O Estado Islâmico é uma multinacional

Propaganda radical, alienação da população e democracias frágeis estão dando o tom em uma sociedade que tem seus limites testados.

É claro que quando o Estado Islâmico (EI) diz que foi responsável por um ataque como o de Nice, na França, na quinta-feira (14), é preciso duvidar que o grupo tenha, de fato, coordenado a ação, até porque o modus operandi foi muito diferente do padrão, mas é difícil desassociar as duas coisas quando o assunto é inspiração.

A bandeira do Estado Islâmico

Porque o EI funciona como uma multinacional, que vive de petróleo, pilhagem, tráfico de drogas, extorsão e, dizem, doação de simpatizantes, além de impostos e até agricultura. E, como sabemos, multinacionais não precisam ter “escritório” em todo lugar em que estão “disponíveis”, assim com EI não precisa de células ativas em todos os países do mundo.

Muitas vezes o chamado “lobo solitário” não é membro de EI e nem recebeu treinamento, mas é capaz de um estrago que pode ser maior do que o de um ataque planejado e coordenado. Em Nice, um tunisiano em um caminhão de carga matou mais de 80 pessoas. No Charlie Hebdo, no ano passado, por exemplo, três terroristas mataram “apenas” 20 pessoas.

Ou seja, se organizar as vezes causa menos impacto do que inspirar e fazer propaganda. Até porque, no campo de batalha, o EI já perdeu muito. O mapa abaixo mostra que a derrota do Estado Islâmico (em cinza) no Iraque (direita) é questão de tempo, já que o grupo só tem controle da região de Mosul. Os curdos (amarelo) já tem controle total de Erbil e o exército iraquiano (rosa escuro) recuperou Fallujah.

Mas a ideia da “jihad” internacional não perdeu força. O efeito parece ser o contrário. Com a derrota em seu principal campo de batalha, o EI começa a se espalhar através de ataques no mundo todo. Só na França foram quatro atentados em 2016. Nos últimos 365 dias, foram 216 mortos e pelo menos 460 feridos. É o alvo favorito, no ocidente, já que o país europeu tem história de opressão no Oriente Médio (e na região do Maghreb) desda a época do colonialismo, passando pelo acordo Sykes–Picot, pela alienação da população muçulmana em suas cidades e sua posição de falcão de guerra, hoje, na Síria.

Mas a situação não se resume a França. Em 2016 houve pelo menos um ataque terrorista em praticamente todos os dias. Nem sempre perpetrado pelo Estado Islâmico, é claro, mas o grupo tem sido o responsável pelos mais mortais, como em Daca, capital de Bangladesh, e Bagdad, capital do Iraque, ambos em julho e com 24 e 308 mortos, respectivamente.

A existência e atual situação do EI e esse aumento em número de incidentes não são coincidências. E parte disso se deve a propaganda fundamentalista que o EI dominou. A habilidade de cooptação do radicalismo islâmico e a inabilidade do ocidente em lidar com isso chegou a um limite. Mas o problema é que os lideres mundiais não mostram nenhum sinal de que tem alguma pista de como resolver isso.