Andre Mazzetto
Jan 23, 2017 · 6 min read
Crédito: Um sábado qualquer (tira 941)

Muitas vezes me perguntam, normalmente com um tom de acusação:

“Você é ateu?”

Já fui. Já fui religioso também. Eu explico.

Como a maioria das pessoas no Brasil, fui criado em uma família católica, fui batizado, fiz catequese, primeira comunhão e crisma. Ia a Igreja todo domingo e até hoje sei a missa de cor. Lá pelos meus 16 anos eu comecei a fazer algumas perguntas que o cristianismo não me respondia. Eu decidi procurar respostas em outro lugar. Desde então eu me interessei por religiões e comecei a estudá-las. Seria exagero dizer que estudei todas, mas cobri pelo menos as principais ao longo dos anos: Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Hinduísmo, Espiritismo, Budismo. Ao mesmo tempo, o meu interesse pela Ciência surgiu. O que eu fazia era procurar as respostas para uma pergunta específica em cada uma das religiões e também na Ciência.

Invariavelmente, a resposta dada pela Ciência era a mais fundamentada. Esta foi a minha fase “ateu revoltado”. Com o tempo, mais estudo e mais conhecimento, esta postura exagerada mudou. A ciência virou minha vida e minha profissão. Estudar a Ciência profundamente me mostrou que eu tenho que estar aberto para todas as hipóteses possíveis, por mais absurdas que elas possam parecer.

Tinha que ser cético, o que, em se tratando de religiosidade, tem um nome: agnóstico. Acho que a palavra merece uma explicação. Refere-se a alguém que não sabe, não viu evidência para saber, mas está pronto para aceitar a evidência se ela estiver lá. Isso significa que eu acho que nenhum deus existe, mas não posso provar. Caso alguém prove, eu estou aberto a mudar de opinião.

Eu sou agnóstico. Eu não finjo saber o que muitos ignorantes tem certeza que sabem — Clarence Darrow

O próprio Richard Dawkins, um ateu convicto, admite já nas primeiras páginas do seu livro “Deus: um delírio” que não pode provar que deus não existe. Portanto, o título do livro deveria ser: “Deus: talvez um delírio”. Peça seu dinheiro de volta!!

É claro que há fatos que ainda não foram explicados pela Ciência, e a chave da frase que você acabou de ler está no ainda. Estudando a História das religiões e a evolução da Ciência, eu me deparei com um conceito chamado de “Deus das lacunas”.

Crédito: Um sábado qualquer (tira 80)

É simples: se a Ciência não consegue explicar, é deus. O único problema é que, eventualmente, a Ciência chega a respostas para os fenômenos que não eram explicados anteriormente. Então deus simplesmente “fugiu” daquilo. Um exemplo: até pouco mais de 200 anos, quando pessoas adoeciam, a causa era um castigo divino (pode escolher o deus, era sempre um castigo). Se você sobrevivesse, teria sido perdoado. Hoje conhecemos microrganismos patogênicos, vírus, e sabemos a origem das doenças e como elas se desenvolvem. A partir daí, podemos elaborar modos de combate. Deus não é mais usado para explicar doenças e justificar mortes. Nesta filosofia da ignorância, deus é um bolso cada vez mais vazio.

O que havia antes do Universo? Não sei…a Ciência ainda não explicou (olha o ainda aí de novo…), tem apenas hipóteses. As religiões tem suas versões para explicar (também hipóteses, do meu ponto de vista, já que ninguém provou). Se amanhã Odin descer dos céus falando como derrotou todos os gigantes de gelo e que está puto porque o filho dele virou super-herói da Marvel, eu vou escutar. Terei milhares de perguntas para ele e vou analisar as respostas. Se ele me convencer, começarei o meu projeto “vida eterna em Valhala” para poder atravessar com dignidade a ponte do arco-íris. Neste exato momento, as hipóteses da Ciência me parecem mais corretas. São explicações mais possíveis do que todas as outras. Por este motivo, eu tendo a preferir as hipóteses da Ciência para a origem do Universo.

Crédito: Um sábado qualquer (tira 1472)

Eu nunca vou dizer em que você deve acreditar ou no que você não deve acreditar. Como um professor, meu objetivo é que as pessoas pensem direito sobre Ciência, que sintam curiosidade. Meu objetivo é que utilizem todas as ferramentas que existem para analisar as relações no mundo. Eu quero que você seja cético em relação tanto a religião quanto a Ciência. Quando alguém me diz: “Deus explica”, eu fico decepcionado. Esta pessoa não está interessada em como as coisas funcionam. Entender os mecanismos da natureza foi o que nos fez sair das cavernas e ganhar o mundo. Se todos nós pensássemos assim, ainda estaríamos gritando de medo a cada trovão.

Ser cético é complicado. Como você convence uma pessoa que ela não está pensando claramente sobre um assunto? Na maioria das vezes, as pessoas preferem a fé aos fatos. É mais legal…ou não era muito mais legal ganhar presente do Papai-Noel, ovos do coelhinho da páscoa e uma moedinha da fada do dente?

Uso este procedimento de analisar várias respostas e escolher uma melhor (independente de onde venha) para outros assuntos na minha vida, como política, economia, etc. Eu evito me associar a movimentos. Muitas vezes minha conclusão se encaixa em um “lado” do pensamento, outras vezes em outro. Comprometer-se com um “lado” significa que toda a filosofia daquilo virá com você. Pessoas vão afirmar que já sabem sua opinião, por saber de que “lado” você está. Esta não é uma maneira de se ter uma conversa. Seria melhor se explorássemos nossas ideias ao invés de atribuir um rótulo e afirmar que você já sabe o que vai acontecer.

Crédito: Um sábado qualquer (tira 773)

Quando você discute qualquer assunto com alguém, qual é o seu objetivo? Insultar? Rir? Isso pode até ser legal no momento, mas não trará resultados. Existe um comportamento natural, que acontece com qualquer animal: quando ameaçado, ficam na defensiva. Se você insistir muito, ele começará a atacar. Este não é o objetivo. Você deve deixar o seu lado “guerreiro espartano” descansar um pouco e usar o diplomata dentro de você. Não seja um idiota!

Meu objetivo não é me livrar da religião, mas fazer as pessoas pensarem claramente sobre os assuntos, sem que a fé atrapalhe. Como já disse lá em cima, eu não me importo com o que você pensa. O problema é quando a sua filosofia religiosa invade a sala de aula de Ciências. Pode acontecer pior: a sua filosofia religiosa invadir o governo e o Estado. Aí nós vamos brigar. O conflito acontece quando você tem religiosos querendo usar os seus textos como uma evidência para entender o mundo natural sem que essa explicação seja correta.

Se você acha que religião deve ser ensinada na escola, tudo bem, pode até ser…na aula de filosofia. Um detalhe importante: que se ensine todas as religiões da mesma forma (pra quem não sabe, só no Brasil tem cerca de 5 mil), não só a sua. O problema de colocar religião na aula de Ciências é que um tempo precioso será perdido. Inovação e tecnologia dependem da Ciência. Se você está lendo este texto em um computador ou smartphone, não é devido a deus.

Crédito: Um sábado qualquer (Tira 690)

Há muito valor nas religiões. Eu admiro as músicas e a arte do cristianismo, as cerimônias judaicas, o simbolismo da evolução do indivíduo no espiritismo e a filosofia do budismo. Muito do que está escrito em textos religiosos tem um valor enorme sobre como pensar sobre a vida e como tratar outras pessoas.

Temos que ter a mente aberta, estudar, comparar, raciocinar. Se não, nos tornamos fanáticos e facilmente manipulados. Talvez esta seja uma esperança piedosa e ingênua, mas não é indigna. Sejam céticos, questionem, encontrem as melhores respostas e quando forem discutir, façam isso com respeito e educação.

Ensine as pessoas COMO pensar, não O QUE pensar.

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Andre Mazzetto

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Biólogo, um cientista que não é movido a café. Entusiasta da Ciência e da Educação. Editor e autor do blog Ciência Descomplicada.

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