O IMPORTANTE É A GAMBIARRA

Aquele que, na infância e juventude, tem a felicidade de ler todas as revistas de Asterix, o Gaulês, gera para si uma série de referências naquela que é, provavelmente, a obra pop mais repleta de outras referências de todos os tempos. No Brasil, onde os tradutores da editora Record lá pelos anos 80 eram uns sacanas, havia ainda mais referências, em nomes como Cinemapax e Pedibis, só para citar dois exemplos.

O meu preferido não tem o nome de Asterix no título: Obelix & Cia, provavelmente a melhor aula de economia e marketing que alguém pode ter antes da faculdade. Está tudo ali: lei da oferta e da procura, aumento de produtividade com redução de custos, branding do produto, promoção, preço e praça. Escrito na década de 1970, parece até ter dedo de Philip Kotler — mas sabemos que não o tem. Enfim, o que quero destacar deste notável livro em quadrinhos não é nem o tema principal, o enredo, e sim algo que compõe o detalhe: como os romanos são engolidos pela cultura de esculhambação gaulesa, quando na verdade queriam fazer o contrário.

A história começa com uma troca de exército: legionários romanos novinhos em folha, recém-contratados, chegam para ocupar um dos campos que cercam a aldeia de loucos gauleses. Quando chegam, dão de cara com a equipe anterior: todos de barba por fazer, com uniforme pela metade, varais por todo lado, gente jogando carteado, etc, uma antítese da tropa que chegava. E o texto explica: os caras estão só esperando serem chamados de volta, ou seja, só esperando a rendição.

Quando chega, a rendição acredita que vai se encher de glória, que vai conquistar a aldeia — mas Obelix, sozinho, dá porrada em todo mundo. O exército recua. E aí, Roma vem com a arma secreta: sestércios para financiar uma pequena sociedade de consumo, comprando menires de Obelix e peixes do Ordenalfabetix. Bom, o resto é história: a tropa de rendição logo se rende ao deixa-passar geral e, no frigir dos ovos, a tal sociedade de consumo se desmancha e faz até Roma balançar em sua economia.

E é este último ponto que me faz pensar nisto de Rio de Janeiro sediar Jogos Olímpicos: passamos sete anos falando em questões governamentais, administrativas, de várias instâncias, como a parte mais importante de tudo — quando, na verdade, o que pode acontecer mesmo é a tropa chegar e já pedir rendição. Sério. O Rio pode quebrar o mundo. Porque a coisa no Rio é realmente diferente, à parte colunistas que sentem o cheiro de pipoca doce por aí. Cara, na boa: o Rio é a CAPITAL DA GAMBIARRA. Sabemos disso há anos, e este é uma espécie de legado da nossa miséria. Jogos Olímpicos no Rio? Cara, não se trata de governo, mas sim de que esta é a única cidade onde o sujeito vai estacionar e ouve uma ORDEM:

- Doutor, deixa solto.

Sim, o carro é seu, o IPVA é você que paga, assim como o IPTU, mas tem um malandro que tá coordenando o estacionamento e que fala que você tem que deixar seu carro solto, ora.

O Rio é a cidade do VALEU, PILOTO. O ônibus tá prestes a subir o viaduto, mas o malandro de sandália havaiana e barba por fazer pediu pro “piloto” do ônibus dar uma freadinha rápida que ele salta rapidinho, e faz isso com o grito de VALEU, PILOTO. Detalhe: a manobra feita talvez gerasse cadeia em Nova York e pena de morte em Ryad.

O Rio é a cidade onde se fala “À BANGU”, sim, com crase, e nada contra o bairro ou o clube, mas esta é uma expressão que quer dizer apenas o seguinte: não tem hora, não tem método, organização ou comando. É “À BANGU” mesmo, começa aí do jeito que dá. É como GAMBIARRA, já citada. O Rio é a cidade onde mais deve ter GAMBIARRA, uma palavra que, tal e qual “saudade”, não existe em inglês. “MALUCO, FAZ UMA GAMBIARRA AÍ QUE FICA NA BOA, PRECISA IR COMPRAR A PEÇA NÃO, PORRA” — esta é uma frase tão típica do carioca quanto “Aê aê aê ê ê ê ê ôôô” é para o soteropolitano. E registre-se: volta e meia empresas e autoridades públicas organizam operações de combate a gambiarras — você imagina em Londres uma grande operação para combater ligação clandestina de eletricidade ou água? Não, né? Aqui no Rio tem.

Essa do prefeito dizer que vai mandar um canguru para a delegação australiana cuja representante reclamou até de VAZAMENTO DE GÁS é uma parte deste Rio de Janeiro à Bangu. Onde você imagina acontecer isso? Alguém reclama de vasos sanitários quebrados e suspeitas de vazamento de gás e o líder, o gestor, dá uma zoada? E se fosse a delegação da Argentina? Iria mandar um alfajor? O gambiarrismo está nas nossas veias, tanto que afeta até o prefeito — vide as várias obras entregues com problemas e a ciclovia que caiu. É algo que vem de séculos e precisa ser mais bem explicado. E é algo tão forte que pode impregnar o resto do mundo via Jogos — não é apenas o vírus da Zyka que terá a chance de se espalhar por todos os continentes: é o gambiarrismo.

Britânicos aprenderão a não chegar na hora e a dizer “vamos marcar” sem jamais marcar; americanos vão comer hambúrguer podrão nas ruas do Rio e passar mal; franceses vão aprender a puxar conversa longa com alguém no elevador; hindus levarão para seu país o costume estranho de ouvir música ruim em alto volume dentro de lojas (há Lojas Americanas na índia?); e quanto aos terroristas, todos já fizeram mil piadas sobre o quanto vão penar na cidade — até porque teriam que chegar pelo Aeroporto Internacional e dali passar pelo Complexo da Maré, que desafia qualquer grupo terrorista em quantidade de armamento.

Muito se falou em legado olímpico, em “como Barcelona melhorou depois dos Jogos” (tenho dúvidas), mas ninguém contava com essa: é mais provável o Rio deixar um legado para os Jogos do que o contrário. O importante é competir, mermão!