Giovanna Diniz
Jun 27 · 10 min read

— e como isso afeta tanto homens quanto mulheres.

“Onde tais homens amam eles não têm desejo, e onde eles desejam, eles não podem amar.”

Essa é basicamente a definição do complexo Madonna/Prostituta, cunhado por Sigmund Freud em meados de 1912, em sua publicação “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor”.

Segundo Freud, os homens (e mulheres*) codificam as mulheres com quem se relacionam em dois campos: as “Madonas” intocáveis e as “prostitutas” rebaixadas.

As moças boas — as Madonas, (do italiano Madonna, em português “Nossa Senhora”) — são retratadas como seres virtuosos, inocentes e virgens, com corações puros, sempre dispostas a lhe ouvir e com tendência natural a serem submissas, incapazes de fazer mal a alguém — como nossas mães. As garotas más — as prostitutas — são o oposto desses requisitos: retratadas como seres sexualmente vorazes, indiscriminadas e agressivas; são baixas e sujas como os homens.

Ambas constituem-se assim como objetos típicos do desejo masculino. Esse pensamento — embora largamente difundido, a ponto de não ser novidade para quase ninguém — é a base desse artigo. E é a partir desse ponto que começarei a trabalhar.

*Às vezes esquecemos que as mulheres são criadas na mesma sociedade em que os homens são observados ou escritos sobre. As mulheres podem, como resultado, ter um sistema de crenças similar aos homens sobre como elas devem se comportar ou serem tratadas.

Desde pequenas, as meninas são educadas aos moldes de um severo manual social de boas maneiras: caso fugissem a qualquer regra, deixariam de ser uma Madona e teriam suas reputações marcadas por um longo período de tempo, senão para sempre. Pois uma vez prostituta, sempre prostituta.

“Certamente, essa não é pura como a minha mãe.”

A sexualidade humana é determinada em grande parte por roteiros prescritos culturalmente ou modelos de comportamento. Esses roteiros normativos de gênero são tipicamente heterossexuais, em que os homens são representados como sexualmente ativos e praticantes do sexo não relacional. Por outro lado, as mulheres são descritas como sexualmente passivas e apegadas emocionalmente, e em busca de sexo relacional.

Desde crianças estamos acostumadas (os) a ouvir meninos comentando que, na vida adulta, “é preciso separar as mulheres para casar’ e as ‘para comer’”.

Os homens — especialmente os que têm pouca ou nenhuma experiência em relacionamentos sexuais — muitas vezes têm dificuldade com o conceito de que as mulheres também são seres sexuais. Ou, nesse caso, que as mulheres gostem — ou até queiram — sexo tanto quanto os homens.

A crença de que as mulheres não são seres sexuais — ou que apenas certas mulheres são — leva à dificuldade não apenas de se relacionar com suas possíveis namoradas e mulheres em um nível sexual, mas pode dificultar que os homens saibam quando ou como ‘se relacionar’ sexualmente.

Esses homens podem ser intimidados pelo fato de que ela pode ser mais experiente sexualmente do que ele, fazendo-o sentir como se ele fosse o parceiro inferior no relacionamento.

Outros homens têm dificuldade em se relacionar com uma mulher para quem a sexualidade é parte integrante de sua personalidade. A ideia de que os homens querem “uma dama na rua e uma prostituta no quarto” brota dessa dicotomia. A mulher sexual — a prostituta — é só para ele, e a mulher não deve dar nenhuma pista de que esse lado sexual existe fora de seu controle imediato. A implicação por trás é a de que quanto mais sexualmente ativa é uma mulher, menos valor ela tem como ser humano.

“Não consigo pensar nela dessa maneira”, dizem eles. “Ela é a mãe dos meus filhos!

Como a sexualidade saudável é sublimada, ela é redirecionada para o sigilo e degradação envolvidos na pornografia, onde o conceito de prostituta é externamente desprezado e particularmente desejado.

Essa dicotomia pode contribuir para muitos conflitos conjugais, em que os homens geralmente buscam manter a imagem de sua esposa como Madona, mas podem procurar a prostituta ‘fora de casa’ para alcançar idealizações opostas que são difíceis de projetar sobre a mesma pessoa.

Freud argumenta que a razão disso vem do berço: traumas de infância relacionados a agressões, ausência materna/paterna, brigas familiares, abusos sexuais ou problemas não resolvidos e assim por diante, geram frustrações a longo prazo e acabam acarretando em relacionamentos fracassados e certa repulsa a comportamentos femininos, até chegar no desprezo da figura da mulher: a fusão carnificada da Madonna/Prostituta. Resumindo essa tese, tais comportamentos acabam resultando num ciclo vicioso de violência. A raiz da misoginia, talvez?

Richard Tuch reforçou esse conceito em meados de 2010:

“Essa teoria baseia-se não na ansiedade de castração com base edipiana, mas no ódio primário das mulheres pelo homem, estimulado pela sensação da criança de que ele sofrera uma frustração intolerável e/ou ferimentos nas mãos de sua mãe. De acordo com essa teoria, na idade adulta, o menino que virou homem busca vingar esses maus tratos através de ataques sádicos contra mulheres que são substitutas da mãe.”

O conceito de humilhação — atacar ou insultar uma mulher por ser um ser sexual — é um perfeito exemplo do complexo na prática.

Como uma mulher não segue o papel da sexualidade contida que a cultura estabeleceu para ela (o caminho da Madona), ela deve ser ridicularizada e envergonhada, sendo a culpa do tratamento que ela recebe algo inteiramente dela. Se ela fosse apropriada, não estaria trazendo isso para si mesma. Isso te lembra algo?

“The Madonna of Humility With the Temptation of Eve”, por Olivuccio di Ciccarello, c. 1400.

Por mais que a prostituta represente o medo da sexualidade desenfreada, a Madona é igualmente paternalista e insulta a mulher. Ao colocar a Madona no pedestal da santidade e pureza, ela se torna algo para ser “protegido”. Assim como a meretriz é para ser punida, a Madona deve ser preservada e adorada. Sua personalidade é desconsiderada.

Em seu livro “Female Chauvinist Pigs: Women and the Rise of Raunch Culture (2005; sem tradução para o português), a jornalista Ariel Levy reforça esse ponto, afirmando que uma sociedade altamente sexualizada estimula que as mulheres sejam objetificadas, objetificam umas às outras e são encorajadas a se objetivar.

Essa dicotomia foi sendo difundida em larga escala desde o início dos tempos, antes de Freud começar a ter pensamentos aleatórios sobre charutos e ver pênis em toda parte: a divisão da mulher não sexual e da mulher como ser sexual aparece em todos os lugares que você possa imaginar.

A literatura e o cinema, por exemplo, estão repletas de mulheres sexuais sendo a razão da queda dos homens (Le Morte d’Arthur, The Fairy Queen) e as mulheres puras como a representação da vida “adequada” (The Pleasure Garden, Who’s That Knocking at My Door?). São as mulheres — sendo elas ‘puras’ ou não — as culpadas por seus suicídios (A Carne, Os Sofrimentos do Jovem Werther), e vítimas de suas paranóias viris (Dom Casmurro). São as meninas, mini prostitutas sob sua ótica (Lolita, American Beauty) e ‘eternas’ Madonas em outra (Rocky, Sunnyside).

Embora seja errado dizer que o complexo Madonna/Prostituta influenciou o cinema, os filmes clássicos em particular refletiram a visão patriarcal e conservadora das mulheres; a pressão impossível imposta às elas para, de algum modo, desempenhar paradoxalmente os dois papéis.

Em Metropolis (1927) temos um exemplo concreto desse modo.

Maria ‘má’ é retratada como o demônio em forma de gente (ou robô), sendo uma alusão a figura da Prostituta da Babilônia: subversiva, sexualmente lasciva e egoísta.

Maria ‘boa’, em clara alusão à mãe de Cristo, possui aspecto puro e quase virginal. É romântica e altruísta, e jamais faria mal a ninguém. — como nossas mães.

É interessante lembrar que o filme sofreu censura e boicotes na época, por causa de sua forte mensagem religiosa (entre outros fatores): com um corte de cerca de 104 min de gravação, uma cópia do rolo original só seria achada na Argentina, em 2008.

Maria ‘boa’ evoca luz, enquanto a ‘má’ o emana: duas cenas onde Brigitte Helm realçam o ápice de ambas as personagens.
Cena em que Maria ‘má’ encarna a figura da Prostituta.

Em tese, os homens são freqüentemente retratados como estando absolutamente à mercê de seus próprios desejos sexuais.

Se sentindo em desvantagem, ressentem-se da autoridade e poder sobre o sexo que as mulheres representam e culpam as próprias por seus sentimentos de impotência, regulando a sexualidade feminina na forma que lhe achar aceitável — sob a autoridade dos homens (a Madona) e da forma inaceitável — agindo de maneira semelhante aos homens (a prostituta), tudo isso para lhe fornecer uma ilusão de controle.

Na Bíblia, em alguma página do livro de Gênesis, é Eva quem seduz Adão após ter comido da Árvore do Conhecimento, sendo inteiramente culpada pela disseminação do pecado original.

(É também digno de nota relembrar que nenhuma mulher ajudou a escrever a bíblia, função que foi atribuída somente aos homens.)

Alfred Hitchcock também usou e abusou do complexo como uma forma de representar suas personagens femininas. Em Vertigo (1958), por exemplo, Kim Novak interpreta duas mulheres que o ‘herói’ não consegue reconciliar: uma Madona virtuosa, loira, sofisticada e sexualmente reprimida e uma ‘prostituta’ sensual, morena e solteira.

Taxi Driver e Raging Bull, ambos de Martin Scorsese, apresentam protagonistas sexualmente obcecados, que exibem o complexo Madonna/Prostituta com as mulheres com quem eles interagem.

A transformação de Sandy em Grease (1978) também é algo notável.

E até da própria Madonna.

E como seria se esse valores fossem invertidos, ou até abolidos?

Dolores e Maeve em ‘Westworld’, duas mulheres muito diferentes que têm um objetivo específico: acabar com um ciclo interminável de abuso.

Zeba Play escreveu um artigo interessante intitulado “Como ‘Westworld’ subverte o complexo Madonna/Prostituta” (em tradução literal).

Na publicação, Play enfatiza que os dois arquétipos são retratados aos olhos do telespectador logo de início, e que, de tão intrínseco, sequer chegam a perceber a existência destes: é algo comum, toda história tem a prostituta e a virgem, a qual devamos seguir (e torcer).

Quando assistimos ao primeiro episódio, somos apresentados a Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood), uma mulher inocente, doce e quase irrealista. Com suas bochechas rosadas e seus cabelos loiros perfeitamente enrolados, é esperado que ela seja o prêmio sexual para o protagonista masculino da série.

Porém, ainda no primeiro episódio, vemos Dolores voltando de uma viagem rotineira a cidade e encontrando seus pais e namorado mortos, sendo estuprada logo em seguida. É esperado que ela se cale e apenas siga em frente.

Enquanto isso, Maeve Millay (Thandie Newton) é descrita como uma mulher sexualmente agressiva, cínica e esperta da rua no bordel de Sweetwater. Na dicotomia Madonna/Prostituta, Dolores pretende ser um farol brilhante e puro de feminilidade. Maeve deve ser apenas um objeto descartável de luxúria.

No contexto, como essas duas mulheres devem se sentir em relação a esses papéis é irrelevante. Como elas se sentem sobre o seu trauma, as cicatrizes físicas e emocionais feitas pelos convidados do parque, é irrelevante. A série nos lembra brilhantemente que não é, no entanto.

(Spoilers adiante)

Tanto Maeve quanto Dolores subvertem as personas que lhes foram impostas desde o início. Se o consentimento é basicamente sobre escolha, cada uma delas passa a série se esforçando com um tipo de autodeterminação que as separa desses arquétipos, tomando decisões que não apenas consolidam sua autonomia, mas subvertem os papéis que devem desempenhar. Elas não são vítimas, ou mártires, ou donzelas, ou dispositivos de enredo meramente girando em torno de assalto e exploração. Elas são quem elas querem ser.

Maeve literalmente mantém seu destino em suas próprias mãos, depois de recrutar Felix, técnico da Delos, para ajudá-la a mudar suas “configurações” e escapar do parque. Mais tarde, no entanto, ela aprende com Bernard que alguém a programou para decidir fugir. É a violação final — seus próprios desejos e motivações, ao que parece, não são feitos com o seu consentimento. Mas no final do programa, como ela está a poucos minutos de finalmente deixar o Westworld para sempre, Maeve toma a decisão de voltar para o parque e salvar uma filha de quem ela só tem lembranças vagas. O instinto maternal de Maeve sobrepõe-se à sua programação e subverte o seu “papel” — ela quebra o ciclo fazendo, finalmente, e ostensivamente, uma verdadeira escolha.

Dolores quebra seu ciclo da mesma maneira.

No episódio cinco, depois que derruba com rapidez e frieza cinco atacantes do Confederado com uma pistola, seu companheiro Billy pergunta como ela fez isso.

“Eu imaginei um mundo onde eu não precisava ser a donzela”.


Não há como negar que o complexo Madonna/Prostituta é extremamente massificado, a ponto de estar cravejado em nosso próprio inconsciente, quer decidamos admitir isso ou não. Tal arquétipo espelha as visões de uma sociedade arcaica e molda as percepções dos homens sobre a percepção das mulheres e das mulheres sobre si mesmas, limitando a expressão sexual das mulheres e oferecendo duas maneiras mutuamente exclusivas de construir uma identidade sexual.

É comum julgar as mulheres com base em suas ações de cunho sexual e comportamento, desde o início dos tempos. Ideologias que reforçam a desigualdade de gênero, objetificam as mulheres e restringem sua sexualidade já é algo comum desde então. Meros corpos, jamais seres humanos que erram e acertam: é um jogo frustrante para todos os que jogam. E de alguma forma, estamos sempre jogando.

A cultura patriarcal espera que as mulheres sejam castas e sexualmente disponíveis, o que cria um difícil padrão duplo para as mulheres seguirem. Muitas vezes, esse padrão leva as mulheres a se engajar em ódio a si mesmas por suas ações, alimentando um ciclo de misoginia internalizada.

Talvez a sociedade deva parar de tentar moldar suas filhas em Marias ou apedrejá-las quando se tornarem Madalenas — e deixá-las apenas serem mulheres.

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as vezes escrevo. não sei usar crase.

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