ou “o que acontece quando alguém vai embora?”: observação de um caso

Eduardo Oliveira
Sep 28, 2017 · 8 min read

Há 180 anos, o homem registra em seus diários a violenta paixão por uma mulher que lhe arrancaria dos eixos no instante em que se conheceram. Não resta a menor dúvida do amor que nascia ali e que permaneceria por toda a vida. Em setembro de 1840, formalizam o noivado e, em agosto de 1841, o homem desfaz a relação, apesar da condição inabalável do seu amor por ela.

o casal

O escritor húngaro Sándor Márai diz que o grande mistério da vida é descobrir o que acontece quando alguém vai embora. Acontece a vida toda, no fluxo. Desde sempre, pessoas aparecem, reaparecem e desaparecem quando cumprimos etapas, iniciamos outras e nos modificamos no tempo-espaço. A cada passo na estrada dos nossos planos de realizações, deixamos e somos deixados por pessoas. Boa parte das vezes, acreditamos ter alguma noção das razões que provocam o desaparecimento daquele que fez parte de uma etapa. Para os casos em que pouco sabemos, edificamos conjecturas a partir de vestígios, tudo em busca de ter alguma consciência das razões do “sumiço”. Considerando essa dinâmica de aparecimento e desaparecimento, como ordenar os significados da partida? Em outras palavras, qual o substrato que nos leva a “pensar coisas”, a arremessar nossa imaginação no árido solo da dúvida? O gesto.

Gesto, movimento do corpo criador e intensificador da vida. Expressa absolutamente tudo o que vem acontecendo em todos os tempos e todos os lugares. O gesto é a forma que conjuga realidade e possibilidade, o finito e o infinito. Guerras, paixões, contratos e trocas dependem do gesto. Ação na realidade que se lança em uma possibilidade, o gesto é o salto da alma em direção ao acontecimento. Em relação ao encerramento do noivado, que força há no gesto do homem capaz de abandonar a noiva pela qual ainda nutre um imenso amor?

Os vestígios: nos diários deste homem, se autodeclara um melancólico e fala do pecado que seria a atitude de arrastar a bela moça para essa grande correnteza de angústia. Em outro ponto, demonstra uma dose de resignação: “se a minha vida não fosse uma grande penitência…”

Quando a deixou, o homem disse que nunca a amou e confessou a inconstância do próprio espírito. Procurou convencer a jovem com todas as forças de sua própria leviandade. Seis anos depois, a jovem se casou; ao vê-la com o seu marido, o homem registrou em seus diários: “nenhum marido pode ser mais fiel à esposa do que sou a ela”.

O que nos diz essa postura ilógica e enigmática do homem que ama, declara a sua devoção e, no entanto, deixa a amada? O gesto que faz restar nada além de sofrimento e tragédia. Consciente de sua melancolia, o homem precisava deixar os caminhos abertos à amada, na forma de uma decisão que não deixasse absolutamente nada incerto, realidade pura, sem o menor aceno a possibilidades. Se a moça iria perder o amado, o homem tratou de fazer com que a sua própria condição fosse ainda mais penosa: perdeu a amada, foi ridicularizado, odiado ao admitir uma suposta leviandade e passou a viver de modo excêntrico, em solidão. Sob a máscara de um leviano sedutor, tratou de dar fim ao noivado e de criar condições para que a jovem se reencontrasse na vida. Sentia-se no dever de percorrer o caminho até o fim.

Para este homem angustiado, a vida não se compara aos sistemas lógicos. Repete em seus diários que sua amada cairia sob o peso do desgaste, se o casamento se consumasse. Contrasta sua terrível melancolia aos sorrisos da amada — “eu era muito pesado para ela; ela era muito leve para mim” — a diferença capaz de causar a ruína dos dois.

A elevação do amor depende da subtração da razão ?

A constatação dessas diferenças expõe a condição trágica do amor. Vem a pergunta: a felicidade imaginada na relação com a bela moça, se esta fosse possível, teria invalidado o homem em suas realizações? Teria força para suprimir sua melancolia, sendo capaz de trazer a redenção de uma vida feliz? Paradoxo do amor; expõe seus limites e suas condições. Como posso amar sem que o objeto do meu amor se torne um obstáculo ao meu amor? Quem é forte o bastante para amar em absoluto, se dispor a abrir mão de tudo?

Trata-se aqui de um amor que abre mão de ter razão. Ocorrem que os manuais, opiniões e colunas comumente pregam a conciliação entre esses dois universos. A retórica da conjugação entre realidade e possibilidade, entre “os pés no chão” e “os sonhos”. São esses opostos inconciliáveis que constituem o existente. Uma vez mergulhado nessa questão, não se pode responder pelo outro; é o ponto em que a vida está para além dos sistemas e teorias. Existência é luta apaixonada atravessada de preocupações. Existir é escolher e, a partir daí, sentir possibilidades escorrerem pelas mãos. Viver a possibilidade é se projetar no mundo, mas em qual possibilidade temos a garantia de realização concreta? “No possível, tudo é possível”, diz o homem. Vivenciar as possibilidades às vezes oculta a alternativa do fracasso e do insucesso, a fonte das nossas angústias.

O que se quer marcar aqui? Um sentimento de ameaça que se constitui no interior de cada possibilidade apresentada ao homem. No amor, o dilema se impõe pelas restrições que surgem da própria relação, onde ora um tem razão, ora outro. Consiste em atestar que o amor absoluto, pleno e irretocável em sua devoção, depende do esforço em deixar de se ter razão. O dilema da conciliação entre amar e preservar as próprias razões resulta na atitude do homem quando desfaz o noivado, cuida para que a amada se encontre e continua a amá-la por toda a vida. A alma desse homem possui a necessidade do absoluto, do amor absoluto, de lançar-se sobre o mais seguro dos solos. Talvez todo mundo tenha um pouco disso. Não um amor que ora este, ora aquele tenha razão. É preciso um amor que faça perder a razão. Esse homem buscava um ideal inalcançável e encontraria na relação com Deus esse amor.

Deus seria o lugar onde todo esse amor pode ser despejado, dimensão onde as diferenças entre o certo e o errado deixam de ser questão. Deus nos permitria suportar a miséria humana; sua superioridade é enorme e, diante Dele, não temos razão nenhuma. Para a alma que necessita de amor, em Deus, o tormento da dúvida não chega a apavorar; a contrário, guarda certa tranquilidade, uma vez que Deus sabe de todas as coisas. Assim, de acordo com o homem, poderíamos amar a Deus em absoluto, uma vez que assumíssemos a nossa inferioridade e ausência de razão diante da Sua vontade.

O percurso do pensamento desse homem: “amo uma pessoa e desejo não ter razão nenhuma contra ela. Aceito suas particularidades e não chego a objetar sobre características suas desalinhadas ao meu modo de amar. Se essa pessoa te é infiel ou te faz sofrer, passa a ter razões sobre ela, o que afasta o amor de uma absoluta entrega e devoção”.

O homem

Esse interessante modo de refletir pode ser questionável em suas relações e méritos. No entanto, fornece alguns pontos para se pensar. Primeiramente, o gesto do homem e a repercussão sobre a sua alma. Ele encenou ser um sedutor leviano e essa identidade forjada é o que irá contaminar a sua vida, se tornar o seu calvário. Daí a centralidade do gesto, a única dimensão que poderia ser acessada por sua amada. Por outro lado, o que foi vivido pela moça não pode ser definitivamente invertido pelo gesto do homem. Seu gesto a obriga a olhá-lo de outro modo, como um sedutor leviano, no entanto, tal imagem estava oposta a uma realidade vivida, na qual ela conheceu um homem honrado e devotado. A realidade do passado dizia algo na direção oposta ao seu gesto. Aqui, podemos compreender que o gesto é central, mas não institui uma realidade definitiva, uma certeza.

Se o gesto repercute sobre a alma, a alma se volta contra o gesto. Nem a alma nem o gesto se impõem unilateralmente. No caso do fim do noivado mencionado, podemos tirar algumas conclusões: não se pode esconder a melancolia, tampouco se pode negar um amor tão grande sob a encenação de infidelidade ou de leviandade. Aqui, a melancolia é própria da alma, enquanto deixar a noiva sob a justificativa da própria leviandade é da ordem do gesto. A vida atravessa o gesto. O homem viveu a tragédia de querer viver o que não se pode deixar de viver.

Anos mais tarde, a mulher escreveu a um parente desse homem e fez indicações de reconhecimento do amor presente nesse cuidado com ela. O gesto não a convenceu. Ao contrário é a irrupção do mal-entendido. Toda essa sequencia de eventos estabeleceu uma eterna incerteza na vida dos dois. Não se sabe se eles voltaram a se encontrar, mas se isso aconteceu, é certo que ali estaria presente o eterno retorno do mal-entendido causado pela relação entre o gesto e o estado da alma. Nos grandes amores, não existe absolvição. O gesto emitiu a sentença da vida daqueles dois e talvez essa seja uma realidade incontornável.

a moça

O homem dessa história é Søren Kierkegaard e a moça é Regine Olsen. O episódio indica o momento em que o gesto, em seu potencial devastador, não resiste ao movimento da vida. Um ato deliberado e convicto não é capaz de liquidar os conteúdos íntimos do ser que ama. Essa é a essência que inspira os mais belos romances; o amor proibido, o amor impossível, o amor distante. O texto é inspirado no ensaio de Georg Lukács sobre essa passagem na vida do filósofo existencialista, Kierkegaard, agora identificado. O livre passeio sobre essa história pretendeu realçar alguns aspectos presentes naquelas situações em que a relação termina, no entanto, o amor permanece. Quando a vida estilhaça a forma, quando o sentimento atravessa a moldura da relação, a partir de um personagem que tinha necessidade de elevação máxima do seu amor. Como disse Lukács, “nas profundezas da sua alma ardem as chamas do auto sacrifício”.

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