O Halloween segundo John Carpenter

ou quando doces e travessuras se transformam em corpos dilacerados


Durante as décadas de 50 e 60, o icônico diretor e crítico de cinema François Truffaut (Jules e Jim; Os Incompreendidos) idealizou uma série de entrevistas com o mestre Alfred Hitchcock (Um Corpo que Cai; Os Pássaros) numa coletânea de relatos que se tornaria o épico livro facilmente encontrado nas melhores lojas do ramo.

Numa de suas mais célebres passagens, a obra apresenta Hitchcock afirmando que a maioria dos filmes que vira até então confundia os significados de surpresa e suspense, mesclando um e outro como se ignorassem o fato de que tratam-se de duas coisas absolutamente distintas.

Truffaut e Hitchcock frente à frente: qual a diferença entre surpresa e suspense no cinema?

A partir disso, o diretor, buscando ilustrar seu raciocínio, abraça aquela que ficou conhecida como uma das analogias mais comentadas da história do cinema, e que envolve relógios, pessoas conversando numa sala e uma bomba debaixo de uma mesa.

"Nós estamos, nesse momento, tendo uma conversa muito inocente. Suponhamos que há uma bomba debaixo dessa mesa. Nada acontece, e, então, de repente, “Boom!”. Há uma explosão. O público fica surpreso. Mas antes dessa surpresa, foi uma cena absolutamente comum, sem nenhuma consequência especial.
Agora, uma situação de suspense. Há uma bomba debaixo da mesa e o público sabe disso, provavelmente porque viram o anarquista que a colocou aí. O público está consciente de que a bomba vai explodir à uma hora e há um relógio na sala. O público pode ver que faltam quinze minutos para a uma. Nessas condições, a mesma situação inócua torna-se fascinante porque o público está participando da cena. A audiência pode ver que faltam quinze minutos para a uma. A audiência está querendo avisar os personagens: “Vocês não deviam estar falando sobre esses assuntos triviais. Há uma bomba embaixo da mesa e está prestes a explodir!
No primeiro caso, demos ao público quinze segundos de surpresa no momento da explosão. No segundo, provemos o público com quinze minutos de suspense. A conclusão é que sempre que possível, o público deve ser informado. Exceto quando a surpresa é uma virada, ou seja, quando o fim inesperado é, ele mesmo, o ponto alto da história." — Alfred Hitchcock.

"Sempre que possível, o público deve ser informado". Instigante, não?

Entendendo a importância da participação ativa do espectador durante a projeção, Hitchcock procurava estraçalhar nossos nervos ao nos munir de informações fundamentais para o bem-estar de seus personagens, ao passo que observá-los em perigo sem que pudéssemos fazer nada a respeito transformava-se numa interminável tortura narrativa e visual que apenas maestros como ele mostraram-se capazes de orquestrar.

Foi pensando nisso que resolvi aproveitar a chegada do Dia das Bruxas para mergulhar num dos grandes clássicos de terror da sétima arte, comandado por um cineasta perfeitamente capaz de seguir os passos de Hitchcock e utilizar a ideia de suspense em prol tanto do gênero que mais ama quanto da experiência do público dentro da sala de projeção.

Adentremos, portanto, no terrível e marcante universo do diretor John Carpenter e de seu icônico Halloween (Idem, 1978).


Orçado em preocupantes U$300 mil e tratado apenas como um filme feito "para assustar", Halloween parecia ser só mais um daqueles projetos B de terror que evaporam depois de uma tímida turnê regional.

E a obra poderia ter sido apenas isso, caso os ensinamentos de Hitchcock não tivessem sido tão bem interpretados pelo seu criador.

“Nós tínhamos pouquíssimo dinheiro e um elenco muito jovem. […] Mas tudo era apenas um filme em que o personagem principal, o cara com a máscara, não era exatamente um ser humano. Ele não tinha características humanas. Ele era mais como uma máquina. Ele era mal puro. Era isso que eu queria. É o mal vindo do nada, mal sem background, o que me aterroriza como ser humano… que uma forma de mal como essa pode chegar até a minha porta sem um propósito, sem um passado, sem uma origem. Então era essa a ideia por trás do filme. Foi tudo colocado junto para assustar você.” — Carpenter, em entrevista ao The Hollywood Reporter.

Carpenter, afinal, concebeu Halloween como uma série de sequências nas quais a noção de suspense defendida pelo criador de Psicose (Psycho, 1960) encontra perfeitas representações imagéticas e narrativas, potencializando o clima de horror do projeto justamente ao obrigar o público a ser o próprio Michael Myers em diversos momentos.

Oi? Ser o assassino do filme? Como assim?

É simples. Peguemos, por exemplo, o plano-sequência que abre o longa, no qual o pequeno Myers ronda a própria casa e encontra-se prestes a cometer seu primeiro assassinato.

Através de um plano-sequência subjetivo, nos transformamos em Myers rondando sua própria casa, à espera do momento certo para entrar.

Ao adotar um ponto de vista subjetivo (no qual enxergamos apenas aquilo que Michael enxerga), Carpenter deixa claro que sua intenção inicial é criar no público uma rápida identificação com o seu personagem, ao mesmo tempo em que sugere certo mistério em relação à sua identidade.

Até aí, nada de tão estranho. Ruídos de uma coruja adornam uma noite densa e opressiva e a movimentação de Myers ganha contornos de brincadeira infantil ao ouvirmos sua irmã durante uma rápida troca de palavras com o namorado. "O Michael está por aí, em algum lugar", ela diz.

Mas tudo muda quando Myers, já no interior da casa, pega uma gigantesca faca de cozinha. "Opa, que porra é essa?", diria eu, ainda pequeno, em minha primeira visita ao aterrorizante subúrbio de Illinois. É nesse instante que o suspense entra em cena, potencializado pelo fato de que a escolha estética de Carpenter nos obriga a também "segurar" aquele objeto.

Suspense descrito por Hitchcock se potencializa no momento em que Myers pega a faca na cozinha.

Munidos da lâmina e, por isso, da certeza de que alguém vai morrer (informação exclusiva do espectador, não compartilhada com os outros personagens), passeamos pelos corredores do local, hesitamos ao perceber a movimentação de nosso "inimigo" e subimos lances de escadas que mais parecem uma mórbida contagem regressiva.

A cada degrau, o sentimento de bizarrice e desespero se atenua.

Namorado (possível vítima 1) vai embora sem perceber Myers, que sobe as escadas e encontra uma máscara de palhaço.

Depois de colocarmos a máscara de palhaço antes jogada no chão, uma porta se abre e tudo que queríamos naquele instante é poder avisar à garota que surge sobre o perigo que ela corre, ainda que não saibamos muito sobre sua pessoa. É essa mesma sensação de angústia que ganha contornos explosivos ao percebemos que o ato fatal que se aproxima também será executado por cada um de nós.

Carpenter deseja isso.

Um, dois, cinco, oito golpes de faca. Um corpo nu que se debruça bem à nossa frente. Nossos nervos estraçalhados como num bom e velho filme hitchcockiano. Um ícone do horror nasce a partir da sensação de morte que nos "toca".

Já com a máscara, "assassinamos" a irmã de Myers depois de nos desesperarmos por ela. Esse é o suspense carpenteriano.

De certa forma, o início de Halloween é brilhante justamente por definir o tom que carregará a narrativa, centrada, sobretudo, nas ações de seu protagonista. Perceba, por exemplo, que Carpenter procura ao longo do projeto transformar seu vilão numa figura onipresente e observadora, encontrando-se sempre à espreita e ameaçando suas vítimas a partir de uma movimentação sempre calma, ainda que violenta em sua regularidade.

Ora, não foi exatamente isso que sentimos na pele logo no início do filme?

O pequeno Myers, agora em terceira pessoa, se deparando com o início de sua carreira como ceifador.

É por isso que o modus operandi de Michael Myers o permitiu ser definido pelo cineasta como uma "máquina de matar" que reúne em si apenas ódio e força. Eu iria um pouquinho mais longe: para mim, o monstrengo é mesmo uma "máquina de suspense" muito bem alinhada e que surge como mais uma boa analogia capaz de fazer jus à dicotomia defendida por Alfred Hitchcock durante sua célebre entrevista.


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