O holocausto brasileiro: Memórias da Colônia de Barbacena

Giovanna Diniz
Feb 17 · 12 min read

O que acontece quando a maldade humana é agraciada pelo Estado?

“Crianças pelo chão, entre moscas. Nenhum brinquedo, um psiquiatra qualquer […] Pessoas aleijadas, arrastando-se pelo chão, feito bicho. Agrupadas para não serem pisoteadas na hora da comida. Esperando a maca, a liberdade somente possível através da morte. Um asilo medieval, de pedra e barras de ferro. Úmido, frio e indesejável. Celas e eletrochoques, e todas as torturas médicas. Nenhuma assistência ou calor humano. Como em um campo de concentração”. — Hiram Firmino, 1979.

Quem visita a cidade de Barbacena hoje em dia, com seus extensos campos verdes e seu cultivo de rosas espalhadas feito tapetes, jamais imaginaria que tal lugar fosse palco de uma das maiores atrocidades higienistas e segregativas já cometidas pelo próprio Estado brasileiro, com a conivência da classe médica e política do país.

“A gente sofria muito. Os pacientes ficavam nas celas, que tinham até rato. Tinha aquelas injeções grossas e a gente ficava impregnado [sob efeito de drogas]. A gente não saía, ficava só lá no pátio. Tinha também os choques.” — Elza Campos, sobrevivente entrevistada pelo jornal O Globo em 2010.

Inaugurado em 12 de outubro de 1903, o manicômio foi instalado na província em decorrência da antiga idéia — defendida até hoje por alguns médicos — de que seu clima ameno faria com que os doentes mentais ou tuberculosos ficassem mais quietos e menos arredios, supostamente facilitando o tratamento.

O hospital, em foto de 1905.

Enquanto o plano do Hospital Colônia era primariamente atender a pessoas com transtornos mentais, o local acabou por tornar-se um campo de extermínio para qualquer pessoa, não importando o que ela fizesse.

Enquanto 60 mil vítimas sucumbiram aos maus tratos, outros — poucos — sobreviveram para contar a história.

É o caso de Pedro “Perereca” Paulo Mendes, 67 anos, entrevistado pelo jornal local Vila de Utopia em meados de 2018. “Eu gastei quatro semanas indo a pé de Barbacena até Belo Horizonte, escondendo no mato. […] Bebi da minha urina para não morrer de sede. Se eu não tivesse fugido, hoje não estaria aqui”, disse ele ao participar do ato público em celebração do Dia Nacional da Luta Antimanicomial, que é comemorado desde 1987 em todo o país.

Na época, Pedro tinha 24 anos e vivia há cinco meses na Colônia. Até então, não fora diagnosticado com nenhum transtorno mental: De fato, cerca de 70% dos pacientes do Colônia não possuíam diagnóstico de transtorno psicológico algum: Muitos eram apenas alcoólatras, andarilhos, amantes de políticos, crianças indesejadas, epiléticos, inimigos políticos da Elite local, prostitutas, homossexuais, vítimas de estupro e pessoas que simplesmente não se adequavam ao padrão normativo da época, como homens tímidos e mulheres com senso de liderança ou que não desejavam casar-se.

Boa parte da população do Hospital Colônia também era de etnia negra.

Como o Colônia não tratava apenas pessoas da cidade, muitas vinham de fora, desembarcando de trem.

Em 1933, o escritor Guimarães Rosa, que trabalhou brevemente como médico no Colônia, chamou o lugar de trem de doido.

Anos mais tarde, em 1962, Rosa publicaria um conto inspirado na ocasião, intitulado “Sorôco, sua mãe, sua filha:

Não era um vagão comum de passageiros […], num dos cômodos as janelas eram cercadas de grades, feito as de cadeia, para os presos.[…] Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre.

A internação dessas pessoas se justificava pelo decreto presidencial 24.559 de 1934, baixado por Getúlio Vargas, no qual qualquer pessoa poderia solicitar a internação de alguém em um hospital psiquiátrico apenas com um atestado médico.

Art. 11: A internação de psicopatas toxicômanos e intoxicados habituais em estabelecimentos psiquiátricos, públicos ou particulares, será feita:

a) por ordem judicial ou a requisição de autoridade policial;

b) a pedido do próprio paciente ou por solicitação do cônjuge, pai ou filho ou parente até o 4º grau inclusive, e, na sua falta, pelo curador, tutor, diretor de hospital civil ou militar, diretor ou presidente de qualquer sociedade de assistência social, leiga ou religiosa, chefe do dispensário psiquiátrico ou ainda por algum interessado, declarando a natureza das suas relações com o doente e as razões determinantes da sua solicitação.

Em resumo: era preciso livrar-se da escória, do mal social e do incômodo em um local onde ninguém pudesse ter acesso.

“Quando chegavam ao hospital, as pessoas eram separadas “por sexo, idade e características físicas. Eram obrigados a entregar seus pertences, mesmo que dispusessem do mínimo, inclusive roupas e sapatos. (…) Todos passavam pelo banho coletivo, muitas vezes gelado. Os homens tinham o cabelo raspado de maneira semelhante à dos prisioneiros de guerra”. — Arbex

Seus documentos eram confiscados e os pacientes que não portavam suas identidades eram rebatizados pelos funcionários. Eram-lhes entregue um uniforme azul de brim, que não era suficiente para lhes proteger do frio da cidade.

Depois, eram separados entre dois grupos: os que podiam trabalhar e os que não tinham condições laborais — semelhante a logística humana empregada nos campos de Auschwitz.

Com o 24.559 aprovado, o número de pacientes aumentou consideravelmente: em 1960, havia cinco mil pessoas vivendo onde cabiam duzentas, como também já não haviam mais médicos na Colônia: escancarando aos quatro ventos o real — e óbvio — propósito deste.

Para lidar com a superlotação, as camas foram substituídas por capins, uma sugestão do chefe do Departamento de Assistência Neuropsiquiátrica de Minas Gerais, José Consenso Filho.

A proposta das “camas de capim” foi tão bem-sucedida que foi recomendada pelo Poder Público em 1959 para outros hospitais do Estado mineiro.

Os internos também morriam de frio: nas noites geladas no hospital, localizado na Serra da Mantiqueira, muitas pessoas tinham suas roupas molhadas e eram colocadas no pátio. Para tentarem sobreviver, ficavam todas juntas e revezavam os que ficavam no meio para as pontas, para suportar o frio. Também dormiam amontoados e muitas vezes os que ficavam na parte de baixo não sobreviviam, por terem sido sufocados.

Eles dormiam juntos em salas grandes sem cama. Todos tinham que se deitar sobre o chão do cômodo, que era coberto apenas por capim. Acordavam por volta das 5h da manhã e eram enviados para os pátios, onde ficavam até 19h, todos os dias. […] Barbacena é uma cidade muita fria. Até hoje tem temperatura muito baixa para os padrões brasileiros. Pessoas eram mantidas nuas nos pátios em total ociosidade.” — Arbex

Muitas mulheres choravam quando eram obrigadas a se despir para a triagem.

“Nus no corpo e na identidade, a humanidade sequestrada, homens, mulheres e até mesmo crianças viravam “Ignorados de Tal; (…) comiam ratos e fezes, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violentados até a morte.” — Arbex

As gestantes, forçadas a terem filhos advindos de estupros, adotaram uma medida tão marcante quanto desesperada: para proteger seus bebês, elas passaram a esfregar fezes em suas barrigas para tornarem-se repugnantes. Ao nascer, ao menos trinta crianças foram sequestradas e “adotadas” por “famílias de bem”: casais ricos — e brancos.

Além de serem forçados a trabalhar manualmente, os internos ainda precisavam lidar com torturas físicas e psicológicas, terapia de choque e duchas escocesas sem nenhuma razão aparente: tal tortura era aplicada com o propósito de servir apenas como castigo ou devido à perseguição oriunda de falta de afinidade entre pacientes e funcionários. Às vezes os eletrochoques eram tantos e tão fortes que a sobrecarga derrubava a rede do município.

Com o alto índice de mortalidade no Colônia, o cemitério próximo já não possuía mais espaço para comportar tantos mortos.

Visando uma alternativa, funcionários corruptos encontraram no tráfico de corpos uma maneira de amenizar a situação e lucrar com isso — diversas universidades ao redor do país encomendavam os restos mortais das vítimas do Colônia para seus Laboratórios Anatômicos, como a Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Quando a procura era baixa, os corpos eram dissolvidos em ácido: cerca de 1.823 tiveram esse fim.

“Não sei por que me prenderam. Depois que perdi meu emprego, tudo se descontrolou. Da cadeia, me mandaram para o hospital, onde eu ficava pelado, embora houvesse muita roupa na lavanderia. Se existe inferno, o Colônia era esse lugar”. — Antônio Gomes da Silva, sobrevivente.

Algumas pessoas tentaram denunciar o que estava acontecendo ali, mas sem sucesso: As autoridades eram omissas e a comunidade médica reprimia os profissionais que tentavam fazer algo a respeito. Nos anos 60, a revista “O Cruzeiro” fez uma matéria denunciando as condições do lugar e chocou o país — mas o tema logo caiu no esquecimento.

Basaglia, em foto de 1979.

Apenas em 1979, um ano após a revogação do AI-5, que Hiram Firmino, na época então jornalista do O Estado de Minas” conseguiu entrar pela primeira vez no local, fazendo uma reportagem que mais tarde lhe rendeu o prêmio Esso de Jornalismo. Tal reportagem (que pode ser conferida aqui) chamou a atenção de Franco Basaglia, psiquiatra italiano e teórico da Reforma Psiquiátrica que levou à abertura de todos os manicômios da Itália em 1973.

Franco veio ao Brasil em 1979 para uma série de palestras, sendo convidado pelo psiquiatra mineiro Antônio Soares Simone para visitar uma série de hospitais públicos daquele Estado; entre eles, o Colônia.

No final de sua visita, Basaglia convocou uma coletiva de imprensa e denunciou as condições desumanas do hospital, comparando-o a uma campo nazista.

A repercussão da denúncia aumentou a pressão sobre o poder público e ficou mais difícil impedir novas visitações, possibilitando as filmagens do documentário Em Nome da Razão, de Helvécio Ratton (1979).

Durante as filmagens, um dos internos segurou Ratton pelo braço e disse-lhe: “Sei o que vocês estão fazendo. […] Tirando foto de todo mundo. Assim, quando a gente morrer, as pessoas vão saber que estivemos aqui”.

O cheiro deste lugar é indescritível. É o cheiro de suor, de fezes, de sofrimento, de gente amontoada, de falta de higiene” — Helvécio Ratton

Somando tudo isso com as polêmicas entorno das declarações de Basaglia e as cenas retratadas no documentário, estabeleceu-se uma reestruturação da Reforma Psiquiátrica brasileira, que definiu novas diretrizes para a saúde mental, superando o modelo manicomial que perdurava desde a era Vargas: O Projeto de Lei 3657 em 1989, proposto pelo Deputado Federal de Minas Gerais, Paulo Delgado (PT), inspirou as diretrizes fortemente libertárias e igualitárias do SUS; e é componente importante, senão fundamental, do esforço da redemocratização no país.


O fechamento da Colônia ocorreu progressivamente durante a década de 80.

Alguns pacientes que sobreviveram à barbárie hoje recebem acompanhamento no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, ou em unidades do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) espalhadas pela região. Apesar da mudança, as sequelas dos tempos sombrios não permitem a ressocialização plena: não existe até hoje nenhuma investigação pela morte de mais de 60 mil mortes no hospital, além da venda de corpos para faculdades de Minas.

Esforços foram realizados afim de amenizar as consequências do episódio e cicatrizar feridas ainda abertas. A Lei 10.216, aprovada em abril de 2001, intensificou a melhoria nos tratamentos dos pacientes: o isolamento foi substituído pela convivência familiar e ambulatorial.

Art. 1o

Os direitos e a proteção das pessoas acometidas de transtorno mental, de que trata esta Lei, são assegurados sem qualquer forma de discriminação quanto à raça, cor, sexo, orientação sexual, religião, opção política, nacionalidade, idade, família, recursos econômicos e ao grau de gravidade ou tempo de evolução de seu transtorno, ou qualquer outra.

Porém, como todos sabemos, a superlotação é algo cada vez mais recorrente no país.

Maurício Leão, presidente da Associação Mineira de Psiquiatria (AMP), considera necessária a manutenção dos hospitais, principalmente para o atendimento aos casos mais graves: “Os próprios documentos do ministério preveem 0,45 leitos por cem mil habitantes e hoje não temos nem um décimo disso. […] Fechando leitos sem criar opções para atendimento de casos graves, podemos dizer que no momento atual vivemos um período de desassistência na saúde mental”.

De acordo com a CBN:

Com a redução dos leitos, a rede de assistência acaba ficando sobrecarregada. Em Minas Gerais são pouco mais de 300 centros de Atenção Psicossocial que atendem 200 mil pacientes por mês. O psicólogo Diego Pastana, especialista em Saúde Mental, reivindica mais atenção das autoridades ao sistema. ‘Temos vivido uma carência de alguns insumos como medicamentos e inclusive de RH, em alguns pontos da nossa rede de atenção. E quando um trabalho é organizado em rede, se um dos pontos está fragilizado, outro vai sofrer os reflexos desta defasagem’.

Diante desse cenário, o maior prejudicado acaba sendo o paciente. Até o ano passado, cerca de 500 pedidos de internação compulsória aguardavam liberação de vagas para serem cumpridos em apenas um dos hospitais psiquiátricos de Belo Horizonte. Esse tipo de internação é determinada pela Justiça quando a pessoa não consegue ter domínio sobre sua condição psicológica e no estado pode demorar até cinco anos para ser cumprida.


“Tem gente que não sabe a história deste hospital. E isso não é coisa que se pode esquecer”. — Jairo Toledo, psiquiatra e ex-diretor do Hospital Colônia de Barbacena.

Como se já não bastasse o debate entorno da Lei da Reforma Psiquiátrica, temos que aguentar o fato da CIT (Comissão Intergestores Tripartite) ter aprovado em 2017 a resolução nº34, praticamente resgatando o modelo manicomial e dando início a um processo de desmontagem de todo o trabalho construído ao longo de décadas no âmbito da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Em 2019, outro baque: a volta dos eletrochoques. Isso porque a internação volta à centralidade e o atendimento toma um rumo inverso do que estava sendo feito pela Política Nacional de Saúde Mental, por meio da desospitalização. Tamanha barbárie só nos prova que a injustiça feita pelos grandes é cíclica, não linear.

Só a omissão médica e estatal foi capaz de permitir que sessenta mil brasileiros inocentes morressem nas piores condições possíveis, com seus corpos sendo descartados e mais tarde sendo vendidos para serem dissecados ou simplesmente dissolvidos em ácido e tendo sua existência completamente apagada: em suma, um genocídio supervisionado.

O abuso físico, psíquico e moral das vítimas se perpetuou por quase um século. As mortes registradas quase superam os números das sangrentas ditaduras do Chile e da Argentina, que registraram a soma de 65.000 mortos. A ditadura brasileira instaurada em 1964 contribuiu para o ocultamento e perpetuação desta cruel realidade, e as sequelas desta continuam matando e torturando novas vítimas, todos os dias: sequer precisam encostar um dedo nelas para isso. A omissão e o descaso com seus sobreviventes e descendentes já são duras o bastante.

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la.” - Edmund Burke


Um agradecimento especial à jornalista e defensora dos direitos humanos Daniela Arbex pelo excelente livro “Holocausto Brasileiro”, que me inspirou a escrever este artigo. Obrigado. Obrigado pelo seu longo e extenso trabalho em escancarar atrocidades que pessoas influentes tentaram — durante anos — esconder por debaixo dos panos. Créditos também para: Jornal GGN, Caldeirão Político, IG, e CBN, cujas informações foram cruciais para a realização deste artigo.

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as vezes escrevo. não sei usar crase.

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