“O Lixeiro” e O Subúrbio da Tecnologia

E lá vamos nós voltar a falar sobre Ficção Científica. Claro, porque escrever é ótimo, ainda mais quando é sobre um assunto de sua preferência. Meus textos são publicados nos dias 10, 20 e 30 (a partir de Agosto, os dias se resumirão a 10 e 25). Desde Fevereiro, todo dia 10 será dedicado a essa série de oito artigos nos quais tentarei fazer uma associação entre alguma obra de Sci-Fi e um evento ou discussão recente. Autores diferentes, estórias diferentes, discussões diferentes… mesma data.
Sci-Fi é Vida #01 — “Minority Report” e o Dilema da Segurança Pública
Sci-Fi é Vida #02 — “Jurassic Park” e o Limite da Ciência
Sci-Fi é Vida #03 — “A Volta ao Mundo em 80 Dias” e o Espírito de Aventura
Sci-Fi é Vida #04 — “Tropas Estelares” e o Mal do Militarismo
Sci-Fi é Vida #05 — “O Dia em que a Terra Parou” e o Egocentrismo da Humanidade
Sci-Fi é Vida #07 — “O Homem Invisível” e os Percalços da Vida
Sci-Fi é Vida #08 — “Frankenstein, ou o Prometeu Moderno” e a Natureza da Ficção Científica
É comum buscarmos por grandes obras de Ficção Científica esperando aqueles cenários futuros de revolução tecnológica: “carros voadores”, hologramas, máquinas de teleporte, armas de raio laser etc. Nesses cenários, aparentemente todas as áreas urbanas foram tomadas por um avanço tecnológico surreal, principalmente se relacionadas a nossa atual infra-estrutura. Contudo, o provável futuro que nos espera permanecerá com as mesmas diferenças sociais visíveis em nossa sociedade, apenas catapultando-as para uns bons anos a frente. Faz-se bastante improvável a ideia de que as cidades e países terão uma distribuição minimamente igualitária de aparatos tecnológicos como veículos auto-pilotados de grande velocidade, produtos médicos de alta eficácia e dispositivos de entretenimento ultra-realistas.
Claro que boa parte dessa tecnologia sofre um barateamento drástico, de forma que a maioria da população possa desfrutar de determinados equipamentos (como acontece com o aparelho celular, que teve seu acesso possível por várias camadas de diversas sociedades). Mas ainda é posto que boa parte da tecnologia de ponta não está nas mãos do consumidor comum. Infelizmente é considerado ingenuidade pensar num amplo acesso às altas tecnologias médicas e de transporte pela população periférica que não oferece retorno financeiro a tais investimentos.
Talvez a obra mais recente (que me vem a memória) que traz esse cenário ideal é o filme Tomorrowland (2015), onde a protagonista se vê diante de um mundo com total ausência de distinções sociais. Nesse caso específico, a obra tem um caráter utópico que torna cabível essa representação de uma sociedade plenamente satisfeita, pois a tecnologia seria a responsável por trazer esse bem estar social. Há ainda algumas obras em que não há uma representação ampla da sociedade simplesmente porque o autor preferiu tratar de aspectivos subjetivos de um protagonistas. E também não podemos esperar que a ficção consiga sempre apreender todos os aspectos da realidade. Mas alguns bons autores de Ficção Científica se preocuparam em evidenciar a situação do pobre nesses mundos ficcionais. Entre tantos outros, Ray Bradbury foi um deles.
Um Conto Sobre Um Lixeiro

Em 1953, Ray Bradbury (1920–2012) publicou o conto “The Garbage Collector” (O Coletor de Lixo, literalmente). Falando um pouco sobre o autor, ele se tornou famoso através de sua distopia “Farenheit 451”, em que apresenta uma sociedade em que livros são proibidos (são inclusive queimados por bombeiros, invertendo sua real função), as pessoas estão presas em um mundo de entretenimento audiovisual, além de outros controles comportamentais. Ele ainda é responsável pela publicação de poesias, roteiros, peças e outros contos. No Brasil, além do romance já citado, temos publicados “As Crônicas Marcianas”, “O Zen e a Arte da Escrita”, Licor de Dente-de Leão, além de “A Cidade Inteira Dorme e Outros Contos”, de onde foi extraído o conto em questão (é possível ter acesso ao texto em inglês através desse link).
Na estória, somos apresentados inicialmente à rotina satisfatória de um lixeiro sem nome, em que o pesado dia a dia da profissão costuma ser atenuado pelo prazer de observar a vida das pessoas e o nascente/poente da cidade. Pode ser percebido traços de controle social pelo fato da proibição de ouvir música durante o trabalho e a maneira infantil (ao menos em minha opinião) como ele considera o seu trabalho como o melhor do mundo. Contudo, por ser um conto, tais aspectos não são plenamente desenvolvidos. Também, acredito que pela mesma razão, não vemos detalhes sobre o alcance da tecnologia em sua residência. Mas é fato que não estamos lidando com uma obra de alta tecnologia, até mesmo por se passar em 1951.
A trama atinge seu conflito quando o protagonista é informado que seu trabalho como lixeiro sofrerá uma mudança significativa de atribuições. Durante o seu trabalho como de coletar lixo, um rádio instalado nos caminhões informará os momentos em que ele deverá parar o que estiver fazendo para coletar os mortos de um ataque com bomba atômica a sua cidade. Ele então conversa sobre sua mulher sobre essa situação e seu possível abandono da profissão:
— “[…] O prefeito diz que vão colocar um aparelho de transmissão e recepção em cada caminhão de lixo da cidade.” Ele apertou os olhos olhando para a mão. “Depois que as bombas atômicas atingirem nossa cidade, aqueles rádios vão falar conosco. E então nossos caminhões de lixo vão sair e recolher os corpos.”
— “Ora, parece prático. Quando…”
— “Os caminhões de lixo”, ele disse, “sair e recolher todos os corpos.”
A esposa lembra, com toda razão, da necessidade de pagar as contas e manter a mínima estabilidade financeira para manutenção da família. Contudo, o lixeiro não acredita que essa é a vida que quer levar a partir de agora.
Tecnologia Para Todos?

A curta obra (o texto do link que disponibilizei acima possui três páginas) obviamente não disseca a sociedade na qual o protagonista está inserido. Nem mesmo fica tão evidente a distinção entre os detentores da tecnologia. Mas o conto se destaca nesse aspecto por decidir olhar o lado dos suburbanos, daqueles que não são protagonistas das obras de Ficção Científica justamente por não terem condições financeiras de arcar com os produtos que o autor tem interesse em descrever. Em determinadas estórias, é possível encontrar um protagonista pobre, mas ele acaba tendo acesso à alta tecnologia por um fator excepcional, como um grande intelecto.
No conto, não vemos com detalhes a tecnologia nas mãos dos ricos e a sua ausência nas mãos dos pobres, mas percebemos a forma como as altas camadas da sociedade se utilizam dessa tecnologia para opressão. Em primeiro lugar, o protagonista parece submisso à ordem de não poder ouvir música nos caminhões. Segundo, a mudança de atribuição não é negociada e pode acontecer a qualquer momento do dia. Terceiro, a tarefa de recolher os corpos de uma bomba atômica deveria ser feita com equipamento e local apropriado, e não recolhido por lixeiros para o meio do lixo comum. E quarto, como os prováveis corpos seriam de outros moradores do subúrbio, o lixeiro estaria jogando fora sem cerimônia os corpos dos seus vizinhos e amigos.
O protagonista então não aceita mudarem o sua função como lixeiro para algo tão desumano e para o qual ele não possuía qualquer preparo emocional e profissional. Em sua divagação, o protagonista traz um dos seus discursos mais fortes:
“Fico pensando”, ele disse, “se você põe os corpos no caminhão de comprido ou atravessados, com as cabeças para a direita ou os pés para a direita. Homens e mulheres juntos ou separados? Crianças em um caminhão ou misturadas com homens e mulheres? Cães em caminhões especiais ou simplesmente deixados onde estão? Fico pensando quantos corpos cabem em um caminhão. Fico pensando, e se você os empilhar, um em cima do outro, finalmente sabendo que você simplesmente precisa fazer isso. Não consigo imaginar. Não consigo calcular. Tento, mas não dá para adivinhar, não dá para adivinhar mesmo quantos você poderia empilhar em um único caminhão.”
Diferente dos amplos cenários de acesso tecnológico, aqui a personagem pequeno e mundano acaba sofrendo com as escolhas que são feitas sobre ele e apesar dele. Incapaz de se sujeitar a tudo isso, o protagonista tenta convencer a esposa de que a melhor opção para eles é se mudar para o campo, evadirem dessa guerra iminente e não se tornarem propagadores indiretos de atitudes desumanas com outros cidadãos. O olhar do Bradbury se torna necessário para aplicar em outras obras, ao fazer o exercício de imaginar como ficaram as distinções sociedades na realidade fictícia que você estiver lendo. É provável que essa atenção que você der ao pobre nos Sci-Fi se reverta no cuidado que você terá com ele em sua realidade.


