O Homem Mais Rico do Mundo Agora Quer Comercializar a Lua

Aqui está a carta aberta que escrevi para ele

Jeff Bezos, o fundador da Amazon e Blue Origin, acena para a platéia durante entrevista com Alan Boyle na Conferência Internacional de Desenvolvimento Espacial em Los Angeles (Keith Zacharski/In The Barrel Photo)

O desenvolvimento tecnológico, e seu papel no serviço à humanidade (ou desserviço), é um assunto que eu gosto, valorizo, e pesquiso muito. E eu acredito que você também, Sr. Jeff Bezos, tendo em vista que sua empresa Amazon é uma ‘gigante’ do comércio digital. Entretanto, estou muito preocupada com sua nova aventura/empreendimento tecnológico– a Blue Origin, e o seu interesse comercial em explorar o espaço.

Você discutiu o propósito e a missão da Blue Origin no início deste ano de 2018, na Conferência Internacional de Desenvolvimento Espacial em Los Angeles, nos Estados Unidos, e pareceu bem otimista. Mas eu preciso dizer: você está falhando em ver que este plano de exploração espacial não contribuirá realisticamente para melhorar vidas e nem a saúde do nosso planeta Terra.

Por isso, decidi escrever esta carta aberta, na esperança de aconselhar-lhe e prevenir que você/sua empresa cometam graves erros neste planeta e, possivelmente, muito além.


Na conferência em LA, você disse que a Blue Origin trabalhará na construção de uma “grande infraestrutura de base no espaço”, incluindo irá: “construir um veículo de pouso lunar realmente capaz e enviará rovers para entrar nas crateras escuras…a fim de constatar o que há lá, em quais quantidades, e o quão difícil será extrair”– os recursos da lua. Você também mencionou que os esforços futuros serão para desenvolver “veículos cada vez maiores”, e possivelmente “colônias lunares”, o que poderá permitir que pessoas “voltem à Lua mas desta vez permaneçam”.

No meu ponto de vista, o seu discurso indica que esta missão espacial está voltada para: extração de recursos naturais e a provisão de bens de consumo. O que então sugere que é um plano de negócio bem tradicional, mas a ser implementado fora da Terra. Se assim for, será preciso muita cautela da sua parte, pois esse modelo operacional de negócio tradicionalmente perturba ecossistemas e a nossa biodiversidade.

A extração de recursos naturais aqui na Terra, por exemplo, impulsionada pelo intenso desenvolvimento industrial das décadas passadas e presente, já têm causado danos ambientais críticos; incluindo, a destruição de habitats da vida selvagem e comunidades indígenas, a perda de inúmeras espécies de animais e plantas, e a geração de quantidades significativas de lixo e poluição que agora contaminam fontes vitais neste planeta como solo, ar e água.

Ainda, o último relatório do Painel de Recursos Internacionais das Nações Unidas mostra que, embora a população mundial total tenha dobrado de 1970 até hoje, a extração global anual de recursos da natureza mais do que triplicou desde então, principalmente para atender ao intenso uso material de grandes infraestruturas de provisão (o ‘gigante’ comércio de produtos para consumo). E se essa tendência for mantida, os níveis de extração aumentarão de forma rápida e perigosa, o que poderá agravar os ‘pontos de exaustão’ de recursos naturais, afetando a qualidade e a disponibilidade de recursos dos quais dependemos aqui na Terra.

Portanto, a fim de prevenir que atividades econômicas– pautadas na exploração da natureza– impactem a civilização humana de forma (ainda mais) prejudicial, é necessário que haja uma mudança fundamental sobre como fazer negócios em/para nossas sociedades, em vez de simplesmente mudar onde o negócio sujo– sem limites ou metas sustentáveis– pode continuar a ser feito. Caso contrário, se o modo tradicional de exploração e desenvolvimento econômico for aplicado fora da Terra, será apenas uma questão de tempo até outros astros e planetas começarem a esgotar seus recursos naturais também, e para a humanidade ser promovida a uma imagem de espécie extramente hostil e causadora de destruição interplanetária.

Aliás, você está a levar em consideração que as viagens espaciais podem aumentar o impacto sobre ecossistemas naturais e a saúde humana, já que está comprovado que foguetes liberam emissões que afetam negativamente o clima e a camada de ozônio (que protege a vida na Terra)?


Você, Sr. Bezos, também mencionou na conferência que um marco importante dessa missão empreendedora será “reduzir o custo de acesso ao espaço”.

Mas ai eu pergunto, até que ponto a facilitação do acesso humano a solo extraterrestre atenderá significativamente as necessidades das nossas sociedades atuais e futuras– a fim de melhorar o bem-estar e a qualidade de vida da maioria…

As últimas descobertas dos experts da Organização das Nações Unidas mostram que grandes parcelas da população global ainda não têm acesso ao atendimento de suas necessidades básicas e direitos humanos:

-1 em cada 9 pessoas passam fome crônica, ou seja, são 815 milhões de pessoas que vivem famintas, e estão subnutridas, em todo o mundo;

-4 em cada 10 pessoas são afetadas por escassez de água, enquanto 4,5 bilhões de pessoas ainda não têm acesso a serviços de saneamento;

-1 em cada 5 crianças no mundo todo estão fora da escola, e 103 milhões de jovens não possuem habilidades básicas de alfabetização;

-Metade da população mundial carece em acesso a serviços essenciais de saúde, incluindo todos os anos– 1,7 bilhão de pessoas precisam de tratamento para doenças tropicais negligenciadas (um dos problemas de saúde mais graves da atualidade, embora amplamente ignorado); 5,9 milhões de crianças morrem antes do seu quinto aniversário (principalmente devido à falta de acesso de suas famílias a saneamento e higiene básica); mais de 3 milhões de pessoas morrem devido à poluição (quase 3x mais mortal que acidentes em estrada hoje em dia); e mais de 300.000 mulheres ainda morrem de complicações na gravidez e no parto.

Como você pode ver, há um incrível número de pessoas experimentando a vida em modo ‘sobrevivência’ no aqui e agora. Portanto, em vez de desenvolver uma infraestrutura que permita a algumas pessoas terem acesso ‘exclusivo’ à órbita espacial, certamente é MUITO mais responsável, ético e urgente investir na melhoria da qualidade de vida de mais da metade da população mundial– os humanos que já foram deixados para trás de formas desnecessárias e cruéis. Até porque esses humanos não necessariamente escolheram sofrer na vida, mas estão, pois os indivíduos/empresas que desenvolvem e controlam as infraestruturas de provisão de bens e serviços em nossas sociedades, ainda têm como melhor interesse o lucro e a acumulação de capital invés do bem comum e a prosperidade sustentável.

Agora eu pergunto, mesmo se o custo de acesso ao espaço fosse consideravelmente reduzido ao nível do consumidor, quem realmente poderia se dar ao luxo de pagar pelos produtos/serviços da Blue Origin?


Na conferência, quando questionado sobre quanto uma viagem em um dos seus veículos espaciais provavelmente custará, você respondeu: “Não sabemos o preço da passagem ainda. Não foi decidido.”

Obviamente, os custos para transportar pessoas em segurança e a distâncias muito longas são extremamente altos. Por isso, é bem provável que o preço da passagem para o espaço seja significativamente alto e até mesmo, uma fortuna para o consumidor médio. Se assim for, isso limitará fortemente a inclusividade do seu negócio, e irá impor barreiras de acesso ao espaço para quase toda a população mundial, já que atualmente a maioria das pessoas/consumidores estão afetadas por algum nível de dificuldade financeira.

Nos Estados Unidos apenas, o seu país de residência, há tantos problemas voltados ao consumidor que os grandes esforços de desenvolvimento humano e econômico da nação agora se encontram ameaçados. Há oficialmente 6,7 milhões de desempregados no país hoje e quase 2 milhões de trabalhadores com salários iguais ou inferiores ao mínimo federal, de $7,25 (dólares) por hora. Além disso, os níveis de endividamento doméstico dos consumidores estão mais de meio trilhão de dólares mais altos do que no ano anterior, inclusive, a instabilidade da economia americana está mais crítica agora do que no período da Grande Recessão. Portanto, concluo que milhões de americanos não poderão comprar uma passagem para ao espaço, nem agora e nem num futuro próximo.

Acredito também que uma quantidade considerável de chineses não se juntará a esta aventura espacial, já que muitos deles estão a receber salários muito baixos a trabalhar nas fábricas de fornecimento para sua empresa Amazon na China, o que não está a ser suficiente nem para cobrir todas as despesas básicas mensais dos trabalhadores.

Além do mais, você sabia que neste mundo 1 em cada 10 pessoas vivem com menos de $1,90 (dólares) por dia? São quase meio bilhão de pessoas, que nem se quer podem pagar uma passagem de ônibus para ir de casa ao trabalho ou a algum lugar próximo, quiça à lua.

De fato, mais da metade da população global se encontra em situações financeiras instáveis porque, ao contrário do que você disse na conferência, grande parte da riqueza no mundo NÃO está sendo criada pela troca justa de valor. Atualmente, apenas 1% da população possui tanta riqueza quanto o resto do mundo todo. Mas isso tenho certeza que você já sabia, afinal, és considerado a pessoa mais rica neste planeta hoje.

Assim, como você deve imaginar, bilhões de pessoas/consumidores ao redor do mundo provavelmente não poderão arcar com os altíssimos custos de viajar ou se mudar para a órbita espacial. Isso não é exatamente um problema para as pessoas, pois acredito que a maioria não aceitará correr o risco de ir ao espaço sideral em primeiro lugar, nem mesmo de graça. E especialmente se não houver Internet ou pizza lá.

Mas isso pode se tornar uma questão (anti)ética para você: se a Terra eventualmente se tornar inóspita, você pretende arcar com os custos de enviar toda a nossa civilização para fora deste lugar, ou você deixará para trás os seres humanos mais pobres (incluindo as espécies que não têm salário) para sobreviver pelos seus próprios meios?

Aliás, é importante considerar que muitos cidadãos e líderes mundiais defendem que as missões espaciais devem ser benéficas para toda a humanidade, e não apenas para atender o interesse do setor privado, porque o ambiente natural do espaço é considerado um bem público e é uma herança mundial.


Em um momento durante a conferência espacial em LA, você afirmou que “se permanecermos neste planeta, não é necessariamente extinção. Podemos defender este planeta, mas a alternativa é estase. Nós teremos que parar de crescer…[portanto] nós teremos que deixar este planeta. ”

Na minha perspectiva, o que você está dizendo basicamente significa que as pessoas mais ricas deste mundo vão investir em explorar o espaço– invés de ajudar a arrumar a nossa ‘casa’ primeiro e antes de tudo– para que possam continuar a crescer seus lucros empresariais e riqueza desproporcional de/em outro lugar, além daqui.

Neste ponto, está bem claro para mim que o propósito da Blue Origin tem pouco a ver com salvar a humanidade e/ou proteger os ambientes naturais da Terra e sua biodiversidade. Na verdade, esta missão espacial parece estar orientada para (ainda mais) crescimento econômico e desenvolvimento tecnológico, sem preocupação com os impactos ambientais e sociais a serem gerados– baseados nos mesmos objetivos ilimitados e insustentáveis que atualmente estão a causar mais prejuízos que benefícios aos seres vivos e ao nosso planeta finito.

Entretanto, se medidas efetivas não forem tomadas para resolver as críticas situações do nosso mundo de hoje, antes cedo que tarde, como reduzir a extrema degradação ambiental e as desigualdades de acesso a saúde e riqueza, então as consequências serão mais instabilidades econômica, uma força de trabalho global mais vulnerável e improdutiva, e MUITOS conflitos sociais ao redor do mundo.

Na verdade, essas tendências devem preocupar mais as pessoas bem afortunadas, que terão muito a perder e a reconstruir, do que as mais pobres, que já estão adaptadas à incerteza e ao caos na vida cotidiana.


Então, que tal se tornar parte da solução aqui e agora?

Há várias maneiras que você, Sr. Bezos, pode investir seus bilhões de dólares para realmente dignificar vidas, melhorar a saúde de ambientes naturais e, por conseguinte, ajudar a contrabalançar as tendências insustentáveis que estão a afetar negativamente este mundo. De soluções tecnológicas que reduzem as perdas e o desperdício de cadeias de suprimento, às inovações sistêmicas que previnem escassez no aproveitamento de alimentos e água, ao uso de energias renováveis– melhores formas de fazer coisas em sociedade já estão sendo testadas e adotadas em vários cantos deste globo.

Enfim, se esse negócio de super-veículos não funcionar para você, saiba que os Pequenos Veículos– como motos elétricas, bicicletas e skates– agora representam uma indústria em expansão, e uma oportunidade de negócios que pode levar a melhorias significativas e urgentes em cidades populosas (e poluídas por carros) neste planeta.


Quero encerrar esta carta citando suas próprias palavras sábias, Sr. Bezos. Eu realmente espero que você seja o tipo de pessoa que ‘faz aquilo que prega’.

Pergunte a si mesmo a questão mais fundamental: A minha missão está contribuindo para melhorar o mundo? Tem certeza disso? Procure desconfiar o tempo todo. E se puder, mude sua missão. Faça algo novo.”

Foto da Terra vista do Espaço By NASA/NOAA/GSFC/Suomi NPP/VIIRS/Norman Kuring

Obs: Todos os links de referência neste texto são em Inglês, já que o texto foi originalmente escrito nesse idioma. Em alguns deles, é possível encontrar legendas ou tradução em Português.

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