticos" sentimos tanto? Não era apenas mais um job? Não, não era.

Eduardo tinha essa pegada humana que Obama tem. Goste ou não de Obama, vejo muita gente elogiando a postura dele, a ousadia na comunicação, a capacidade se conectar com as pessoas. O time dele é bom, lógico, mas o produto também é. Eduardo era admirado mesmo pelos opositores. Até quem o via como adversário tinha a clareza e sensibilidade de enxergar além da disputa. O lado humano era claro naquela figura de olhos cristalinos. A postura, sempre tranquilo e altivo sem nunca parecer arrogante, a disposição para ouvir, conversar e contar causos, a capacidade de se conectar, de calçar o sapato alheio. Era, acreditem, admirável.

Durante uma das gravações para o PSB Eduardo sentou-se no pé de uma árvore frondosa. Ao seu redor sentaram-se vários figurantes, a maior parte deles fãs confesso do então governador (sim, ele tinha essa energia) e um gostoso bate-papo começou. Sem perceber a câmera aberta, esse registro existe (eu estou tentando encontrar pra publicar), Eduardo, ou Dudu, como todos o chamavam, contou uma breve história, rindo muito, que talvez faça vocês entenderem o porquê de eu acreditar que havia ali a humanidade que nossa política precisa. Vou tentar transcrever da melhor forma que minha memória permite.

Dudu confidenciou que as vezes, durante o fim de semana, pegava a bicicleta pra dar um passeio com os filhos. Era a hora de curtir um pouco mais a família — e ele sempre foi muito apegado aos filhos e a esposa, porém, como relatou, era muito difícil abandonar o lado "governador". Assim, espertamente, aproveitava pra, pedalando mesmo, passar por algumas obras em companhia das crianças, verificando seu andamento. Era pai e gestor, ali, em um dia de descanso.

Em uma dessas vezes parou em frente a uma obra e acenou para o vigia, para que o mesmo abrisse o portão. Estando de boné e óculos escuro não foi reconhecido.

Depois de perceber aquele sujeito de bicicleta acenando, acompanhado de umas crianças, o vigia acenou de volta, fazendo com a mão aquele gesto comum de “vai embora”. Rindo, Eduardo tirou o boné. De nada adiantou. Recebeu o mesmo sinal. Então tirou o óculos. Os olhos claros, sua assinatura indelével, foram de pronto reconhecidos.

Em um misto de apreensão e surpresa, tendo identificado seu governador, o vigia correu para abrir o portão enquanto tentava explicar suas tentativa de “dispensar” o chefe. Nervoso, pediu desculpas, certamente com medo de um belo esporro. Foi recebido com um grande sorriso de compreensão por parte do governador, que apertou sua mão e divertiu-se com a situação. Ambos ganharam uma história pra contar.

Eduardo era assim, gente.

Se lhe faltou ousadia na comunicação — ele estava mergulhando, e feliz, nesse universo digital que permitia ter um diálogo tão próximo da população (sua página do Facebook possuía um engajamento real impressionante, muito maior que a de Aécio ou Dilma, por exemplo) — lhe sobrava vontade de se adaptar a esse novo mundo e estabelecer uma nova dinâmica de relacionamento com o brasileiro. Eu não tinha dúvidas de que logo veríamos, de sua parte, ações tão geniais quanto vemos do Barrack (que intimidade, hein?)

O imponderável levou nosso Obama.

E um ano após o acidente, me pego pensando em como as coisas seriam diferentes e triste por aqueles que perdemos. Espero que estejam em paz Dudu, Severo, Lyra, Percol e Pedrinho, além do piloto e co-piloto e suas famílias.

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