O medo das mulheres e a crítica à misoginia na série The Fall

Mulheres vivem com medo. É algo tão natural pra quem é mulher, que afeta nossas escolhas mais cotidianas, de um jeito que homens não entendem. Alguns respeitam, mesmo sem entender; alguns fazem piada, fazem fiu fiu na rua, acham que não têm nada demais. Mas fato é que mulheres vivem com medo. E isso está evidente nessas escolhas que fazemos no dia a dia.

Exemplo 1: Parada no ponto de ônibus, sozinha, um carro pára, com dois homens dentro, e me chama. Mantenho a distância, finjo não ouvir. Um deles pergunta pra que lado é a rua tal. Respondo sem muito contato visual, eles seguem. Um homem, no meu lugar, talvez tivesse medo de assalto, talvez andasse até o carro para dar a informação pedida. Uma mulher como eu pensa no perigo de ser colocada dentro do carro à força e, por isso, mantém a distância até visual.

Exemplo 2: Em outra ocasião, indo para o mesmo ponto de ônibus, um carro, dirigido por um senhor, vem desacelerando e pára. Pressuponho que ele queira alguma informação e olho. Ele me olha com cara de tarado e faz algum comentário grosseiro. Sigo para o ponto de ônibus. O carro passa por mim novamente e ele desacelera olhando pra mim enquanto passa. Tento não dar atenção, meu ônibus já deve estar chegando. O carro passa por mim uma terceira vez — quantas voltas no quarteirão ele pretendia dar para me assediar? Tiro o celular da bolsa e tiro uma foto dele me olhando. Ele solta algum xingamento inaudível e segue com o carro. Anoto a placa e mando por SMS para o meu primo, pedindo para avisar a um conhecido policial. Meu ônibus chega e vou. Estava já prestes a desistir e voltar pra casa.

Exemplo 3: Escolhendo roupa para uma festa, experimento uma blusa decotada. Gosto de como ficou, mas logo penso: não dá pra pegar ônibus, metrô e andar sozinha assim e depois ainda voltar sozinha de táxi. Não conheço nenhum homem cis hétero que já tenha tido essa preocupação na vida: ter medo de usar tal roupa porque pode acabar sendo estuprado no caminho. E, do jeito que são as coisas, se eu saísse sozinha com aquela blusa e fosse mesmo estuprada, infelizes diriam que foi minha culpa, afinal, onde já viu andar por aí com um decote desses.

Os exemplos são inúmeros; esses são só os primeiros três que me vieram à cabeça. Se você não entendeu nenhum deles, deixa esse texto pra lá. Se você está me acompanhando, vamos começar a falar sobre o que isso tem a ver com a série irlandesa The Fall. Aviso logo que vai chover spoiler. Nessa série, acompanhamos bem de perto a detetive Stella Gibson (Gillian Anderson) e o serial killer Paul Spector (Jamie Dornan especialmente lindo, escolha de elenco inteligentíssima que eu comento mais à frente).

Logo que a série começa, uma mulher chega em casa e vê sua lingerie em cima da cama, junto com um vibrador. Nós, espectadores, sabemos que Paul Spector esteve lá, mas acho incontestável que é digno de preocupação chegar em casa e ver sua lingerie arrumadinha com seu vibrador em cima da cama sem ter sido você a autora do arranjo. A mulher chama a polícia e, depois de darem uma olhada no local e se certificarem de que não tem ninguém lá dentro, os policiais (um homem e uma mulher) começam a duvidar um pouco da história dela. A mulher pergunta se ela bebeu naquela noite. O homem chega a fazer a pergunta risível de se o gato dela não podia ter feito aquilo. A vítima dispensa os policiais e deixa pra lá. É morta na noite seguinte.

A série também insinua a questão da adequação indumentária. Em uma conferência sobre os assassinatos para a impressa, Stella está vestida assim:

Ao longo de sua fala, Stella percebe o erro e abotoa a blusa até a pescoço.

A mensagem é clara: Stella não será levada a sério se estiver com um decote daqueles ou o assunto depois da conferência será o decote dela e não a série de assassinatos a mulheres que vêm acontecendo na cidade. Logo após a conferência, Stella é elogiada por ter percebido o equívoco de seu vestuário. Mulheres são julgadas pela aparência o tempo todo.

Já na segunda temporada, em conversa com a adolescente apaixonada, Paul Spector faz referência a esse momento. Conta que assistiu à conferência e que essa mulher estava comandando a investigação. E aí, ele se refere justamente ao decote dela, com muita raiva. É como se não fosse direito dela ter uma posição de poder ali e, pra piorar, ela ainda tinha a audácia de usar um decote.

Misoginia for dummies.

Acontece que, tanto a investigação desses assassinatos e quase estupros (Paul é movido por fantasias sexuais, mas não chega a estuprar as vítimas), quanto as subtramas da série, nos levam sempre a questionar o sistema de dois pesos e duas medidas ao qual nós, mulheres, somos submetidas na sociedade. A detetive Stella, logo que chega na cidade de Belfast, vê um policial em uma cena de crime, acha o cara bonito, dá o número do quarto de hotel dela a ele. Eles transam naquela noite. Na noite seguinte, por um infortúnio, ele é assassinado por criminosos. Descobrimos também que esse policial era casado. Stella é julgada por isso de maneira mais ou menos direta em diversos diálogos da série.

Esse cara do diálogo acima, Jim Burns, é conhecido de outros tempos da Stella — e aí ficamos sabendo que eles já tiveram um caso ou uma noite em tal época — e foi quem a convidou para trabalhar no caso investigado. Jim parece sempre especialmente perturbado por ela. Um misto de atração e medo, que acaba resultando em comportamentos ridículos e questionáveis. Em determinado momento, Jim considera de bom tom contar a Stella que a esposa do policial com quem ela transou tinha um amante, “caso você esteja se sentindo algo culpada”, ele acrescenta. Ela diz apenas que não está. Ele fica claramente desconfortável com o quão confortável ela está com tudo aquilo. Ele questiona as mensagens e fotos que o policial mandou para o celular dela antes de morrer. Ela diz apenas que o leu errado, pois imaginou que ele fosse do tipo que entenderia que aquela noite não passava daquilo. Jim tem um mini-surto:

E diz que teria deixado mulher e filhos e tudo mais por ela na outra época. Stella é cética:

O incômodo de Jim com o simples fato de que Stella transou com um policial que tinha acabado de conhecer é fruto de ciúme e também machismo. No primeiro diálogo que coloquei aqui, ele a repreende e enfatiza que o policial era um homem casado, sendo hipócrita ao ignorar que ele mesmo já esteve naquela posição. Acredito que o que ressalva Jim de ser julgado por isso, na cabeça dele, é que ele amava Stella. Não era só físico para ele. Por esse motivo, ele se vê como mais merecedor de ter algo com ela. Isso é muito comum com personagens masculinos que se acham muito legais apenas por estarem apaixonados, mas que confundem paixão com sentimentos de posse. Ross de Friends, Ted de How I met your mother, Tom de 500 dias com ela e vários outros. Mas esse é outro assunto.

Jim se acha tão legal que, na segunda temporada, quando aparece bêbado no quarto de Stella e tenta agarrá-la mesmo depois de ela já ter negado, não entende que fez algo errado. Estamos falando de uma série com um serial killer de mulheres, então, se vamos julgar comportamentos errados, é preciso colocar no topo da escala o cara que mata mulheres bem-sucedidas profissionalmente e se masturba com fotos delas mortas e, mais abaixo, o apaixonado bobalhão que tenta beijar a mulher à força. Ainda assim, quero frisar que, embora estejam em pontos diferentes, ambos estão na mesma escala de objetificação feminina. Há um diálogo maravilhoso sobre isso no último episódio da segunda temporada, quando Stella compara o comportamento dos dois. Jim fica chocado e Stella concorda que eles dois são homens diferentes, mas isso não o impediu de ter feito o que fez.

Voltando à questão cansativa do incômodo dos homens da série com a notícia de que a Stella transou com o policial que foi assassinado, há outro diálogo, esse mais explícito, sobre o assunto. Ao entrevistá-la devido à investigação do assassinato, o detetive (?) pergunta sobre o conteúdo das mensagens que o policial enviou para ela. Stella diz que não sabe, pois não chegou a abri-las. Ele pergunta se foi porque ele era casado. Ela explica que não abriu porque não quis e que ela não sabia que ele era casado. Já passando dos limites, ele pergunta: “Você não pensou em perguntar?” Ao que Stella responde:

Vamos todos parar pra olhar pra expressão facial desse infeliz.

Esse diálogo jamais se daria dessa maneira se ela fosse um homem e o policial morto fosse uma mulher. Por sorte, Stella é muito segura de si e não se deixa abalar pelas inúmeras tentativas de envergonhá-la por parte desse cara (desculpa, não lembro o nome do personagem e ele não é importante o suficiente pra que eu vá pesquisar). Pelo contrário, ela o enfrenta e, quando ele pergunta quando ela conheceu o policial — insinuando que não deu tempo de eles terem se conhecido muito bem antes da noite de sexo — , ela diz com todas as letras que ele está incomodado por ter sido uma coisa de uma noite só. Em seguida, faz uma bela análise sintática da frase “Man fucks woman” em contraste com “Woman fucks man” para ilustrar a diferença de percepção.

Além da aparência, mulheres são julgadas pelo comportamento tempo todo, em esferas que chegam a ser zonas de conforto masculinas, de tão normais que são consideradas para homens. São milhões de regras sociais não ditas que temos que seguir para sermos aceitas e para não sermos culpabilizadas por qualquer tragédia que venha a acontecer conosco.

Annie Brawley, uma das vítimas de Paul, acaba sobrevivendo. Na investigação, descobrem um vídeo dela em um site de relacionamentos para adultos. Nele, ela diz que quer ser dominada e que é resistente a dor. De fundo, ouvimos o detetive (?) dando risadas enquanto assiste ao vídeo, antes de mostrá-lo a Stella.

Stella, é claro, repreende o julgamento contido naquelas risadas. A culpa do ataque não foi dela por ter se exposto na internet; a culpa do ataque foi do homem que a atacou. E sem discussão sobre isso, apenas parem de culpar a vítima.

Vamos de exemplo 4? Outro dia estava conversando com um amigo gay e ele estava lamentando sobre como as relações gays que começam nos aplicativos são muitos rápidas. Segundo ele me contava, depois de poucas mensagens, os dois se encontram, transam, muitas vezes nunca mais se veem ou, se chegam a se ver novamente, a relação dura muito pouco. Em contrapartida, meu amigo estava observando que as relações entre homem e mulher iniciadas no Tinder acabavam sendo mais significativas ou dando mais certo. As pessoas ficam semanas trocando mensagens até se encontrarem pessoalmente e acabam se vendo outras vezes, mesmo que a relação não evolua para algo mais sério.

Expliquei a ele que é porque mulher vive com medo. É difícil para uma mulher ter sexo casual, porque não basta estar a fim e não ligar para que os outros pensam; tem que rezar pra não ser agredida ou estuprada — um medo que homens não têm. Por isso, é comum mulheres conversarem por semanas no Tinder até irem encontrar com a pessoa. Aí, acaba dando tempo de conhecer melhor (o que também faz com que muitos encontros nem cheguem a acontecer). Não é garantia de nada, mas já dá um pouco mais de segurança do que simplesmente ir pro apartamento de um desconhecido transar — um medo que homens não têm.

Na mesma linha, temos a narrativa de uma mulher, Rose, que teve um casinho com Paul oito anos antes. A doutora Reed Smith comenta com Stella que uma amiga saía com um cara na faculdade e, em uma noite, ele tentou estrangulá-la. Stella fica interessada em entrevistar essa mulher, pois, tendo ocorrido há oito anos, pode ser que aquilo tenha sido o início de tudo para o assassino que ela investiga. Ao fim da narrativa, Stella pergunta se ela sabia de algo além do primeiro nome dele (para ela, Peter) e ela diz que não. Já esperando ser julgada por isso, Rose acrescenta que sabe que é loucura transar com um cara que ela mal conhece, mas ela aprendeu a lição.

Não deixo de achar triste essa conclusão. Por mais que essa seja sim uma lição, já que precisamos nos proteger, é interessante pensar que nós só precisamos nos proteger, porque predadores como Paul Spector existem. E nunca sabemos quem pode ser. Daí, outro diálogo curto, porém certeiro, da série: Stella pergunta à doutora Reed Smith o que ela vai ensinar às filhas no futuro, pra que elas fiquem seguras. Reed responde que vai dizer o mesmo que já diz agora: “Não fale com homens estranhos”. Stella questiona: “Homens estranhos?” e Reed, resignada, corrige: “Qualquer homem.”

Esse diálogo remete a outra cena, do primeiro episódio da segunda temporada. Paul está no trem, voltando da Escócia, e uma mulher loira senta de frente para ele e larga um jornal em cima da mesa. Na capa do jornal, está uma matéria sobre os assassinatos, incluindo um retrato falado do assassino. Paul, confiante, pergunta a ela se o retrato falado se parece com ele. Ela ri — porque é claro que ele não poderia ser o assassino, né? — e diz que um pouco, sim. Paul pede licença, pega o jornal, pega uma lapiseira e desenha uma barba no retrato. “E agora?” E ela concorda que agora parece mais.

Eles começam a bater papo. Paul pergunta se ela mora na cidade, ela diz que sim. Paul parece inofensivo. Ele é interpretado por um ator que era modelo da Calvin Klein. Ele não tem cara de serial killer. O Christian Grey, de Cinquenta tons de cinza, papel que esse ator ganhou também, tem mais cara de serial killer do que ele. A mulher não se sente ameaçada. Responde também que mora sozinha, a duas ruas de distância de onde uma das vítimas morava. Ele comenta que todas as vítimas eram morenas e ela é loira. Ela explica que, na verdade, ela é morena, mas pintou o cabelo de loiro quando os assassinatos começaram. Ele fica maravilhado com a descoberta e ela prova que está falando a verdade mostrando a ele a carteira de identidade (ou de motorista?). Totalmente desprotegida e sem noção.

Mas é o que eu disse: Paul Spector não tem cara de serial killer. Foi uma escolha muito inteligente escalar o Jamie Dornan como assassino e estuprador da série. No imaginário social, assassinos são pessoas que jamais poderiam ser conhecidos nossos, estupradores são pessoas fisicamente asquerosas por quem jamais sentiríamos atração em um primeiro momento, e psicopatas são seres frios que não passariam despercebidos por nós, que somos tão sagazes e vimos tanto CSI. Pôr um homem jovem, bonito e charmoso pra ser isso tudo numa série é um tapa na cara. Você olha pra ele e se sente atraída, mas isso é errado, porque ele é um serial killer.

Ironicamente, antes de matar suas vítimas, Paul tira a máscara. Deve ser realmente desconsertante estar prestes a morrer pelas mãos de um desconhecido e ser surpreendida pelo fato de que ele é lindo e que, em outras circunstâncias, você provavelmente flertaria com ele.

Paul tirando a máscara antes de matar Sarah Kay.
Sarah Kay, a primeira vítima que conhecemos (terceira de Paul).
Paul tirando a máscara antes de estrangular Annie Brawley.
Annie Brawley logo após Paul tirar a máscara.

Ele vai ficando mais nojento com o passar dos episódios e você vai conseguindo encaixar naquela boa aparência que ele tem o ser horrível que ele de fato é. É muito bem construída, a narrativa. No início, achei a série bem incômoda, pois, antes de se tornar evidente que ela é sobre misoginia, eles expõem cenas que eu não faria questão de ver, como a vítima sendo perseguida e estrangulada e o assassino sentindo prazer com isso. Não é só um thriller. Esse tipo de coisa acontece todo dia, com mulheres que existem de verdade. Não é entretenimento ver cenas fictícias assim, pois eu estou sempre vulnerável a passar por isso também. Eu e qualquer mulher, com ou sem decote. Por isso, não é algo agradável de se ver, por mais que seja só uma série.

Histórias de serial killers e psicopatas em geral são comuns na ficção e causam certo fascínio no público. Talvez, há algum tempo atrás, eu estivesse fascinada por Paul também. Hoje em dia, lidando mais com feminismo, ouvindo e lendo mais histórias de agressões a mulheres, das mais violentas às mais “leves”, não consigo ter essa empatia por ele. No último episódio da segunda temporada, Stella pede que um dos membros de seu time interrogue a adolescente apaixonada por Paul, já que ele “se parece com Paul”. Mais adiante, o cara pergunta o que ela quis dizer com isso, se havia alguma insinuação ali. Ela explica que não, trata-se apenas do fato de que ele é homem, jovem e tem tipo físico tal. Ele ressalta que há algo de fascinante em uma pessoa como Paul Spector. Ele parece não entender, como se houvesse certa distância entre ele e os assassinatos investigados. Stella, então, tem uma das falas mais maravilhosas da série, que eu vou traduzir livremente aqui:

Uma mulher, não me lembro quem, perguntou a um amigo por que homens se sentem ameaçados por mulheres. Ele respondeu que eles têm medo de que as mulheres vão riam deles. Quando ela perguntou a um grupo de mulheres por que mulheres se sentem ameaçadas por homens, elas disseram: “nós temos medo de que eles nos matem”.

Stella, categórica, finaliza que não, não tem nada de fascinante em um homem como o Paul; ele é apenas repugnante.

O medo das mulheres não existe por paranoia, mas porque somos ensinadas desde sempre a nos proteger — mesmo que isso signifique nos anular por completo em decisões sobre aparência e comportamento. E nós somos ensinadas a nos proteger, porque os perigos existem, e eles vão de julgamentos e piadas a estupros e assassinatos. E é por isso que fiu fiu na rua não é só fiu fiu. O homem não precisa ser um serial killer, torturador e estuprador de mulheres para ser misógino. A misoginia, na verdade, se evidencia no contexto microssocial de diversas maneiras, começando por esse controle que a sociedade exerce sobre nossos corpos e pela falta de respeito pelo nosso espaço.

A gente nunca sabe do que as pessoas são capazes e, em uma sociedade patriarcal, em que nós, mulheres, vivemos diariamente com medo até nas pequenas coisas, não é frescura considerar essas cantadas um assédio. Elas são sim assédio. Não é elogio. Não é piada. Não são homens que têm que dizer se são (in)ofensivas ou não. Não adianta justificar. Basta respeito.

Deixo a Stella finalizar:

Maravilhosa.