"O Conto da Aia": uma distopia feminina

George Orwell, Aldous Huxley, Ray Bradbury e Anthony Bugress. Respectivamente, eles são os autores de 1984, Admirável Mundo Novo, Farenheit 451 e Laranja Mecânica, as quatro grandes distopias do século XX.

Mas tem uma autora que poderia ser a quinta dessa lista e que injustamente ficou de fora: Margaret Atwood com "O Conto da Aia". Por que, apesar de ter sido escrito no mesmo contexto histórico muito parecido com os demais?

Alguns vão dizer que ela é canadense e que a literatura do Canadá não chega aqui com frequência, mas que ela é mais conhecida na América do Norte. Isso é verdade. Outros vão dizer que Atwood escreveu nos anos 70 e publicou em 85, quando as anteriores já tinham entrado para o cânone, o que também é verdade.

Mas tudo isso é só passar pano no que realmente importa: a distopia de Margaret é sobre mulheres. E quem quer ler sobre mulheres?

Vamos entender a história: a autora imagina um mundo em que o governo totalitário de orientação cristã extremista dominou os Estados Unidos. A desculpa é que eles estão combatendo o terrorismo de fundo islâmico, mas o que eles fazem é uma sociedade completamente dominada por homens, nas quais as mulheres têm, legalmente, três funções: Esposa, Marta e Aia.

As Esposas são as mulheres ricas, casadas com os Comandantes, que têm todas as regalias, menos uma: direitos civis. Mas têm regalias e honras que as outras não têm. As Martas são as trabalhadoras domésticas, que cuidam de todo o serviço da casa e, geralmente, são mais velhas e fora da idade fértil, assim como as Esposas.

As Aias são as mulheres mais jovens, que têm uma única função no mundo: procriar. Elas são um privilégio dado aos homens com poder. Treinadas para a copulação e para incubação de bebês, são submetidas a exames periódicos e possuem só essa função no mundo. Se uma aia não consegue procriar, a culpa é dela. Elas não podem falar com homens, não podem ter nada delas que não sejam as roupas e são excluídas pelas outras mulheres, que as consideram uma espécie de prostituta.

Além dessas três categorias, existem as Econoesposas, que são tudo isso de uma vez. Elas trabalham em casa, servem de Esposa e tem os filhos. São as mulheres destinadas aos homens menos poderosos, mas que ainda tem o privilégio de ter uma esposa.

Nenhuma mulher tem direito a trabalhar, a propriedade, a estudar e a ler. Nem a Bíblia. Os livros e computadores são exclusividade dos homens. Não existem mais revistas, nem jornais impressos. As Esposas têm direito a ver televisão e a manter amizade com outras esposas. As Marthas e as Aias, não. No Estados Unidos em guerra de Atwood, essas mulheres são coisas úteis, moedas de troca, premiações.

O livro ressoa a frase da Simone de Beauvoir: "basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos políticos das mulheres sejam questionados". É exatamente o que está acontecendo nos Estados Unidos do Donald Trump. E não podemos nem dizer que isso acontece no Brasil, com nosso poder executivo masculino, porque aqui nem temos todos os nossos direitos civis assegurados — já que o direito ao aborto não é nem discutido nas nossas esferas governamentais, com exceção do judiciário, que hoje tem um pouco mais de representação feminina.

Mas é claro que uma história que trata, basicamente, de direitos civis femininos não entraria nos anais da literatura distópica. É incômodo demais, duro demais, especialmente em um gênero que atrai homens e que é conhecido pelo seu machismo (afinal, nenhum dos quatro clássicos é lisonjeiro com o gênero feminino).

Nenhum homem quer pensar que, na coletividade do seu gênero, na sua criação, na cultura e no país em que ele vive, isso seria possível. Ele quer acreditar que somos iguais quando, na verdade, nunca fomos e, se acontecer algo muito grave nas esferas internacionais, seremos ainda menos. Em sua maioria, o homem só consegue ter consciência dos direitos civis femininos quando pensa em alguma mulher próxima, como a filha ou a companheira, justamente porque não consegue ver a mulher desconhecida como um ser humano pleno.

Se você é mulher, leia "O Conto da Aia" (de preferência, antes que a série seja lançada, porque nunca sabemos o que Hollywood é capaz de fazer com personagens femininas). Vai te deixar com raiva, e isso é bom. Aproveite e dê um exemplar ou empreste o seu para outras mulheres. Essa é a nossa história, o nosso ponto de vista distópico, o mundo que a gente não quer construir, e só a gente vai conseguir se colocar contra esse blacklash de liberdade individual.