O medo de ser uma fraude
- os embrulhos daqueles que transformam inquietudes em arte

Tem um filme (francês?) de época que conta a história de uma senhora da alta sociedade que sempre quis ser cantora. Ela sentia-se cantora, comportava-se como uma cantora, ensaiava com regularidade, organizava e bancava grandes recitais, cantava para muitas pessoas e era feliz acreditando nos aplausos.
Todos falsos.
Na verdade, a mulher tinha uma voz de pato horrorosa e o canto dela machucava os ouvidos daqueles que o ouviam. O marido já a odiava por isso, por ter de ouvir aquele canto insuportável todos os dias e ter de fingir muito bem fingido que havia um grande talento aí. Chegava atrasado aos recitais para não precisar lidar com as pessoas todas rindo pelos cantos e ridicularizando sua esposa, coitada, que se achava a talentosa. Mas todos a aplaudiam, todos a bajulavam e elogiavam, alimentando aquela farsa e fazendo-a acreditar que era boa naquilo, que devia seguir em frente com seu talento especial. Pelas costas, gargalhavam e faziam dela a grande chacota do país.
Um belo dia, o marido, cansado da mentira de toda uma vida, gravou a cantora enquanto ela dava o melhor de si. Enviou o disco para que ouvisse e, arrependido, não chegou a tempo de evitar a tragédia: ao finalmente conhecer a verdade que haviam escondido dela durante toda uma vida de fiasco, não resistiu e morreu de desgosto.
Não lembro o nome do filme, mas lembro de ter saído do cinema meio atordoada. Seria eu uma cantora iludida acreditando na minha arte patética? Alguém realmente gosta do que eu escrevo ou estão todos trabalhando unidos para me manter nessa ilusão? Embrulhos. Onde encontrar essa verdade? Como saber se não sou motivo de chacota? Quem disse que meus textos não servem pra que eu seja ridicularizada? Embrulhos. Por que se expor desse jeito, no que acreditar? Mentirosos, todos. Embrulhos.
A verdade é que o artista vive de incertezas, de alguns altos e muitos baixos. Inseguranças. Vazios. Medos. E se não der? E se alguém descobrir que sou uma farsa e a notícia se espalhar? E se mentirem que está bom, que está lindo e se rirem de mim. Embrulhos. E se eu quiser me reinventar e não houver espaço, e se eu quiser mudar e não houver mais como?
Aceitar os embrulhos e, aqui e lá, transformá-los em arte. E se for tudo uma grande mentira, uma farsa sem tamanho, no final, a gente morre do mesmo jeito.
Ao artista não existe salvação que não passe pela arte: é sua desgraça e sua redenção. E já que a arte, meus caros, vive de embrulhos, ser artista – em um suspiro – é um grande ato de coragem.


