O estalo coletivo de uma sociedade afundada no caos

Saudades de 2013, viu? A crise dos caminhoneiros nos mostra que o necessário dói

Unsplash / Warren Wong

Há meses penso em fazer um paralelo entre Brasil e Venezuela. Os saudosistas dirão que estamos longe da nossa vizinha, mas a eleição na Venezuela nos mostra que talvez não. O caos que se instaurou lá, pode vir a se instaurar aqui, ambos por processos diferentes mas por propósitos semelhantes: cegar a população e manter o poder monopólico que se instaurou.

Vejamos dois pontos:

1. Na Venezuela um golpe — que muitos defenderão que foi legítimo, mas minha bolha não me dá outra alternativa — para manter no poder um líder que é mais ditatorial do que democrático.
2. No Brasil um golpe — minimamente calculado e tratado dentro do que se interpreta constitucional — no qual se retira uma Presidente eleita, do exercício de seu cargo, pelo que acusam de pedaladas fiscais. Seu antecessor preso, mas ela livre pois, segundo perícias, não cometeu crimes.

Preços subindo dia após dia, gasolina em alta, mas a propaganda é de inflação zero. A propaganda, apenas ela. Meu ensino público deve ter sido defasado— pois essa situação crônica que nos inserimos não é de agora — ou eu não estou entendendo este cálculo.

A publicidade diz que o novo governo, após impedimento da Presidente, colocou o Brasil nos trilhos. Nos trilhos? Mas como pode se o vagão do desemprego já até descarrilhou, o dólar está em alta disparada corroendo o poder de compra do Real e a pobreza ataca as classes mais baixas, como as novas gerações nunca viram antes?

Pra quem vive numa redoma de luxo, com tudo ao seu dispor, podendo pagar sem se preocupar, desconectado de seu povo, é fácil falar que a crise acabou. Só que em vésperas de uma nova eleição, as especulações são muitas. Será que o Brasil caminha para ser uma nova Venezuela? Lá de esquerda, aqui de direita… mas pense bem, isso importa? No final, sempre o povo paga a conta.

No fim — no início e meio também — a luta é por poder. Por controle. Se lá o salário mínimo compra apenas dois quilos de frango, aqui tem prédio desabando com sem tetos dentro. Sem teto, sem grana, sem conseguir consumir cultura. Sem conseguir usufruir, muitas vezes, do direito de aprender a ler e escrever.

A crise de refugiados venezuelanos mal começou, mas a massa votante, que de cultura não tem acesso a nada, acha que já está no ápice. Se nosso Brasil não entrar nos trilhos, daqui a pouco pode ser a vez da nossa real crise.

Pouco se olha para o povo, muito se aceita para a elite. Eles podem. Podem tanto que este texto corre risco de ser censurado. Isso mesmo, mas não só a minha voz, a sua também. A nossa…

E aí? Será que nossa população vai ter um estalo coletivo antes das eleições? Acho difícil, mas conduzir essa história está em nossas mãos. Vejam nossos vizinhos Peru, Chile e Uruguai, pequenos, com pouca possibilidade de giro e crescimento da economia, mas ricos: financeiramente e culturalmente. Povo feliz. Com políticas públicas aplicadas. Com seus problemas, porém, correndo atrás de soluções.

Nossa pseudo-elite, que acha poder tudo, vai acabar com o sonho brasileiro. Os fantoches vão trabalhar mais um pouco, agora a favor das fake news. Desculpem a sinceridade mas a vida só tende a piorar: enquanto a economia mundial cresce, a do Brasil — e o Brasil — fica outra vez para trás.

E então, cabe a nós escrevermos, ler, discutir e observar os movimentos. Pelo menos enquanto a nossa internet ainda for livre. Talvez o desejo de conduzir nossa sociedade vivendo de maneira realmente livre, justa, transparente e democrática um dia aconteça.

De fato, não há como o Brasil ser como a Venezuela. Mas se esta mentalidade política continuar vigorando por aqui, e estes políticos que drenam o país continuarem a ser reeleitos, nosso futuro será, sem dúvidas, bem difícil.