O fascínio e o pesadelo da inteligência artificial

Filme ‘Ex-Machina’ reflete nos robôs a contradição humana e o “complexo de Frankenstein”

“Se você criou uma máquina consciente, não é história da humanidade. É história dos deuses.”

Histórias de robôs são fascinantes. Apesar de sempre gerarem controvérsias, com temor de personalidades do mundo da ciência como Stephen Hawking, os robôs despertam diversos sentimentos no ser humano. Todas as questões pertinentes sobre o assunto são levadas a sério por religiosos, filósofos, cientistas e artistas. No cinema e na literatura, em especial, os robôs estão vivos de uma forma rica. Um dos últimos exemplos de obras extraordinárias sobre o assunto é o filme Ex-Machina: Instinto Artificial.

O cinema já carimbou na história várias produções que traduzem diferentes visões sobre o assunto. Apesar disso, são poucas as que realmente marcaram positivamente o imaginário coletivo. Clássicos como Exterminador do Futuro, 2001: Uma Odisseia no Espaço, O Dia em que a Terra Parou, Robocop e Alien: O Oitavo Passageiro, até possuem a inteligência artificial em seus roteiros, entretanto, o foco está voltado para outras questões.

Eu, Robô

Obras cinematográficas como Matrix, AI: Inteligência Artificial, Wall-e, O Homem Bicentenário e Eu, Robô, foram cruciais para levar o tema para outras vertentes. Os dois últimos citados são baseados nas obras de Isaac Asimov, talvez um dos autores que mais escreveram com paixão sobre o assunto. São dele as três leis da robótica, cuja base é um esquema paradoxal que certifica que robôs não vão agir contra os seres humanos em hipótese alguma. Essas leis norteiam as tramas sem serem acometidas pelo que o próprio Asimov chamava de “complexo de Frankenstein” que ocorre quando as máquinas autônomas transformam-se em monstros ao decorrer de sua evolução, subjugando a espécie humana.

Para Asimov, as pessoas ainda possuíam um medo incondicional com novidades e, principalmente, alimentavam a tecnofobia. Da Revolução Industrial, à evolução das grandes cidades — e os rastros que isso provocou — , em muitos casos, as máquinas são tratadas como um desastre iminente — quando, na verdade, também contribuíram para geração de empregos, democratização (e globalização) da comunicação e até proporcionou formas para evitar grandes impactos ambientais. Em termos de crenças, o homem poder criar um ser pensante e que possa inverter ordens de escrituras sagradas, também é tratado como um equívoco que tem tudo para dar errado, assim como ocorre na obra de Mary Shelley.

Ex-Machina

Ex-Machina, dirigido e escrito por Alex Garland, é uma mistura interessante sobre a questão. Existe sim o tal complexo que Asimov evita em suas histórias, todavia, ele engrandece o tema com uma contextualização nova. É necessário compreender Ex-Machina como um filme sobre o ser humano. Assim como Ela, de Spike Jonze, que capricha em retratar o isolamento que leva um homem a se apaixonar pela inteligência artificial sintetizada em uma voz, o isolamento de Ex-Machina leva um jovem vulnerável virar uma peça em um jogo de xadrez, entre o criador e a criatura.

É possível identificar tantos debates pertinentes sobre a questão, que deixam o filme prazeroso a cada debate levantado. Passando por diversas referências religiosas, como o números de testes que vamos acompanhando — como se o filme fosse de Deus criando o mundo em 7 dias — até o nome da robô Ava, em uma alusão à Eva.

A sexualidade, a psicologia, a inversão de valores (a máquia consegue criar mais simpatia do que outra figura humana presente no mesmo ambiente) proporcionam falas que são impressionantes como a analogia da programação robótica, em forma de defesa: “todos nós fomos programados biologicamente para sermos o que somos”.

Também há uma base focada em refletir sobre o excesso de espionagem, voyeurismo, big data (que é o banco de dados construído pelo que se busca em sites), entre outros. É possível perceber machismo nas atitudes do inventor. Além de servir para estudos e cumprir atividades domésticas, a robô satisfaz suas necessidades sexuais como uma escrava.

Ex-Machina é um complexo estudo sobre a sociedade da selfie, dos jovens gênios bilionários e suas aventuras em serem deuses manipuladores da massa. Criam suas extensas redes de amigos, mas vivem isolados em seus próprios egos. Dessa forma, jamais vão estar prontos para questões fundamentais como a ética e moral que permeiam o assunto da inteligência artificial.

O “complexo de Frankenstein” aqui no caso, deve-se aos verdadeiros monstros dessa fábula realista: o criador se afoga em seu próprio reflexo, como uma espécie de Narciso, admirando sua individualidade e um lago profundo cheio de incertezas — ele achava que era a personificação da beleza, quando, na verdade, era mais uma ilusão criada por sua inteligente, mas presunçosa mente.

Frankenstein (1931)

Revisão: Renato Conceição

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