O jeitinho brasileiro de discursar malandramente

Alta concorrência entre malandros, baixa incidência de manés

Rodrigo Goldacker
Feb 24, 2017 · 9 min read
Malandros até no maior clássico nacional. Imagem de Arthur Duarte, para a ANCINE, link para post original do artista no Behance aqui.

O maior abismo do brasileiro é aquele entre o que ele fala e o que ele faz.

E apesar de isso envolver a todos nós e, paradoxalmente, também a nenhum de nós (porque somos todos brasileiros ao mesmo tempo em que o brasileiro não existe: voltarei a isso logo), acho que entender o microcosmo daqui permite criar um ótimo paralelo para entender a situação macro mundial: no fim do dia, o mundo todo se comporta meio que como se fosse só um gigantesco Brasilzão. Quero mostrar meu ponto.

Vão ser três meus assuntos aqui: quem é esse tal brasileiro; como e por que ele fala como fala; e o que o mundão (e você) tem a ver com isso. Vamos lá:

1. O brasileiro é a inexistência desse tal brasileiro

O maravilhoso nome dessa foto (desse banco de imagens aqui), que apareceu entre os primeiros resultados quando googlei “brasileiro”, é “homem brasileiro feliz”. Quantos brasileiros são assim?

Nunca existiria um “Make Brazil Great Again” por um simples motivo: o Brasil é, essencialmente, um país pós-moderno.

O filósofo francês Jean-François Lyotard dizia que uma das características mais marcantes da pós-modernidade seria a crise das grandes narrativas. Isso envolve a morte da figura de heróis nacionais e, principalmente, a morte das narrativas de identidade de uma nação. Para o brasileiro isso não é nenhuma novidade: essa crise para nós é sempiterna porque simplesmente não existe um “passado mítico” em nosso eterno “país do futuro”. Falhamos diversas vezes nas nossas tentativas de criar algo assim e agora, com a Internet e os questionamentos sobre tudo e sobre todos, é extremamente improvável que consigamos.

Sobrevivem aqui apenas as narrativas de nicho, todas frágeis e de apelos restritos somente às suas bolhas. Mesmo os mitos de retomada que alguns volta e meia desenvolvem no Brasil, tentando se aproveitar da estratégia trumpiana (a “gloriosa ditadura” para alguns; a “ascensão lulista da classe C” para outros; os “cinquenta anos em cinco” em outras cabeças; e qualquer outra coisa que qualquer um queira, em qualquer outro lugar…), não funcionam bem porque são muito restritos e recentes: contém registros demais do que de fato foi para que consigamos de alguma forma fantasiar os eventos. Não só, se uma narrativa nasce hoje em uma bolha, pelo princípio da pós-verdade, ela nunca irá sobrepor as narrativas vigentes das outras: a gente não se convence mais de nada que venha dos links de outras redes que não a nossa. Damos mais crédito (e temos lá nossa razão para isso) aos links que vêm do nossos amigos confiáveis do que aos que vêm dos grandes portais, da mídia tradicional ou do governo.

Não existe um “solo comum” no nosso imaginário brasileiro: os bandeirantes são heróis, na visão de alguns, ao mesmo tempo em que são pura e simplesmente assassinos, na visão de outros. Assim, não existe uma “identidade brasileira”: os rótulos e os estereótipos do povo não se vestem bem aqui e servem mais para “inglês ver” do que para de alguma forma tentar criar um sentido de união entre um gaúcho e um sergipano. Não existe aqui um grande grupo coeso, a tal nação brasileira unida por objetivos comuns. Existem, sim, vários grupinhos aqui e ali, cada um interessado no seu próprio umbigo.

Isso tem uma série de raízes e razões:

  • Passa pelo encontro de múltiplos povos numa nova terra e o processo difícil de assimilação e de união entre estas diversas culturas (dificultado ainda mais pela desigualdade, pelo preconceito e agora também -quem antes imaginaria?- pela Internet);
  • Pela falta de uma tradição, pelos diversos erros e fracassos da mídia nas suas tentativas de criar essa unidade (a desidentificação do brasileiro com o estereótipo brasileiro foi gravemente acentuada quando tentamos convencer um país continental de que todos eram parecidos com os lindos atores cariocas do Projac globista);
  • Pelo também fracassado mote de criar essa unidade através do esporte, tentando convencer sergipanos e gaúchos de que ambos eram um único e idêntico Neymar;
  • E pelo apelo das culturas externas, especialmente a norte-americana.

Se todos os brasileiros pesquisassem “brasileiro” no Google imagens, a porcentagem dos que se sentiriam semelhantes às pessoas das fotos é uma minoria irrisória.

E essa desidentificação também tem aspectos positivos, além dos negativos: lidar com isso é mais um desafio que temos do que, de fato, um panorama pessimista e apocalíptico. Se chorar o leite derramado da nossa falta de heróis nacionais não adianta, que tentemos fazer o melhor com o cenário que temos. O que nos leva para:

2. Nosso contrato social é a malandragem

A percepção que Disney, um outsider, teve da “alma brasileira” é essa. Daqui.

O Seu Madruga é um mexicano e o Zé Carioca é um papagaio.

Mesmo assim, eles são retratos muito mais efetivos e identificáveis para uma grande parcela da gente dessa terrona do que aquele “homem brasileiro feliz” da foto do banco de imagens. Isso é resultado direto do que eu abordei no primeiro item: em um país onde todos os pequenos grupos se identificam somente com eles mesmos, a única característica comum a ser compartilhada por todos é a maneira individualista com que lidam uns com os outros. É uma espécie de “egoísmo partilhado”, onde diversos famintos leões egocêntricos tentam coexistir num mesmo prédio sem se matar ou demolir tudo, só porque pior do que ter que dividir seria ter que ficar sem.

Não é só de se lamentar que o Brasil não tenha desenvolvido direito suas tais “grandes narrativas”, justamente porque elas sempre foram ferramentas de manipulação para o poder vigente estabelecer controle. A primeira coisa que o nazismo fez foi exatamente construir e disseminar seus mitos e nos deu um bom exemplo do que acontece quando um povo é suscetível demais a se identificar com isso.

Aliás, esse é um paralelo interessante de se considerar: por que o povo alemão foi tão ingênuo em cair nessa enquanto o brasileiro, mesmo sem estudos, sempre foi intuitivamente safo e com maior resistência diante dessas narrativas? A resposta também passa pela dificuldade de identificar e personificar um protagonista brasileiro para essas histórias. O mais próximo de um Os Lusíadas que o brasileiro tem é a malandragem de Macunaíma. De novo: este é um traço que adoramos ver nos nossa cultura, do “malandro é malandro e mané é mané” do Bezerra da Silva (que coincidentemente faria aniversário nessa semana, aliás) ao Agostinho Carrara, passando ainda pela malemolência do nosso malandríssimo futebol arte.

Por aqui, tão heterogêneos que somos, não temos tantos pontos de semelhança para que a identificação seja uma arma tão poderosa; o único elo que temos é esse “perfil malandro” que é sempre o de quem segura a arma da identificação, não o de quem é atingido por ela. Diferente do “estereótipo ariano” nazista, artificial e sintético, pré-planejado, nosso “estereótipo malandro” nasceu orgânico, acidentalmente. Os alemães adoravam o “ariano” e os criadores mais ainda, porque se beneficiavam muito da existência dele. Odiamos o “malandro” porque a disseminação dele não beneficia a simplesmente ninguém: era para ser segredo, era para ser só nosso. Que droga: fomos desmascarados!

A doçura carinhosa da educação brasileira e nosso dom inato tanto para a diplomacia quanto para a publicidade vêm do mesmo lugar que nosso jeitinho: a tentativa de, na fala mansa, tentar "manezar" os outros para empreendermos nossas malandragens. Não caímos no mito alheio porque todos estamos tentando criar os nossos próprios para manipularmos uns aos outros. Ao mesmo tempo, somos o país do papinho e o país onde ninguém cai no papinho de ninguém.

O problema é que aqui os grupos são muito pequenos e frágeis e suas “grandes narrativas” são, se muito, historinhas: tem muito pouco mané para muita gente malandra. Viver no Brasil é praticamente um curso intensivo de maciota hipócrita porque quando usamos de abrangências como “o brasileiro deveria fazer tal coisa”, não estamos nunca falando de nós mesmos: o brasileiro sobre o qual discursamos é sempre o outro, enquanto estamos sempre tentando convencer outros grupinhos de acordo com os interesses do nosso.

Ainda assim, mesmo aos trancos e barrancos e capengando, esse Brasil segue de pé de algum jeito. Tanto quanto o mundo, igualmente aos trancos e barrancos, também segue. Como e por quê?

3. Ninguém gosta muito da ONU

Daqui.

Eu tive a ideia de fazer esse texto quando percebi que o sentimento de pena que eu sinto pela ONU é muito parecido com aquele que sinto pelo Estado brasileiro.

O que ambas estão fazendo é basicamente a mesma coisa: tentar nos convencer, amedrontadas e egoístas criaturinhas tribais, a abandonarmos nossas "tribinhas" para ingressarmos em tribos maiores. E isso é um desafio enorme porque quase ninguém quer fazer essa merda.

O que a ONU e o Estado brasileiro vendem são grandes narrativas para experts em grandes narrativas: de um lado estão líderes de grandes grupos, as nações (russos, americanos, chineses, coreanos, ingleses, alemães, brasileiros, argentinos….) e líderes de pequenos grupos, as mini-nações (todos os quase infinitos grupos, colônias de imigrantes e nichos do Brasil) de outro. Tentar "manezar" os mais malandros dos malandros resulta num problema de confiança: e se quem controlar essa historinha (a ONU, o Estado) estiver mal intencionado? Eu que não vou sair do meu grupinho para me arriscar no grupão dos outros…

Mas tanto a ONU quanto o Brasil insistem em seguir existindo, apesar de todas as suas dificuldades: nós ainda não começamos guerras atômicas e nem dividimos o Brasil em paisecos menores. E o motivo volta para a metáfora que apresentei no começo do segundo item: pior do que ter que dividir é ter que ficar sem. A maioria de nós não gosta muito da ONU nem do Brasil, mas também não queremos que eles acabem. Por dentro, não nos identificamos nem um pouco com eles; mas por fora tentamos mante-los de alguma maneira porque nada garante que conseguiríamos construir um prédio melhor se destruíssemos esse que já temos.

O Brasil e o mundo parecem aos poucos estar superando seus cernes de malandragem. Não os rejeitando: é uma triste ilusão imaginar que algum dia atingiremos o idealizado tipo de cultura ética que supomos que exista em certos países desenvolvidos, no Brasil, ou a do tipo mais elevado e utópico ainda que almeja a ONU; mas em um momento em que malandros comem uns aos outros numa guerra que destrói somente a todos eles, e em que cada vez menos manés úteis são massa de manobra, mais gente em São Paulo votou branco ou nulo do que votou no último prefeito eleito. Não que seja essa a solução: mas já mostra que o contingente de gente que não é nem malandra nem mané está crescendo.

Porque malandro sem mané não é nada: a verdadeira e maior crise do sistema brasileiro é essa escassez de manés. O atual desprezo dos malandros pela opinião pública e seus desesperos ansiosos em tentarem fazer tudo que for possível antes que caiam provém justamente de saberem que estamos finalmente superando a dicotomia que imperava e que dizia termos de ser um dos dois: entre malandro e mané, agora podemos ser nenhum. Não somos mais convencidos tão facilmente com papinho e eles dificilmente voltarão outra vez às posições onde estão agora.

Muito malandro ainda vai fazer merda nesse processo antes de cair; muito mané vai se afundar junto. Mas no fim só vai sobrar quem não for nenhum dos dois. Daí o Brasil vai conseguir, finalmente, ser o país do futuro que nasceu pra ser, superando enfim toda essa era obscura de sua história. Sem que tenhamos que mudar nada, aliás: simplesmente por um processo bem natural e intrínseco, automático até, de purificação orgânica, seleção natural. Esse caminho é o único viável de ser trilhado, a única futura consequência possível para nosso presente enquanto causa. Podemos ficar relaxados: vai dar certo no final e nem depende mais da gente. Contudo, o nosso amadurecimento passa tanto por parar de contar historinhas quanto por parar de acreditar nelas. Tipo esse migué que mandei nesse último parágrafo sobre tudo se resolver sozinho, sem nossa participação efetiva. Mas que baita duma historinha, viu. Se unir não significa ser ingênuo: se você desconfiou desse meu papinho é porque estamos no caminho certo.

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Rodrigo Goldacker

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Termos e silêncios alternados.

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