O filme de Natal de Tarantino

Os Oito Odiados, uma crônica de fim de ano disfarçada de western (e isso é bom!)

Chega o ano de 2016, e com ele me lembrei que os cinemas não são apenas um lugar que eu utilizo para rever O Despertar da Força. Essa pode parecer uma frase um tanto bitolada mas: eu não ligo. Vi, revi, e me diverti. Mas relaxa, eu não vim aqui para falar do sétimo episódio da saga mais esquizofrênica da galáxia, mas sim do oitavo filme do diretor mais problemático do terceiro planeta à partir do Sol: Os Oito Odiados (The Hateful Eight).

(antes de prosseguir, um breve pronunciamento da Polícia Anti-Spoiler: esse post contém spoilers moderados. Obrigado.)

Quentin Tarantino ainda está em forma. Mas o que é “estar em forma”, sendo que o diretor não tem uma forma definida? Certo, ele tem suas manias, sua identidade, tudo aquilo que nos faz dar um sorriso sacana quando reconhecemos aquelas farpas que já nos espetaram em outros trabalhos seus. Mas a coisa de dirigir (aparentemente) sem destino e depois nos dar um tapa na cara continua ali, sim.

Para Os Oito Odiados, Tarantino traz de volta alguns de seus cães de aluguel (estamos falando de Tim Roth e Michael Madsen), um Kurt Russell assustadoramente envelhecido (não que seja inesperado. Aliás, que bom que ele está velho e bem!), Samuel L. Jackson, Bruce Dern e Jennifer Jason Leigh, que, uou, rouba a cena e é um baita eixo para todas essas figurinhas tarantinescas girarem em torno.

Aqui ela ainda está “ok”, acredite.

De um jeito que nos dá uma aflição calculada, a mulher passa todo o filme ensanguentada, vomitada, machucada… e através de um diálogo ou outro, nós precisamos acreditar que ela é uma criminosa perigosíssima e que merece tudo aquilo. Aliás, não espere um filme suave nesse ponto. Agressão contra mulheres, racismo, xenofobia… Está tudo lá, acontecendo aos montes. Mas, ei, é um filme que se passa nos Estados Unidos pós-Guerra Civil! Imagina o poço de merda que era esse lugar naquela época, considerando o poço de intolerância que ele ainda é hoje em dia? É um filme, e por mais que tenha suspensões de realidade, saídas e soluções absurdas, ele é fiel ao contexto do período que tenta retratar, ok?

Bigodão de respeito do Seu Russell.

Então, continuando: claro que o filme não se resume à atuação desses medalhões. Temos inúmeros personagens que nos saltam aos olhos em uma primeira impressão, e que só estão lá para morrerem em seguida e nos fazer lamentar. Tarantino tem dessas. Ele pode criar inclusive ótimos figurantes que atiçam nossa curiosidade, que nos fazem conspirar e ficar imaginando se aquele sujeito terá algo a acrescentar para a história… mas não, eles são apenas figurantes com um enorme potencial. E taí algo legal, não é desperdício! Isso me lembra a garota de bandana na cara e machado nas costas, em Django Livre!: uma personagem com uma estética incrível, que tem nada mais que alguns segundos de tela. Mas eu me lembro dela até hoje, percebe? Esse desapego com boas ideias é coisa típica de bons escritores, que sabem que até alguém com 10 segundos de holofotes pode carregar um peso dramático, pois ele pode criar personagens tão bons quanto no momento que eles quiserem.

Pois bem. No filme, alguns sujeitos potencialmente perigosos são forçados a se refugiarem em uma loja no meio de uma nevasca, e de permanecerem lá até que o tempo melhore e grande parte deles possa seguir viagem para Red Rock, Wyoming. Todos eles possuem uma história por trás de suas inúmeras camadas de casacos e por baixo de seus chapéus. Não espere tantos desentendimentos entre os abrigados, espere por tensão. Como se fosse a cena inicial de Bastardos Inglórios estendida em um filme inteiro. Como se fosse a cena do “what does Marsellus Wallace looks like?”, em Pulp Fiction, com os ânimos não-tão-à-flor-da-pele, estendida em um filme inteiro.

Já que estamos falando dos outros filmes do Tarantino, aqui vai o meu pensamento que dá título à esta postagem: sabemos que ele gosta de homenagear suas referências/influências. Sabemos que Kill Bill é sua homenagem aos filmes de artes marciais. Bastardos é o seu filme de guerra e espionagem. Django é seu spaghetti western. Pulp Fiction é seu filme… pulp. Mas onde Os Oito Odiados se encaixa? É apenas outro western?

Não, amiguinho. Os Oito Odiados é um conto natalino!

Dingle bells, motherfucker.

O nascimento do menino Jesus se aproxima. Viajantes se abrigam em volta da lareira, forçados pela fúria da neve. Temos gananciosos, temos famílias separadas pela vida, temos famílias querendo se reencontrar. Temos um tipo de mensagem torpe sobre esperança e compaixão, mas também temos. Temos até música natalina, para ficar mais explícito (a cena do piano. Excelente, por sinal). E temos o filme estreando no começo do ano, que não por um acaso fica próximo ao fim do ano anterior. Ooooh!

Se você já assistiu, tente relembrá-lo como um conto natalino ao molho tarantinesco. Tem todos os ingredientes que um típico conto de Natal possui, só que com sangue, palavrões e muita maldade. Credo, como essa gente é ruim! Ninguém presta.

Se não assistiu: corre lá pra ver, porque nada do que eu disse aqui estraga a experiência de ver ótimos diálogos e boas interpretações. Não acreditem nas críticas que dizem que o filme é tedioso e previsível. Tedioso e previsível é festa de Natal de família gigante que se finge de feliz.

Agora eu preciso ir. A véia Mary Todd está chamando e acho que é hora de ir pra cama.

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