O Grammy versus o Rap

Uma análise racial da prestigiada cerimônia

“estou torcendo por todos negros” / Reprodução: Variety

O Grammy 2018 contou com uma novidade histórica para a premiação: a ampla presença de rappers em suas categorias gerais — onde todos os gêneros concorrem, que geralmente é dominada por artistas pop mainstream. O líder em indicações foi JAY Z, que apesar disso saiu da premiação de mãos vazias. Foi a primeira vez que nenhum homem branco foi indicado à categoria.

Quatro álbuns de black music concorriam à categoria juntamente com Melodrama, da neozelandesa Lorde. As grandes apostas eram 4:44, de JAY Z e DAMN., de Kendrick Lamar. O último imaginado pelos fãs do gênero e pelo público em geral como vencedor foi 24K Magic, de Bruno Mars; o álbum contava com o mesmo funk music utilizado exaustivamente pelo artista — que apesar de liderar em vendas e contar com uma grande fanbase votando no Twitter, não produz um material artístico como seus adversários. Contudo, Bruno Mars foi o grande premiado da noite, com 7 prêmios; seguido de Kendrick Lamar, que carregava 5 gramofones.

A família Carter possui ao todo 43 Grammys, menos de um terço na categoria geral. / Reprodução: E!

O problema do Grammy com a comunidade negra não é novo: em 1995 a Academia anunciou a criação de uma categoria exclusivamente para rap, que foi seguida por diversas outras categorias para black music. O artista mais premiado na categoria de rap é branco — Eminem. JAY Z, considerado por muitos o atual “farol” do gênero e com muitas músicas de cunho político e social, raramente vence a premiação — considerando que a maioria esmagadora de suas vitórias são colaborações com outros artistas.

The Story of O.J.”, música que conta com sample de Nina Simone e questiona implicitamente sobre o posicionamento de personalidades negras sobre sua raça usando frases famosas como “I’m not black, I’m OJ”, perdeu na categoria Record Of The Year para “24K Magic”, de Bruno Mars; a música vencedora conta com uma fórmula batida de funk music e, nas palavras do performer, “se trata de um convite para a festa”.

Em 2016, no auge do movimento Black Lives Matter, a música Alright, por Kendrick Lamar, foi escolhida por muitos como o hino do movimento. Na música, o rapper falava sobre como tudo iria ficar bem — apesar dos pesares, era expressado também o desafeto da comunidade negra com a polícia americana e vários outros aspectos da problemática. Lamar foi indicado a Música do Ano com a faixa na premiação em 2016, sendo derrotado por “Thinking Out Loud”, do cantor Ed Sheeran.

O rapper Tupac Shakur, considerado por muitos o maior rapper e um dos maiores artistas de todos os tempos, nunca foi premiado com o gramofone.
Frank Ocean foi o primeiro artista influente do gênero a se assumir bissexual. Divulgação: Boys Don’t Cry Magazine

A situação do Grammy chegou a um ponto crítico em 2017, quando grandes nomes como Kanye West (juntamente com artistas de seu selo GOOD MUSIC), Drake e Frank Ocean decidiram boicotar a premiação. Como resposta, Kanye West perdeu todas as 7 categorias que foi indicado na premiação — seu álbum The Life of Pablo foi considerado um dos melhores trabalhos de sua carreira e de todo o ano. Frank Ocean recebeu uma alfinetada de dois produtores do Grammy a respeito de sua performance de 2013 com a música Forrest Gump na cerimônia. “Não é um grande momento da TV”, disseram os organizadores. Em resposta, Ocean disse: “Vocês sabem o que realmente não é um ‘grande momento de TV’? ‘1989’ (álbum de Taylor Swift) pegando o Grammy de álbum do ano em vez de ‘Pimp a butterfly’ (álbum de Kendrick Lamar). Essa foi uma das maiores ‘falhas’ de TV que eu já vi”.

“Essa instituição certamente tem uma importância nostálgica, mas ela não representa as pessoas que vem de onde eu vim, e que acreditam no que eu acredito. […] Ganhar um prêmio de TV não me sacramenta com sucesso. Levei algum tempo para aprender isso.” — Frank Ocean

É irônico que, em um ano onde o Grammy era prometido de consagrar um gênero há muito marginalizado por ele (um gênero, vale notar, que surgiu como forma de expressar as dificuldades da comunidade negra), o grande vencedor da noite é um homem que o utiliza com o proposto de lucrar com músicas consideradas por muitos como “fúteis”. Simplificando: é triste que o vencedor de uma premiação prometida para um gênero político foi um ser totalmente apolítico.

Não estamos falando de simples política aqui: estamos falando de um problema que mata milhares de pessoas todos os anos. Com marchas da Ku Klux Klan e uma administração racista, o silêncio de um artista que faz uso de uma arte feita para a resistência para com a luta pode ser ensurdecedor. Enquanto Kendrick Lamar fez sua polêmica apresentação juntamente com o U2 e JAY Z planejava atacar Trump em um possível discurso, Bruno Mars deslizava pelo palco cantando sobre mágicas de 24 quilates em uma batida de funk.

Nas palavras do próprio Kendrick Lamar em sua música “ELEMENT.”:

“Last LP I tried to lift the black artists,
But it’s a difference between black artists and wack artists.”

Do outro lado da moeda, o Grammy foi criticado pelo retrocesso cometido por ele em relação à representatividade feminina. A premiação é, muitas vezes, dominada de figuras femininas — isso não aconteceu esse ano. Apesar de momentos memoráveis por parte das talentosas artistas que prestigiaram a noite, como a poderosa apresentação de Kesha ao lado de Cyndi Lauper ou a talentosa Patti Lupone representando “Don’t Cry for Me Argentina”, do épico Evita, o Grammy foi esmagadoramente dominado por homens — mais do que o comum.

O ano de 2017 pôde ser considerado o ano do rap. A ascensão de novas figuras na cena e faixas que bombaram pelo mundo, como o hino 1–800–273–8255 de Logic, contribuíram imensamente para a criação de um cenário prolifero para o gênero musical que surgiu nas ruas do Bronx. O rap também é conhecido, infelizmente, como um ambiente hostil para mulheres.

Do neosoul ao R&B, SZA é uma das mulheres que vivem na pele a hostilidade do black music para com o sexo feminino. / Reprodução: Billboard

O que aconteceu no “Grammy do Black Music” não foi nada além de um reflexo do cenário musical de 2017. Quando um gênero dominado por homens domina o cenário musical, não se pode esperar outra coisa de toda a indústria se não homens. A problemática entre o black music e as mulheres é algo que data do início do gênero — ou mais ainda, de toda a historia sociocultural dos negros no Novo Mundo. Mas esse assunto pode render um texto para si.

A pergunta que perdura, afinal, é: será que a Academia vai realmente se tornar uma instituição de importância meramente nostálgica, ou ela irá enfim se enquadrar aos padrões exigidos pelo século XXI?